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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

09/08/2016 10:48

Abertura da Rio 2016 e o paradoxo dos megaeventos esportivos

Por Ary José Rocco Jr. (*)

Na noite da última sexta-feira, o Maracanã, no Rio de Janeiro, foi o centro das atenções do mundo durante, aproximadamente, quatro horas. Dirigida pelo premiado cineasta Fernando Meirelles, a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 deu início oficial às competições esportivas que acontecem na Cidade Maravilhosa até o dia 21 de agosto.

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A cerimônia, considerada pela imprensa internacional como emocionante e criativa, mostrou o Brasil ao mundo, com forte conotação política, ênfase na miscigenação que deu origem ao “povo brasileiro” e imenso apelo ecológico. Suscitou, nas redes sociais, avalanche de postagens celebrando a redenção do Brasil e de toda sua gente.

Toda expectativa criada em torno da cerimônia de abertura, com seus detalhes guardados de forma estratégica a “sete chaves”, como se segredos de Estado fossem, mostra a importância do ritual de abertura dos jogos olímpicos para o País sede e toda a comunidade internacional.

Além de dar voz ao Brasil, que abriga as competições, o ritual contribui de forma acentuada para a inclusão cada vez mais profunda do esporte, e seus megaeventos, na indústria do entretenimento. A cerimônia acentua, provoca, mostra de forma clara o paradoxo dos grandes eventos esportivos globais: a promoção do esporte acontece ao mesmo tempo em que ele, esporte, é eclipsado pela festa.

Segundo levantamento feito pelo canal de TV francês BFM, os Jogos de Atenas, em 2004, Pequim, em 2008, e Londres, 2012, foram as três cerimônias mais caras já vistas em toda a história dos jogos olímpicos, com valores de R$ 143 milhões, R$ 295 milhões e R$ 122 milhões, respectivamente. A organização da Rio 2016 afirma que a cerimônia brasileira teve um custo menor que a de Londres. Os números oficiais da “festa” brasileira não foram divulgados.

O pesado investimento feito pelas cidades nas cerimônias de abertura é explicado pela visibilidade do evento. A abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, na China, em 2008, foi vista por, pelo menos, 2 bilhões de espectadores em todo o mundo. Contribuiu, também, para o país asiático se posicionar no contexto geopolítico internacional.

A escolha brasileira de entregar a Fernando Meirelles a direção da cerimônia também faz parte da lógica do megaevento jogos olímpicos. Diretor dos premiados Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, o cineasta representa, para o Brasil, o mesmo que Danny Boyle, autor de sucessos do cinema, como Trainspotting e Quem Quer Ser Um Milionário?, que dirigiu o evento de abertura de Londres 2012, para os britânicos.

A escolha de cineastas reconhecidos internacionalmente contribui para colocar os jogos em evidência global, valorizando e promovendo o megaevento, e, por consequência, a cidade escolhida para abrigar a competição. Por outro lado, escancara a já sólida inserção dos grandes eventos esportivos na chamada indústria do entretenimento.

O esporte apresenta, no mundo contemporâneo, uma dimensão global e a cultura que o cerca ocupa lugar de destaque na moderna indústria mundial do entretenimento e do consumo. A ânsia pelo entretenimento instantâneo é consequência da sociedade de consumo e de sua fragmentação.

Os produtos culturais, como o esporte e a música, por exemplo, são feitos para serem rapidamente consumidos a fim de que novos sejam produzidos. É o caso das cerimônias de abertura dos jogos olímpicos.

Todos esses elementos constituem aquilo que o pensador marxista francês Guy Debord definiu como “Sociedade do Espetáculo”. O conceito central da sociedade do espetáculo de Debord é que a alienação é mais do que uma descrição das emoções de um indivíduo ou de um aspecto psicológico. É o resultado do modo capitalista de organização social que assume novas formas e conteúdos no processo de reificação, a transformação em bens e mercadorias, da vida humana.

Numa interpretação livre de Debord, as cerimônias de abertura materializam, então, os anseios dos habitantes dos países que abrigam o evento. Os espetáculos, produzidos por competentes profissionais da indústria do entretenimento, representam a redenção dos problemas básicos enfrentados pela população, em troca de uma promessa de sociedade que existe somente na ficção promovida pelo entretenimento.

As pessoas, para Debord, preferem hoje a imagem e não a coisa real, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser. Na maravilhosa cerimônia de abertura da Rio 2016, não importa o que o Brasil é de fato. Um país com sérios problemas políticos, econômicos e sociais. Importa, sim, o que o País aparenta ser, com seu posicionamento ecológico vanguardista e sua rica miscigenação racial.

Tudo na cerimônia de abertura da Rio 2016, ou de qualquer outro grande megaevento esportivo global, transmite uma sensação de constante aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. É a forma mais elaborada do extremo “fetichismo da mercadoria”, no caso aqui exemplificada pelo produto jogos olímpicos. As relações entre as pessoas são transformadas em imagens e espetáculo.

O discurso ecológico, politicamente correto, encontra seu paradoxo na dura realidade da poluição da Baía de Guanabara, palco de algumas disputas dos jogos. A efemeridade da festa de abertura será deixada de lado, em poucos dias, pelos sucessivos recordes que serão superados pelos grandes atletas.

Por fim, é importante pensarmos o local do esporte nas cerimônias de abertura de megaeventos esportivos. Razão da existência dos jogos olímpicos, o esporte ocupa papel paradoxal neste tipo de celebração. Está presente e ao mesmo tempo ausente.

O esporte pode ser notado na presença constante dos símbolos mais tradicionais do universo olímpico, como seu pavilhão, a pira eterna e as histórias contadas ao público, durante a festa de abertura, dos atletas e personalidades homenageados por tudo aquilo que já fizeram pelo esporte.

Por outro lado, não há, nas cerimônias de abertura dos jogos olímpicos nenhuma competição esportiva. Atletas não disputam medalhas e nações não competem entre si esportivamente. Ao contrário do que acontece nas Copas do Mundo, quando após a festa de abertura, duas seleções se enfrentam esportivamente, o esporte, enquanto competição, não marca sua presença no rito olímpico de abertura.

Os espectadores presentes ao Estádio do Maracanã, que pagaram por um dos ingressos mais caros de toda a programação dos Jogos Olímpicos Rio 2016, celebraram o esporte de forma simbólica. Porém, não presenciaram recordes, performances inesquecíveis ou históricas e disputas de tirar o fôlego.

O esporte, na sua essência e por toda sua magnitude, se dá ao direito de nunca comparecer a este tipo de evento. O entretenimento, que de tudo se apropria, comparece em seu lugar. É por isso que o esporte é a maior invenção do ser humano.

(*) Ary José Rocco Jr. é pós-doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e professor da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP)

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