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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

09/04/2016 10:12

Celebração da resistencia Guaná Terena

Lindomar Lili Sebastião

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e o direito dos filhos. Sua ganancia empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um momento para os olhos do homem vermelho, mas talvez sejam assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende (Cacique Seatlle – Estado de Washington, 1855).

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Abril, mês de celebração dos povos indígenas. a data foi criado pelo Presidente Getúlio Wargas via o Decreto 5540 de 1943, sugestão das lideranças indígenas participantes do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano ocorrido no México. O objetivo deste marco está voltado para a reflexão sobre a cultura dos povos indígenas.

O grupo Guaná Terena é um dos povos étnicos do Estado de Mato Grosso do Sul,com aproximadamente 23 mil habitantes distribuídos entre os municípios de Dourados, Sidrolandia, Campo Grande, Dois Irmãos do Buriti, Nioaque, Aquidauana e Miranda. Formado segundo seus costumes, língua, tradição e organização, seu estratos social é classificado em nâti ( líderes) composta pelas famílias extensas e de prestígios, Váherexâne (pessoas comuns) e kaúti ( escravos capturados em períodos das guerras intertribais), apenas a terceira divisão, as do kaúti desapareceram nessa estrutura. Assim apresentam-se os Terena, de origem autóctone que, ao longo de sua história, viveram em terras chaquenhas e pantaneiras. Atualmente, concentram-se em grande parte nas regiões pantaneiras, resistindo a todas as formas de extinção de seu éthos, de sua religião tradicional (o xamanismo), de seus costumes (danças, hábitos, ritos, mitos etc.), de sua língua e de sua forma de organização sociopolítica.A participação de várias formas desse grupo, na Grande Guerra, tornou-se um dos marcos referenciais mais significativos na historiografia Terena. Trouxe-lhes um sentimento de auto-valia.

A luta pela pátria, entendida como a luta pela permanência em seus territórios, onde acontece sua reprodução física e cultural, mantendo, assim, a continuação de seu éthos, este não foi reconhecida pelo estado brasileiro.

A invisibilidade indígena continuou nas décadas seguintes ao pós-guerra. De aliados e defensores da pátria e parte da história da conquista foram transformados em entrave ao progresso da região. A colonização de seus territórios estava e continua ligada à necessidade da expansão de atividades econômicas na região, acelerando, dessa forma, a política de expansão capitalista.

A ideia de aldeamento foi um mecanismo utilizado pelo governo para garantir mais espaços favorecendo, dessa forma, a expansão agropecuária na região, fato que se consolidou e se fortaleceu ao longo dos anos com o crescimento das fazendas nas áreas reservadas. Com o surgimento das fazendas, também aumentaram as tensões entre indígenas e os novos proprietários, ora pelo uso das terras para caça e pesca e colheita de frutas silvestres, ora pelo trabalho forçado e ou pela discriminação racial, pois, como bem coloca Azanha (2004, p.5): "Não se vive da reserva e sim na reserva.

No que tange às violências vividas pelos indígenas, a discriminação racial torna-se uma das mais presentes em seu convívio com a sociedade purútuye – os não indígenas, e, com a intensificação das lutas pelas reconquistas dos territórios usurpados, o racismo mostra a cara de diversas formas. Provavelmente o indígena ainda não faz uso frequente dos mecanismos que lhe dão o direito à igualdade perante a Lei, muito raramente se tem notícias de denúncias por racismo, o que não significa a sua inexistência.

A violência racista, por um lado praticada pela ignorância da cultura e do direito indígena pelo não indígena, e, por outro, praticada por parlamentares ruralistas que, agindo de má-fé, utilizam discursos racistas para incitação ao ódio. Esses fatos não têm sido, nos últimos anos, a única violência perpetrada contra a população Terena. O confronto com os órgãos do governo tem acarretado diversas implicações, tais como: morosidade na homologação das terras, conflitos com a Polícia Federal, mortes e marcas da violência física e psicológica na população. A exemplo, a morte do Terena Oziel Gabriel durante a reintegração de posse ao fazendeiro em maio de 2013. Idosos, mulheres e crianças foram vítimas da violência nesse palco de conflito.

Para tanto, o que vivem os povos indígenas no Brasil são reflexos dos conflitos ocorridos a mais de 500 anos, ainda no período colonial, cinco séculos se passaram, só não sessaram o genocídio da população indígena. Em meio ao século XXI, para os Terena a guerra não ficou no passado, a força colonial persiste, passa pelo período imperial, avança no período democrático e se instala usando de vários instrumentos letais, a começar pela pólvora seguido das criações de emendas ilegais que ousam exterminar o direito do indígena assegurado na Constituição Federal de 1988, no que tange o Artigo 231.

O convívio das lideranças e da população com as ameaças dos proprietários, que utilizam armas letais, é o fato mais notável há décadas na região do estado. A estatística mostra que, em 2010, das 1.015 lesões corporais e assassinatos sofridos por indígenas no Brasil, 1.004 ocorreram no Mato Grosso do Sul.Das 152 ameaças de morte, 150 ocorreram em Mato Grosso do Sul, e dos 60 assassinatos, 34 também executados neste Estado (Mizuzaki, 2011), colocando o Estado no ranking como o Estado que mais assassina.

No que diz respeito à recuperação das terras indígenas, considera-se um direito imanente dessa população, pois se trata da recuperação de sua história e de seus territórios. A terra está ligada não somente às suas ancestralidades, ou à natureza e o seu usufruto, mas há um sentimento de pertença inseparável ligada a ela.

Como parte da solução pensada para a sobrevivência de muitas famílias, buscou na migração para os centros urbanos uma forma de sobrevivência, trabalhando nas indústrias, nas construções civis, nos comércios, cabendo às mulheres, em grande parte, o trabalho doméstico nas casas de família. Toda essa dinâmica fora de seu habitat cultural recria uma nova forma de viver, uma nova dinâmica de vida e de ser Terena, na medida em que incorporam novos hábitos aos seus, tais como a aquisição de uma segunda língua, o trabalho, a adequação ao tempo entre outros.

Para tanto, a voz dos Guaná jamais sessará, tal como afirma Monteiro (2004), em que a principal voz negando o desaparecimento tem sido a dos próprios indígenas, ao reivindicarem e reconquistarem seus direitos históricos. Somos filhos da terra e desta terra, e celebramos todos os anos a nossa resistência enquanto povos originários.

*Lindomar Lili Sebastião é Terena da TI Taunay/Ipegue do município de Aquidauana/MS. Graduada em História pela UCDB, Mestra em Antropologia pela PUCSP e atualmente, doutoranda em Antropologia pela PUCSP.

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