A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

17/07/2013 06:02

A Comissão da Verdade para o cidadão brasileiro

Por Jean Gaspar (*)

“Para as famílias das vítimas, esclarecimentos sobre a forma como ocorreram os crimes servirão para curar as feridas. Para a sociedade, permitirão que tais fatos permaneçam na memória e não aconteçam mais”.

Veja Mais
Em busca da competitividade sustentável para o agronegócio
Elementos da teoria da decisão

Rever a sua história, analisá-la para entender o passado do nosso Brasil, é também trilhar o caminho do ensino da verdade, da ética e, sobretudo da preservação da vida para as futuras gerações. Muita gente, como eu, vivenciou a ditadura vivida por nosso país. Não cabe aqui ressaltar as diferentes lutas pela conquista da liberdade e pela construção da democracia.

Assim como no Brasil, existem no mundo todo organizações nacionais chamadas de comissões da verdade que buscam apurar com mais eficácia e estabelecer a verdade sobre crimes e fatos não esclarecidos num certo momento da vida de um povo, de uma nação.

A título de exemplo, cito o caso do Canadá, onde há uma comissão da verdade que visa a apurar e sensibilizar a população sobre sevícias sofridas durante anos por ex-alunos indígenas em colégios e pensionatos e suas consequências devastadoras para suas comunidades.

Temos a comissão da verdade no Ruanda que apurou o genocídio ocorrido em 1994, com quase um milhão de mortes; e na da África do Sul, sobre o apartheid. Essas comissões atuaram como tribunais civis que serviram para descobrir a verdade e os motivos pelos acontecimentos graves. Outros países próximos, como Argentina, Bolívia, Chile e Paraguai, também têm as suas comissões da verdade.

No caso do nosso país, caminhos sinuosos e tortos marcaram a sua trajetória, com violências, torturas, execuções extrajudiciárias e desaparecimentos forçados. Saber o que aconteceu de fato, trazer para as vítimas um semblante de paz por descobrir a verdade, é uma forma de chegar ao perdão. Apesar da anistia geral, a verdade é essencial, pois ajudará as vítimas diretas a entender os crimes que as atingiram, facilitará o reconhecimento público dos seus sofrimentos.

Para as famílias das vítimas, esclarecimentos sobre a forma como ocorreram os crimes, os desaparecimentos servirão para curar as feridas. Para a sociedade, detalhes sobre os acontecimentos e em que condições se produziram as violações permitirão que tais fatos permaneçam na memória e não aconteçam mais.

Apesar da anistia geral, a verdade é essencial, pois ajudará as vítimas diretas a entender os crimes que as atingiram, facilitará o reconhecimento público dos seus sofrimentos.

É nesse âmbito que foi criada pelo Executivo, a Comissão Nacional da Verdade, através da Lei 12.528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012. Essa comissão tem por finalidade apurar as graves violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.

Para isso, diversos grupos de trabalhos vão pesquisando fatos como o golpe de 1964 e os crimes dele decorrentes, as doutrinas e ideologias que serviram de base para repressão, a própria estrutura da repressão, as violações de direitos humanos ocorridos, como é o caso da morte do jornalista Vladimir Herzog ou do desaparecimento do deputado Rubens Paiva, as violações contra os índios na luta pela terra, a guerrilha do Araguaia, as violências sexuais contra mulheres, suas consequências e impacto, sobretudo para aqueles que participaram de forma ativa em movimentos de resistência. São todos esses fatos da nossa história que serão apurados e esclarecidos pela Comissão Nacional da Verdade.

É importante conhecer a verdade e por isso deve-se apoiar essa comissão para que leve adiante um projeto tão valioso para o cidadão brasileiro, para nossa história. Não há dúvidas sobre a obviedade do perdão, por isso existe a anistia. Porém, é imprescindível que atores vivos desse passado sombrio do nosso país e o Estado, após apuração dos fatos, reconheçam os seus crimes e que o Brasil caminhe na conscientização da consolidação da democracia e das liberdades.

Uma participação efetiva do povo brasileiro na busca pela verdade poderá trazer relatórios mais contundentes sobre o nosso passado, visto que essa comissão só terá dois anos para trazer suas conclusões, lembrando que há mais de uma que ela foi instalada. O prazo é muito pouco para apurar décadas de violações de direitos humanos, e haja vista a falta de conhecimento da população e a pouca divulgação a esse respeito, há certa preocupação sobre o verdadeiro impacto da atuação da comissão e dos seus relatórios.

Vale acompanhar o trabalho dessa comissão, e torcer para que os relatórios que vão sendo publicados à medida que são concluídos, sejam difundidos, incorporados em materiais didáticos, livros, bibliotecas para a posteridade etc. Estaremos divulgando a nossa história e preparando as futuras gerações sobre a importância de salvaguardar a democracia, as liberdades individuais e coletivas e valorizar a vida.

(*) Jean Gaspar é mestre em Filosofia, apresentador do programa Filosofia no Cotidiano (TV Cantareira) e presidente da Liga do Desporto, entidade que promove atividades físicas e desportivas como instrumento de educação e formação da cidadania.

Em busca da competitividade sustentável para o agronegócio
O papel da sanidade animal e vegetal Há décadas as questões sanitárias de plantas e animais integram a lista das preocupações do agronegócio brasilei...
Elementos da teoria da decisão
A propósito do fim do ano de 2016 (terrível na política e na economia) e com o ano de 2017 (com esperanças de que as coisas melhorem), participei de ...
O diálogo inter-religioso
Desde a declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, a Igreja busca manter o diálogo inter-religioso. Aí surge a pergunta: Por que o diálogo co...
Embarque comprometido
O Brasil está entre os cinco melhores mercados de aviação doméstica, mas há quase dois anos vem perdendo demanda por conta do cenário econômico. Só e...



imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions