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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

15/11/2012 08:29

Carta aberta de um profissional de saúde desacreditado nos rumos da saúde

Por Cáris de Rezende Pena(*)

Atendo atualmente em consultório privado, exclusivamente, apesar de já ter, pela maior parte destes anos, prestado atendimento na rede pública.

Este ano fiz a opção de cancelar o atendimento a todos os convênios em meu consultório. Esta decisão foi tomada após um longo tempo de análise e com pesar.

Sabemos da função social que exercemos como profissionais de saúde e do peso do valor das mensalidades dos planos de saúde no orçamento familiar. Assim, seria de suma importância, em termos de política de saúde do país, que mantivéssemos uma prestação de serviço no sistema público e no sistema de saúde suplementar, via planos de saúde.

No entanto, nos últimos anos, vem sendo crescente a desvalorização do profissional de saúde em geral (médicos, fisioterapeutas, odontólogos, enfermeiros, nutricionistas, dentre outros), tanto no sistema público quanto no sistema de saúde suplementar, tornando inviável o atendimento pelos mesmos.
No caso da classe médica, chegamos ao ponto de a remuneração por uma consulta, via plano de saúde, tornar-se inferior ao valor de um corte de cabelo. Os honorários pagos por uma consulta tem valor bruto médio de R$50,00, com direito a retorno e deduzindo-se 27,5% de imposto de renda, gerando um valor líquido em torno de R$20,00... Um corte de cabelo varia, no mínimo, entre R$ 25,00 a R$ 80,00, sem direito a retorno... Isto sem fazer comentário à remuneração dos procedimentos na fisioterapia e na odontologia, ainda mais desvalorizados. Sem nenhuma intenção de desmerecimento à classe de profissionais do ramo de cabelos, mas somente utilizando-os por analogia, considerando o tempo de estudo e de investimento financeiro de um profissional da saúde de nível superior, entendemos que é inaceitável tal desvalorização.

Ainda pior é a situação no sistema público. Meu município de residência é Balneário Camboriú (SC), cidade litorânea polo de turismo na região, que passa bem longe da pobreza e da miséria das cidades do Norte e do Nordeste do país, e que, portanto, poderia “tratar melhor” seus profissionais de saúde. Aqui a remuneração de um médico especialista (cardiologia, reumatologia, neurologia etc.), para uma carga horária de 20 horas semanais, fica em torno de R$1.600,00** (valor bruto), sem maiores gratificações e sem nenhum programa de incentivo, como, por exemplo, um plano de cargos/carreiras/salários. Isto significa que, se um profissional com a formação exigida para esta função (6 anos de graduação e um mínimo de 2 anos de residência médica, em geral 4 anos) optasse por trabalhar 40 horas semanais, o que seria quase um regime de dedicação exclusiva pela CLT, receberia um valor bruto de R$ 3.200,00. Isso para um profissional com uma média de 10 anos de formação em nível superior...

E neste cenário, de condições de trabalho ruins e má remuneração, a palavra da vez é PRODUÇÃO, QUANTIDADE, VOLUME! Esqueçam-se a qualidade, o tempo, o ouvir, o sentir, um bom toque de mãos...

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Considerando que pertencemos à classe média e média alta deste país, e que, portanto, somos os maiores pagadores de impostos, temos que custear, com esta remuneração, aquilo pelo qual pagamos e que o Estado não nos oferece de retorno: saúde, educação, segurança pública etc., afora, naturalmente, os nossos bens pessoais.

A imagem que fazem da profissão de médico é a de um exercício de sacerdócio, de doação, de modo que cobrar justa e adequadamente por um serviço prestado ou por um procedimento médico é quase sinônimo de ofensa. Parece que se esquecem que também temos que pagar as nossas contas com o nosso trabalho, como qualquer outro profissional.

Em todo país com o mínimo grau de desenvolvimento, a renda pessoal é proporcional ao tempo de investimento em educação. Em nosso país, uma vez que as principais lideranças governamentais podem chegar aos postos mais importantes sem o ensino fundamental básico..., fica fácil compreender por que a formação acadêmica e intelectual aqui não é valorizada.

Além da desvalorização financeira, temos sofrido com a desmoralização da classe médica nos meios de comunicação. É frequente a veiculação, na imprensa geral, de reportagens abordando deficiências em atendimentos médicos, erros médicos, faltas em plantões, falta de profissionais para atendimentos etc. Estas reportagens são sempre unilaterais e tendenciosas, mostrando somente a versão do usuário do sistema público ou privado que ficou sem atendimento, dando a impressão, por exemplo, de que a ausência em um plantão ocorreu por puro descaso do profissional. Nunca, ou raramente, entrevistam o médico para perguntar o porquê da falta, o porquê do erro.

O médico, assim como qualquer outro trabalhador, também adoece, também tem problemas de saúde com seus filhos, também perde familiares, levando-o, por vezes, à necessidade de faltar ao trabalho. Além disso, nunca nos perguntam se faltamos porque estamos completamente sem condições de trabalho no serviço, tornando o atendimento de risco para o usuário e para o profissional, inclusive dando margem a processos médicos; ou se estamos sem receber há 2 ou 3 meses em um local que já não nos garante nenhum direito trabalhista.

Cabe aqui uma reflexão sobre a contribuição da classe médica (e demais profissionais de saúde) nesta desvalorização. Como ocorre em qualquer outra profissão, sabemos que há profissionais pouco qualificados em nosso meio, que há, sim, atendimentos que são realmente deficientes em termos de ética, de respeito ao paciente e de competência técnica. Parte da responsabilidade nessa situação é do excesso de escolas de graduação abertas nos últimos anos, inundando o mercado de novos profissionais, sem espaço para uma formação complementar adequada. São estes os que, em parte, oneram os custos da saúde, com a solicitação exagerada de exames complementares. No entanto, estes profissionais são, sem nenhuma dúvida, a exceção, e não a regra. A atitude antiética e a falta de competência de uns poucos não pode ser propagandeada como atitude de uma classe, como vem ocorrendo nas reportagens em geral.

Com toda esta situação, o bom profissional da saúde, desgostoso com a profissão, vem abandonando o atendimento clínico nos consultórios e desviando suas atividades para funções burocráticas ou administrativas. E, infelizmente, quem sai perdendo é a população.

Assim, fica aqui a mensagem e um aviso aos gestores de saúde do sistema público nas esferas municipal, estadual e federal, bem como aos administradores dos planos de saúde. Seus profissionais de saúde estão DOENTES, e GRAVEMENTE DOENTES, necessitando de CTI... O sistema público de saúde já está falido, só esqueceram de anunciar... E o sistema privado segue o mesmo caminho...
É inviável a manutenção de um sistema a longo prazo e em grandes proporções que seja financiado por poucos, utilizado por muitos, mal administrado, vítima da corrupção e que trata muito mal aquilo que deveria ser a sua “mola mestra”: os recursos humanos.
Portanto, gestores de saúde e administradores de planos de saúde, reflitam melhor sobre as suas responsabilidades pessoais nesta situação e cuidem melhor de seus médicos e demais profissionais de saúde, antes que seja muito tarde...!

*Cáris de Rezende Pena é médica, com especialização em Clínica Médica e Reumatologia. Mestrado em Saúde e Gestão Trabalho.

** valor reajustado “significativamente” para R$ 2241,68, 20 horas semanais, no Edital 001/2012 do Concurso Público da Prefeitura para médico reumatologista.

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A medica falou umas verdades, mas esqueceu que isso vale para quase todos os profissionais com formação superior. No entanto, existem umas categorias de funcionários que escapam disso: os que trabalham no judiciario e legislativo. Trabalho no ensino superior e conheço engenheiro com mestrado (7 anos de estudo) tirando xerox num forum, porque ali ganha mais do que na propria profissão. Enquanto o governo, com um excesso de impostos, remunera bom demais no judiciario e legislativo, o resto do pais, independente de ser trabalhador, medico, engenheiro, sofre as consequencias. É bom olhar o que aconteceu em paises como Grecia e Portugal, pois a economia do Brasil pode também não resistir aos efeitos de uma má gestão dos recursos...
 
Marcos da Silva em 15/11/2012 14:22:17
Faço minhas as palavras da colega Caris, pois o seu relato é cópia fiel da nossa situação profissional (em suas causas e efeitos).
Quanto ao postado pelo senhor José Botelho, cumpre informar que os profissionais da saúde não são nômades, indo atras de melhores salários ande houver, somos pessoas que têm família e vinculos sociais e afetivos, que nos fazem criar raizes em determinados locais. Quanto ao fato de oferecerem salários vultuosos como no seu relato, na maioria das vezes são em locais ermos nos "sertões" do nosso País e grande parte é "canto de sereia", pois somos contratados, por tempo determinado sem concurso público, sem direitos trabalhista e com muita frequencia inicia-se os atrasos no pagamento dos salários logo após a assinatura do contrato.
 
Rufo Antonio da Silva em 15/11/2012 12:34:39
tem alguma coisa errada aí; e é a tal globalização tecnológica; não se leva em consideração a experiencia dos profissionais e esses tais cursos de especialização não são nada mais que arapucas montadas para ganhar dinheiro dos incautos; onde já se viu técnica de enfermagem que nunca aplicou uma injeção? por falar nisso conheço um enge-
nheiro que não sabe desenhar e muito menos sabe o que é torque!!!
 
jorge campos em 15/11/2012 12:12:35
Interessante essa carta:Por que acho que não é a corrupção que esta acabando com esse pais...(educação) os professores neste pais tem que fingir que se importam,são obrigados a passar alunos analfabetos pro pais bombar nas estatisticas, apanham, são humilhados, sofrem discriminação por serem educadores,(classe desunida). Os profissionais da saúde tbem, nosso estado deveria ser exemplo de saude (prefeito era médico e governador médico), é igual e muitas vezes pior que qualquer estado da (des)união...Na Segurança os Policial são mal remunerado,mal aparelhado, mal assistido, os presidios são verdadeiras´faculdades do crime, o cara entra ladrão de galinha e sai formado em sequestro, assalto, torturas e outras barbaridades e ainda sai com emprego nessas verdadeiras instituições criminais
 
Esdras Carvalho em 15/11/2012 11:02:38
Desculpe-me mas em Campo Grande a mensalidade do curso de medicina custa quase R$ 5.000,00 e é de período integral....Administração, economia e contabilidade não... O médico tem todo direito de reclamar pois os problemas dos pacientes são sempre super valorizados pelas mídias mas a posição do médico ninguém avalia. Lindas palavras doutora
 
Valeria de Almeida em 15/11/2012 10:22:24
QUASE TUDO O QUE A NOBRE MÉDICA DISSE É VERDADE. MAS, TEMOS QUE PONDERAR ALGUMA COISA: QUE OS PLANOS PAGAM MAL, ISSO É VERDADE. TODAVIA, EXISTEM VÁRIOS E VÁRIOS LOCAIS PRECISANDO DE MÉDICOS COM PAGAMENTO DE 15,20,25 MIL REAIS, BASTA IR ATRÁS E, ALÉM DE GANHAR BEM, PRESTAR UM RELEVANTE SERVIÇO À SOCIEDADE ENFERMA E NECESSITANDO DO SEU GRANDE AUXÍLIO. NÃO SE SUBESTIME.
 
jose botelho em 15/11/2012 09:48:40
E o Administrador, economista, assistente social, contador que trabalha 40 horas semanais estudaram na média 5 anos, mas especialização e mestrado que ganha RS 1790,00 e nos órgãos públicos e nos conselhos da própria profissão ganham RS 900,00 e no mercado segundo o salariômetro aqui em Campo Grande é de RS 1.100,00 reais. Dedicação exclusiva, é óbvio que os médicos salvam vidas, mas, se for medir tempo de estudo todos cursos superiores passam por isto.
 
Andrey Fontenello em 15/11/2012 09:15:37
Muito bem colocadas as palavras deste profissional,e infelizmente é a mais pura verdade.
 
Gleice Lemes em 15/11/2012 09:03:44
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