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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

14/03/2012 14:08

A vergonha do homem decente

Luca Maribondo

Nos raros momentos em que, no Brasil, se resolve abrir a eterna caixa preta da corrupção, a palavra cínico e seus derivados começam a aparecer com notável freqüência na mídia. Originalmente, cínico é o adepto da doutrina dos filósofos gregos Antístenes de Atenas (444-365 a.C) e Diógenes de Sinope (400-325 a.C.), que se caracteriza especialmente pela oposição aos valores sociais e culturais em vigor, com base na convicção de que não é possível conciliar leis e convenções estabelecidas com a vida natural autêntica e virtuosa. É o que está no Dicionário Houaiss.

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No mesmo dicionário, a gente fica sabendo que, por extensão de sentido, cínico é aquele que afronta ostensivamente as convenções e conveniências morais e sociais; ou aquele que é dado a atos e/ou ditos imorais, impudicos, escandalosos; desavergonhado, debochado, sarcástico. Mais ainda: é aquele que fala ou age com descaso, impudência, falta de escrúpulos; petulante, atrevido. Muita coisa, não?

Há alguns anos, recebi, através de email, texto anônimo no qual o autor faz uma alentada defesa do cinismo. Uso partes desse texto e algumas idéias minhas para também propugnar pelo cinismo. Os filósofos cínicos, de acordo com Bertrand Russel em sua “História da Filosofia Ocidental” se perguntavam: “como podem os homens ser virtuosos num mundo mal, ou felizes num mundo de sofrimento?”. Serve de base teórica para os políticos que se defendem, quando acusados de corrupção, argumentando que “não sou o único... todos fazem” ou não?

Desde 1889 —67 anos depois da independência—, ano da fundação da República brasileira —implantada a partir de um golpe militar— os eventos políticos tupiniquins caracterizam-se por um grau de corrosão que beira o absurdo. Houve momentos em que a corrosão foi maior, como quando aconteceu o golpe militar de 1964, ou na posse de João Goulart, ou ainda nas estranhas mortes de Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, na deposição de Fernando Collor, na aprovação da reeleição de Fernando Henrique Cardoso.

Cronistas e analistas que estão na lida historiando os costumes de nossos representantes nos três poderes, principalmente no Parlamento, sempre repetem uma palavra mágica: a atitude e a fala dos parlamentares e dos agentes do governo, para não falar nas togas, têm sido alcunhadas de cínicas. Em defesa da verdade factual e histórica, é preciso dizer que isto é de uma injustiça gritante. Os cínicos —os primeiros cínicos, como os já citados Antístenes de Atenas e Diógenes de Sinope— receberam essa denominação (do latim cynicus, de origem grega, para designar o cachorro) porque mordiam como cães ferozes os hipócritas e os poderosos. O modo cínico de agir é o exato oposto do empregado pelos senhores do Parlamento e dos outros poderes da República.

Padre Antonio Vieira, no atualíssimo “Sermão do Bom Ladrão”, elogia o cínico Diógenes de Sínope, “que tudo via com mais aguda vista do que a dos outros homens”, quando ele, apontando o dedo para os “ministros da Justiça” que levavam à forca alguns ladrões, “começou a bradar: ‘lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos’”. Quem vive nesta segunda década do século 21 e testemunha toda sorte de gente em busca de interesses inconfessáveis, percebe a justeza e a atualidade dessas frases do bom jesuíta Vieira: austero, inspiradas na conduta cínica.

Os dois filósofos gregos ensinavam que a alma humana é imortal, sendo preciso bem administrá-la, pois a sua estrutura, embora mais elevada do que a do corpo, possui uma enorme fragilidade. O autoconhecimento mostra-se estratégico, bem como a vida em perfeita amizade (“um amigo é uma só alma em dois corpos”). Dentre os empecilhos à boa amizade, ensinam os cínicos, estão a inveja, a lisonja, a ignorância e as humilhações recíprocas. Contra elas, o treino ascético é fundamental. Quem se acostuma a bajular o próprio corpo logo estará apto, na alma, a ser bajulado pelo primeiro inimigo disfarçado.

Mais: a felicidade só pode ser atingida se resultar da mais inflexível justiça e da mais rigorosa liberdade. Não depender dos confortos ilusórios trazidos pela riqueza e pelo mando político é o modo de ser livre e de conquistar a plena autarcia, o domínio sobre si mesmo. Sem ela, a escravidão ronda almas e corpos. Assim falavam os cínicos. Disso resulta a fraqueza da língua.

A palavra livre, segundo os cínicos, é a mais bela das conquistas humanas. Nem preso aos ricos e poderosos nem sujeito à multidão, o verbo consciente recusa a lisonja pessoal e a demagogia. Do cínico Diógenes é a frase célebre: “quando sou aplaudido por muitos, certamente devo examinar-me para saber se não disse uma bobagem”. A liberdade assim percebida se baseia na ascese. A virtude ascética fez o filósofo jogar longe o seu caneco ao ver um menino bebendo da fonte com a palma da mão.

Apenas o necessário à vida, sem luxos, sem pedantismos e sem lauréis. Essa é a doutrina cínica. Os cínicos ajudam-nos, até hoje, a romper com a hipocrisia da fala “politicamente correta”. Tamanha potência da virtude fez o pensador gritar ao poderoso Alexandre: “Desejo somente que não me tires a luz do sol”. Ah, se os nossos governantes e políticos fossem de fato cínicos! Todos os ensinamentos dessa escola resistiriam ao tempo e aos regimes políticos. O prisma negativo que essa escola recebeu foi dado justamente pelos ardilosos donos do poder, político ou religioso. A calúnia perdura até os nossos dias, em proveito dos inimigos da disciplina, da liberdade de atos e palavras e dos que amam a riqueza (sobretudo a pública) para seu conforto e ostentação.

O cão é símbolo, na cultura grega, da amizade política mais nobre. Platão afirma que os dirigentes da República devem ser como os cães: gentis e leais para com os de casa; ferozes contra os inimigos. E o tirano seria como o lobo, que devora os bens dos cidadãos em proveito próprio. Daí a tese de Jean Bodin sobre a tirania: “Tirano é o que usa os bens dos súditos como se fossem seus”. Vivemos em contínua tirania neste país, mesmo hoje, apesar da aparente democracia. Tudo entre nós está invertido e pervertido. A começar pelo tom errado que damos a uma das mais rigorosas éticas filosóficas do Ocidente, a cínica.

Os políticos, donos do poder, lobos, hienas, urubus-ministros e abutres —bestas-feras no dizer de um araponga ilustre da Abin (Agência Brasileira de Inteligência[?])— que dominam o picadeiro da cinquentenária Brasília, se distanciam dos cínicos. Eles são hipócritas e corruptos, amolecidos nos costumes e empachados de riqueza roubada. Se não temos a bravura dos cínicos, pelo menos não aceitemos as calúnias contra eles, que apenas servem para absolver os seus alvos, os relaxados na moral que enodoam as instituições públicas brasileiras.

Vivemos sob um governo que chegou ao poder através de um partido que se arvorava em dono da verdade e administrador da ética; que nos vendeu por mais de vinte anos a idéia de que era possível mudar tudo pra melhorar o País. O jornalista norte-americano Henry Louis Mencken já dizia que “o pior governo é o mais moral. Um governo composto de cínicos é frequentemente mais tolerante e humano. Mas, quando os fanáticos tomam o poder, não há limite para a opressão”. E parece ter toda a razão. O que se vê agora é que os atos daqueles que exercem o poder hoje no Brasil nos fazem pensar que todo homem decente deve ter vergonha do governo sob o qual vive.

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Todos sabemos que a corrupição tomou conta desse país a anos, e junto com éla a impunidade. Calhordas igual a esse Demostenes são 70% dos politicos desse páis. Só uma coisa muda isso no Brasil! codigo penal forte com diminuição de 50% dos rescursos judiciais. Tambem tem que mudar urgentemente o sistema politico brasileiro,só assim podera mudar alguma coisa nesse Brasil.
 
ROBERTO NUNES em 08/04/2012 09:43:17
Lembrei de Rui Barbosa: "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto."
Rui Barbosa
 
Breno Roosevelt em 07/04/2012 05:22:25
PARABÉNS !!!! EXCELENTE TEXTO......NOTA 10...
 
JOSE DONIZETI em 05/04/2012 06:52:54
O meu filho que reside em Campo Grande, pediu-me por telefone para ver as manchetes sobre os estragos deixados pela tempestade - fenômeno natural, no dia de ontem.
Fenomenos naturais acontecem, também, aqui em São Paulo. Sou solidário a sua columa: "A vergonha do homem decente". Nós estamos presenciando "os estragos artificiais" provocados pelo homem (com h minúsculo) no Congresso Nacional.
 
Arnaldo Bocchi em 03/04/2012 11:36:55
Compartilhei no Face!
 
Nilza Pegoraro em 03/04/2012 09:39:41
Sr. Luca é uma pena que não vejo atualizações em seu blog há muito tempo, ainda hoje estava relendo alguns artigos... graças aos excertos que faço dos seus textos, eu me oriento em estudos no curso de História voltados à uma opinião mais crítica socialmente, queria ter pessoas de opinião assim no DCE da UFMS e nos CA's... estamos precisando.
 
Maiko Oriozola em 03/04/2012 04:17:20
Grande Maribondo...o texto intocável e o arremate dele caiu como uma luva no momento atual. Nota 10.
 
manoel afonso em 01/04/2012 09:46:01
O que falta para o nosso povo, é conhecimento, cultura, saber, e tudo o mais que sòmente a educação pode proporcionar. Dificilmente os estudantes, mais ainda, os professores (mal remunerados) teriam tempo e disposição para a leitura de um texto como este, que demanda um certo grau de conhecimento para sua absorção. Investimento em educação não é prioridade dos gestores públicos,
Parabens sr. Luca
 
bene rodrigues costa em 28/03/2012 07:34:58
Parabéns Sr. Luca Maribondo, como bem disse a colega Maria Angelina, é lamentável que a imprensa de modo geral não pensa assim, mas me conforta em saber que temos pessoas como o senhor, que sabe separar o trigo do joio (os cães gentis dos ferozes lobos). PARABÉNS
 
Emilio Carlos da Silva em 24/03/2012 09:53:18
antigamente,coisa de uns 30 anos atras os maus pagadores,vigarista,enganadores etc.eram conhecidos como velhacos. os homens,pagadores de seus compromissos,cumpridores de suas obrigaçoes etc.eram conhecidas como cidadaos de bens e etc.hoje tudo mudou,os velhacos,ladroes.maus pagadores sao citados como cidadaos inteligentes e modernos,e os homens honestos de bem,nao tem valor algum.votem certo.....
 
jose aparicio fontoura em 24/03/2012 03:28:52
Sr Luca Maribondo, meus parabens. Sao palavras e atitudes como estas que nos fazem acreditar que nem tudo esta perdido. Cumprimento também o Campo Grande News por ter entre os seus colunistas, pessoas do gabarito do Sr Luca de quem desde já sou admirador e leitor.
 
walmir dos santos em 23/03/2012 07:20:41
Belíssimo texto Luca!! Como sempre.
 
Ariosto Barbieri em 20/03/2012 08:59:02
Esclarecedor para mim. Fiquei emocionada ao ler seu artigo. Quem dera toda a imprensa tivesse essa qualidade. Parabéns e obrigada pela beleza das palavras.
 
Maria Angelina de Sandre Duenha em 20/03/2012 05:25:35
“o pior governo é o mais moral. Um governo composto de cínicos é frequentemente mais tolerante e humano. Mas, quando os fanáticos tomam o poder, não há limite para a opressão”.


Sem mais.
 
Ronaldo Castor em 20/03/2012 01:28:00
O cinismo é só mais um termo desvirtuado pela hipocrisia que paira sobre a nossa sociedade. Acredito que já estamos chegando na fase do salve-se quem puder... Belo artigo, de rara qualidade em nossa imprensa cada vez mais parcial e sedenta por sangue ou por favores aleatórios de quem puder fornecê-los para ter seus interesses defendidos.
 
carlos moraes em 18/03/2012 11:21:40
Um texto belo, profundo e verdadeiro. Eis um Marimbondo privilegiado por seus dotes e de parabéns o Campograndenews por tê-lo em seus quadros. Saúde, Marimbondo, e muita peçonha cínica contra essa corja que nos suga e envergonha!
 
Valfrido m. Chaves em 17/03/2012 07:36:12
Belo texto Marimbondo.

O diabo está em que a hipocrisia não pode se instalar no poder sem a conivência da grande imprensa que haveria de ser cínica, e, ao reverso, é mais hipócrita do que a camarilha governante, visto que é dela materialmente dependente.
 
Paulo Junges em 15/03/2012 09:09:10
Parabens pela matéria Sr. LUCA, uma pena que a sociedade não percebe a tiranía em que vivemos. E a grande maioría vive a aplaudir os tiranos.
 
porfirio vilela em 15/03/2012 07:04:30
Eu nunca havia pensado no "cinismo do bem". Mas gosto da ideia.
 
Julia Hanna Saboia em 14/03/2012 03:59:58
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