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Campo Grande, Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

24/10/2013 13:23

Cadáver para o almoço

Por Paulo Renato Coelho Netto (*)

Cachorros, gatos e burros já estão no cardápio. Agora, com o agravamento da guerra e a falta de alimento em Damasco, se alimentar de carne humana pode ser uma alternativa para que milhares de pessoas não morram de fome. Este é o saldo da guerra civil.

O alerta para o iminente canibalismo partiu de líderes religiosos que já autorizaram o consumo de animais considerados impuros como a última fronteira para não se morrer de fome na Síria.

Penúltima, pelo visto. O próximo passo, se concretizado, dará a sentença definitiva de que o ser humano é o pior entre os animais que habitam este planeta. A simples possibilidade já é uma aberração por si só: o canibalismo.

Paradoxalmente, a notícia para transformar a carne humana em comida na Síria foi dada na quarta-feira, 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação.

Estimativas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) revelam que por ano o mundo desperdiça 1,3 bilhão de toneladas de alimentos.

O desperdício começa desde a produção, a manipulação, a colheita e armazenagem (responsáveis por 54% do lixo gerado), bem como aquelas que ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e consumo.

Uma em cada oito pessoas continua sem alimentos suficientes, das quais 24,8% no continente africano.

Nos últimos cem anos o ser humano destruiu o planeta o equivalente que a natureza levou bilhões de anos para construir. Aonde vamos passamos por cima como uma nuvem de gafanhotos.

Comemos golfinhos, peixes, baleias, carnes das mais variadas, batatas, aranhas, saúvas, cobras, escorpiões e lagartos. Também alface, soja e rúcula infestadas de agrotóxicos e agora vamos comer a nós mesmos. A aberração de hoje será corriqueira amanhã. Antropofagia.

Em toda guerra, a fome é voluntária. A notícia sobre o canibalismo na Síria pode ser uma jogada política para atrair ainda mais os olhos do mundo para o conflito.

Para se livrar do ditador Bashar al-Assad, que preside o país desde junho de 2000, o povo sírio sofre há dois anos. Cem mil pessoas já morreram. Dois milhões se refugiaram. Civis estão sendo exterminados diariamente. Tudo ali, no pé da Europa, no calcanhar da Itália.

Ou a gente se desperta para o fato que existe um planeta em convulsão fora da porta de casa ou vamos fazer parte da cadeia alimentar.

A propósito: como faço para mandar alimento para a Síria? E que chegue aos necessitados sem que seja desviado no caminho?

(*) Paulo Renato Coelho Netto é jornalista.

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Digníssimo Paulo Renato, o seu alerta está registrado. Mas devo lembrar que incluir carne humana no cardápio não é uma iniciativa Síria. Há muito ela vem sendo servida como prato de sobrevivência em ocasiões diversas, por ai. Os humanos racionais só não aceleram essa opção culinária porque ainda existem outras alternativas. No dia em que essas opções acabarem espero já ter voltado ao meu anonimato, no além. Uma intervenção externa da Síria originaria problemas adicionais. O maior perigo virá do caos e da instabilidade criados pela alteração de paradigma. É ai que entram os interesses que poucos enxergam, leia-se Rússia, EUA e Israel, sem falar nos países árabes da redondeza. Abraços.
 
Pedro Mattar em 24/10/2013 15:41:07
Como sempre, no pano de fundo de mais esta tragédia humana (desumana), estão os Estados Unidos com sua eterna síndrome de policiar o mundo.
 
André Teixeira em 24/10/2013 14:40:56
É de arrasar! fiquei pasma com esse artigo, será que outros leitores prestaram atenção no que esta escrito aqui?
 
Teresa Moura em 24/10/2013 14:09:21
Mais de cem mil mortos, entre civis e crianças. Dois milhões de refugiados fora do país e outros quatro milhões dentro da própria Síria. Até quando o mundo vai virara as costas e fingir que este holocausto não está acontecendo?
 
Paula Nogueira em 24/10/2013 13:51:17
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