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20/07/2011 06:00

Alimentos como negócio?

Por Leonardo Boff (*)

O aquecimento global, notado nos últimos decênios, cujo causador principal é o processo industrialista, provocou o aumento dos eventos climáticos extremos em todo o mundo. Agricultores que costumavam enfrentar duas perdas de colheitas a cada década agora sofrem inundações, secas ou grandes pragas a cada dois ou três anos, afirma Jim Harkness, especialista norte-americano na área. Em 2010, e no início de 2011, alguns dos grandes produtores mundiais de alimentos como a Argentina, a Austrália, a China, o Paquistão e a Rússia viveram eventos climáticos que afetaram fortemente as colheitas atingindo os países que importavam alimentos deles.

O que está alarmando o mundo, entretanto, é a alta crescente do preço dos alimentos e com previsões do aumento da fome no mundo. Depois da crise econômico-financeira de 2008, o número de famintos passou de 860 milhões para 1,2 bilhões. Este aumento não se deve apenas à referida crise. É o resultado perverso também de uma politica econômica. O alimento se transformou em ocasião de lucro e o processo agroalimentar num negócio rentoso. Entrou no mercado.

Mudou-se a visão básica que predominava até o advento da industrialização moderna, visão de que a Terra era vista como a Grande Mãe. Entre a Terra e o ser humano vigoravam relações de respeito e de mútua colaboração. O processo de produção industrialista considera a Terra apenas como baú de recursos a serem explorados até à exaustão.

A agricultura mais que uma arte e uma técnica de produção de meios de vida se transformou numa empresa para lucrar. Mediante a mecanização e a alta tecnologia pode-se produzir muito com menos terras. A “revolução verde”, introduzida a partir dos anos 70 do século XX e difundida em todo mundo, quimicalizou quase toda a produção. Os efeitos são perceptíveis agora: empobrecimento dos solos, devastadora erosão, desfloretamento e perda de milhares de variedades naturais de sementes que são reservas face a crises futuras.

A criação de animais modificou-se profundamente devido aos estimulantes de crescimento, práticas intensivas, vacinas, antibióticos, inseminação artificial e clonagem.

Os agricultores clássicos foram substituídos pelos empresários do campo. Todo este quadro foi agravado pela acelerada urbanização do mundo e o consequente esvaziamento dos campos. A cidade coloca uma demanda por alimentos que ela não produz e que depende do campo. Em termos globais, 70% da comida é produzida em terras de menos de dois hectares, coordenadas, em grande parte por mulheres.

Vigora uma verdadeira guerra comercial por alimentos. Os países ricos subsidiam safras inteiras ou a produção de carnes para colocá-las a melhor preço no mercado mundial, prejudicando os países pobres, cuja principal riqueza consiste na produção e exportação de produtos agrícolas e carnes. Muitas vezes, para se viabilizarem economicamente, se obrigam a exportar grãos e cereais que vão alimentar o gado dos países industrializados quando poderiam, no mercado interno, servir de alimento para suas populações.

Está em curso um processo inédito: vastas extensões de terras agricultáveis, especialmente na Africa e na América Latina, estão sendo compradas por grandes investidores estrangeiros com o propósito de produzir alimentos e carnes visando o lucro mediante a exportação, pouco se importando com a fome das multidões, quando não são convertidas em matérias primas industriais e biocombustíveis.

No afã de garantir lucros, há uma tendência mundial, no quadro do modo de produção capitalista, de privatizar os bens comuns como água, solos e especialmente sementes. Menos de uma dezena de empresas transnacionais controla o mercado de sementes em todo o mundo. Introduziram as sementes transgênicas que não se reproduzem nas safras e que precisam ser, cada vez, compradas com altos lucros para as empresas. A compra das sementes constitui parte de um pacote maior que inclui a tecnologia, os pesticidas, o maquinário e o financiamento bancário, atrelando os produtores aos interesses agroalimentares das empresas transnacionais. O mais perverso é a introdução do termidor que mata a capacidade reprodutiva de cada semente, obrigando os agricultores à compra de sementes.

Os alimentos e as sementes são vida. Como tal, jamais poderiam se transformar em mercadoria e entrar na lógica especulativa do mercado. A vida não está à venda.

No fundo, o que interessa mesmo é garantir ganhos para os negócios e menos alimentar pessoas. Se não houver uma inversão na ordem das coisas, isto é: uma economia submetida à política, uma política orientada pela ética e uma ética inspirada por uma sensibilidade humanitária mínima, não haverá solução para a fome e a subnutrição mundial. Continuaremos na barbárie que estigmatiza o atual processo de globalização. Gritos caninos de milhões de famintos sobem continuamente aos céus sem que respostas eficazes lhes venham de algum lugar e façam calar este clamor.

É a hora da compaixão humanitária traduzida em politicas globais de combate sistemático à fome. É o que a nossa Presidente Dilma Rousseff propos como primeira tarefa de sua política. O mesmo fez José Graziano, eleito recentemente presidente da FAO e que foi o primeiro organizador do programa Fome Zero do governo Lula.

A fome representa um problema ético, denunciado por Gandhi: “a fome é um insulto, ela avilta, desumaniza e destrói o corpo e o espírito; é a forma mais assassina que existe”. Superar este quadro hostil à vida das grandes maiorias da humanidade faminta e sofredora é um dos maiores desafios humanitários e políticos atuais.

(*) Leonardo Boff é teólogo.

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