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18/08/2016 16:10

Altius, citius, fortius ou o mais alto, o mais rápido, o mais forte

Por Katia Rubio (*)

O esporte é um fenômeno sociocultural no qual a meritocracia está acima de qualquer outro valor. A evidência da excelência mobiliza o atleta na busca da vitória e todo o sistema esportivo se estrutura a partir da referência da busca de melhores marcas ou do recorde.

O sistema de classificação e eliminação a partir de resultados leva, inclusive, a uma árdua discussão sobre o caráter exclusivo do esporte, que não é diferente de outras práticas onde a especialização promove um sistema piramidal. Apenas acho curiosa essa crítica ser feita ao esporte, mas não a outras atividades de excelência como a vida acadêmica, empresarial ou política.

Mas isso é tema para um outro texto. O fato é que apenas um entre muitos milhões consegue subir em uma trave de equilíbrio e dar piruetas sem se estatelar no chão. Ou, partir do meio de um campo e passar por vários adversários conduzindo uma bola com os pés ou com as mãos, fazendo-a transpor um espaço delimitado por traves que para quem ataca parece ínfimo e para quem defende sugere o infinito.

A beleza desses gestos técnicos produz em nós, reles mortais, a experiência estética da realização de algo divino. Somente deuses são capazes disso.

Essa é a fonte mobilizadora que leva o espectador ao campo, ou à tela de uma tv, para assistir a uma disputa que tem como imaginário central o embate entre duas forças de excelência.

Os Jogos Olímpicos representam essa possibilidade. Eles são o momento de encontro desses seres humanos fora de série, mobilizados pelo desejo diário de ser melhor, de ser mais forte, mais veloz, de alcançar o inatingível para a maioria dos seres humanos. Ser o melhor do mundo, já representou o maior desejo de todo atleta.

Essa lógica sofreu uma grande transformação com a substituição do modelo amador pelo profissional, quando o altius, citius, fortius (lema latino utilizado pelo COI significando o mais alto, o mais rápido e o mais forte, respectivamente) foi substituído por mais visibilidade, mais patrocínio, mais dinheiro. Ainda assim, o desejo de triunfo em uma edição olímpica faz parte do sonho da maioria dos atletas. E certamente do público que gosta de esporte e deseja ver um grande espetáculo.

Há, porém, alguns desvios nessa condição. O país sede da competição olímpica, por ser anfitrião, pode receber o convite para participar de alguns eventos sem necessariamente passar pelos pré-olímpicos ou seletivas, quebrando assim a lógica meritocrática. Os desvios que o esporte contemporâneo proporciona com isso são basicamente duas alternativas.

A primeira é a possibilidade de se desenvolver uma modalidade até então não praticada ou desconhecida. Em bom exemplo ocorrido no Brasil foi o desenvolvimento do rugby. Organizado e institucionalizado por uma geração formada com conhecimento de gestão esportiva fez desse limão uma bela torta, servida com limonada.

Tanto o feminino quanto o masculino ganharam espaço nas escolas e nos projetos sociais tornando-se uma real alternativa para a monocultura do futebol.

A segunda possibilidade é resolver o problema de forma imediata, organizando um time (e não a modalidade) para participar da disputa. Isso pode passar pela nacionalização de atletas estrangeiros, habilidosos, mas não o suficiente para defender seus países de origem.

Em um momento da história em que o esporte é uma profissão como outra qualquer, e o nacionalismo deixou de ser um problema nas competições esportivas, essa tem sido uma alternativa comum aos países que sediam os Jogos Olímpicos. E o resultado, nesse caso, é quase sempre desastroso. Expõe a fragilidade de quem recebe a vaga na condição de anfitrião e reduz a beleza da disputa por causa da disparidade técnica.

E aí está uma possível explicação para o comportamento da torcida. Diante da falta de educação para com o esporte resta apenas a condição de observadores de um espetáculo desconhecido.

Foi possível constatar essa situação em diferentes situações. Assisti a uma disputa de hóquei, esporte que desconheço, mas pelo qual tenho uma grande curiosidade. Praticado em um campo azul marinho de grama artificial, já no aquecimento a discrepância entre as equipes era absoluta.

Enquanto vi a equipe estrangeira dar um show de domínio de bola e deslocamento dentro de campo a equipe brasileira parecia “café com leite”, aquela condição que na infância nos faz participar dos jogos dos maiores com a condescendência dos habilidosos.

Ato contínuo a torcida responde com o repertório que possui: do futebol. Gritam cantos de guerra, xingam o juiz, pedem que quebrem o adversário. A cada gol novas piadas, aos gritos, são feitas, com a imediatas gargalhadas como resposta. Ali não havia espetáculo esportivo, apenas um stand up para brasileiros.

Não foi diferente no boxe, com a diferença de que com apenas um ingresso podia-se assistir a pelo menos 7 lutas. Poucos eram os brasileiros a subir no ringue, então o que restava era escolher um dos atletas para torcer por ele.

O motivo da escolha podia ser a semelhança do nome com alguma palavra em português ou simplesmente algo que ali, naquele momento, pudesse resultar em uma boa palavra de ordem.

E o espírito olímpico, se é que ele existe, onde estava? Talvez em outras instalações ou em algum lugar da memória olímpica.

Da parte do público assisti à confirmação da monocultura do futebol, não apenas no comportamento da torcida, mas na falta de informação para o que é diferente disso. O estádio, como sempre, é o lugar para se beber, comer, soltar impropérios contra o adversário.

No que diz respeito ao atleta, senti a perda de referência na excelência. A afirmação de Pierre de Coubertin de que o importante é competir e não ganhar referia-se à que já foi do futebol. A necessária busca do melhor de si, retirando do segundo e terceiro colocados o peso da derrota. Os Jogos Olímpicos foram e são o palco de competições entre os melhores do mundo e não há atalhos para isso.

Moral da história: ou se prepara os atletas para competir em condições de igualdade ou atletas e público estarão expostos à condição de eternos “cafés com leite” no país.

(*) Katia Rubio é professora associada de EEFE-USP e membro da Academia Olímpica Brasileira

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