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17/01/2012 11:30

A travessia de Paris - Os limites de atuação

Por Guido Bilharinho*

Sob um título como o do filme A Travessia de Paris (La Traversée de Paris, França, 1957), de Claude Autant-Lara (1901-2000), era de se esperar algo consentâneo com a magia dessas palavras quando unidas.

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Paris, por sua carga histórica, social e cultural, irradiava, antes muito mais do que agora, o charme irresistível do que de mais sofisticado havia no mundo, o que era verdade.

A travessia de uma cidade dessas exigia, pois, algo que sintetizasse todo o encanto que essa urbe ostentava e todas as aventuras que em seus boulevards, bois e sob seus tetos a imaginação tecia com as linhas da distância, do desconhecimento e da ilusão.

Mas, sob essa dominação, o que urde Lara? Exatamente o oposto disso, em todos os sentidos possíveis e imagináveis.

Ao invés dos amplos, magníficos e brilhantes bulevares, ruelas esconsas e desertas, banhadas pelas sombras que a luz mortiça de postes isolados não só não espancam como, ao contrário, ressaltam.

Ao invés do constante vai e vem de carros e pessoas bem postas e melhor vestidas desfilando em largos, larguíssimos passeios, ao lado das mesas de esfuziantes bares e cafés, ruas estreitas, escuras e ermas de bairros longínquos.

Ao invés de personagens nimbadas por áurea de mistério, simples pequenos-burgueses amedrontados e esfaimados.

Ao invés, finalmente, de aventuras magníficas e rocambolescas, mero transporte de carne de porco no mercado negro de alimentos.

Contudo, essa não é a Paris dos franceses, a cidade luz, a cidade da liberdade, do encanto, da alegria e do savoir-vivre. Não é essa Paris que Lara focaliza, mas, a cidade ocupada, tiranizada e aviltada pelas tropas nazistas alemãs.

Aí, então, tudo tem de ser o inverso do costumeiro e do tido e havido alhures. Não a cidade linda numa noite luminosa. Porém, a urbe feia, enfezada e soturna. Externa e internamente. A cidade em que tocar ou ouvir a Marselhesa, o hino supremo, era perigoso e devia ser evitado. Ou seja, o colapso de um país, de uma civilização, de uma cultura. Felizmente, apenas momentaneamente.

Nem por isso, todavia, o filme é excepcional, conquanto simbólico, emblemático e documental, não obstante os atos que contempla, com uma ou outra alteração ou adaptação, possam ocorrer também em períodos de normalidade institucional.

Mesmo construindo a Paris antitética, mesmo insuflando em suas artérias, física e intimamente, o horror e a suprema humilhação daqueles dias, o cineasta não conseguiu criar obra de arte à altura da vicissitude.

A mera utilização de personagens, entrecho e fatos antípodas da adição e do caráter da cidade por si só não basta para refletir o estado a que se chegou naqueles dias inglórios.

Mas, que Lara esforçou-se não há dúvida. Nada mais deprimente, mesquinho e desventurado do que se atravessar Paris nas condições descritas com carne de porco distribuída em prosaicas malas, carregadas por simples mercenários pagos para tanto. Nem a circunstância de um deles ser, por acaso, pintor respeitado até pelos nazistas atenua o desdouro da situação. Ao contrário.

A questão é que o cineasta francês utiliza tais símbolos convencionalmente, inserindo-os em narrativa linear e naturalística, que deles não capta o significado (e sua abrangência), mas, apenas a manifestação exterior esgotada em seus próprios limites de atuação.

A grandeza não reside no status das personagens nem em atos relevantes, mas, na densidade e verdade de seus conteúdos, o que o filme francês não antevê, não constrói nem expressa.

Ao fim e ao cabo, tem-se tão-somente a estória simples que narra, os fatos banais que articula e as personagens superficiais que põe em ação miúda e descompassada.

Nada, pois, de relevante ou importante, conquanto testemunhe, na negritude das ruas, na insignificância das personagens e de seus atos, igual etapa histórica do país.

(do livro O Filme Dramático Europeu, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2010-www.institutotriangulino.wordpress.com)

(*)Guido Bilharinho é advogado

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