A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

15/07/2011 09:15

Chile: luta de massas de estudantes e trabalhadores

Por Osvaldo Coggiola (*)

Nos últimos três meses, as maiores mobilizações pós-ditadura evidenciaram o acirramento da luta de classes no Chile. Com duas poderosas greves nacionais, em 30 de maio e 5 de junho, estudantes e docentes puseram por terra o projeto de manutenção da Lei Orgânica Constitucional do Ensino, ditada por Pinochet no último dia de sua ditadura.

A educação secundária chilena é exemplo da realidade do país. Antes do golpe, o ensino estatal encontrava-se entre os melhores da América Latina. Com a ditadura, as escolas públicas foram municipalizadas e entregues a sua sorte.

Os colégios públicos permaneceram sem refeitórios, salas de aulas ou bibliotecas, necessários pelo acréscimo da jornada de estudo e dos anos de escolarização (para não tocar o princípio da divisão classista do ensino, o presidente "socialista" Lagos empreendeu reforma da educação com escolarização obrigatória de doze anos e maior permanência dos alunos nas escolas, sem realizar investimentos).

O ensino privado pago passou a ser financiado pelo Estado. Consolidaram-se colégios extremamente caros para os filhos dos grandes proprietários. Nesse sistema de castas, o estudante de escola privada custa quatro vezes mais ao Estado do que o de colégio público. A diversidade entre a escolarização do estudante pobre e do rico garante o monopólio da universidade, fortemente privatizada, aos segundos.

Não mais de 5% dos alunos chegados das escolas públicas vencem a Prova de Aptidão Acadêmica, que também passou a exigir taxa de inscrição. Esse é o “modelo chileno” tão elogiado pelos privatistas da educação brasileira! Os estudantes chilenos possuem riquíssima tradição de luta. Secundaristas e universitários morreram às centenas combatendo o golpe e a ditadura de Pinochet.

A greve geral de 30 de maio passado, com mais de 600 mil estudantes em luta, seguida de mobilizações e confrontos nas principais cidades, obrigou finalmente à presidenta Bachelet a conceder, a 1º de junho, parte das reivindicações estudantis: gratuidade, para estudantes pobres, do vestibular e da passagem escolar; bolsas para mais de 150 mil estudantes; aumento de duzentas mil refeições diárias; melhorias em meio milhar de liceus. Os secundaristas realizaram a maior greve desde o fim da ditadura, obtiveram conquistas substanciais, ganharam a população para a reivindicação do ensino público gratuito.

Durante as eleições, o mote de campanha fora "Bachelet: estou contigo!". Nas fachadas dos liceus ocupados, dependuraram-se, aos milhares, cartazes com a pergunta: "Bachelet, estás comigo?". A repressão policial e prisão de milhares de estudantes não frearam o movimento. Os confrontos entre jovens e carabineiros acirraram-se, sobretudo no centro de Santiago. Combateu-se duramente na avenida Bernardo O'Higgins, palco histórico das lutas estudantis.

A segunda greve geral, de 5 de junho, exigiu a maioria estudantil em Conselho Assessor de caráter decisório, a generalização das concessões acordadas, a responsabilização pelo Estado do ensino público. Com 600 mil secundaristas e 300 mil universitários, recebeu o apoio de mais de cem organizações sindicais que interromperam o trabalho por duas horas. Nas marchas que percorreram as capitais chilenas participaram professores e funcionários públicos. Em Valparaíso, entre os doze mil manifestantes, encontravam-se trabalhadores portuários, da construção, dos serviços públicos.

O governo, a mídia e as organizações patronais denunciaram a instrumentalização da luta estudantil pelo sindicalismo classista, como se a luta dos filhos não dissesse respeito aos pais! Em inícios de julho, manifestações 150 mil pessoas, de estudantes e docentes, percorreram Santiago, exigindo o aumento substancial do aporte estatal à educação pública, que é hoje de 4% do PIB. A luta continua. Foram ocupados mais de 200 liceus e 30 universidades. O sindicato Codelco realizou uma paralisação nacional a 11 de julho, aniversário da nacionalização da indústria mineira por Salvador Allende.

A jornada semanal de trabalho chilena é de 48 horas, uma das mais altas do mundo. A saúde, previdência, educação, lazer e segurança privatizados corroem a economia familiar vergada pelo endividamento bancário. 45% da população vive na pobreza. Os contornos da crise mundial se projetam nitidamente no país: a dívida privada duplicou na última década pelo incremento do uso de cartões de crédito, com juros elevados (50% real anual) - a hipoteca dos lares chilenos atingiu 62,5 bilhões de dólares em 2009, 39% do PIB, quase 4.000 dólares por habitante.

O governo revelou que 500 mil pessoas se tornaram pobres depois do terremoto de março de 2010. O desemprego aumentou de 15,1% para 19,4%. A luta presente á só o primeiro ato de um levantamento geral dos explorados contra as conseqüências sociais e políticas dos governos militares, democrata-cristãos e da “esquerda” democratizante e pró-imperialista (Lagos e Bachelet). Nessa perspectiva se põe na ordem do dia a estruturação de uma alternativa política revolucionária.

(*) Osvaldo Coggiola é professor titular de história na USP.

Sobre o mercado e o governo
O homem primitivo acordava de manhã, saía para coletar frutas, abater animais e pescar peixes, e assim ele se alimentava. Ao fim do dia, cobria-se co...
Logística reversa: pensamento sustentável pelas gerações futuras
Incertezas são o que mais temos, porém ideias norteadoras e essenciais para a construção de um futuro mais sustentável já existem. Não podemos ignora...
Quando, também na escola, se dialoga sobre as religiões
Temos percebido uma crescente preocupação acerca do papel social da escola e da educação que acontece neste espaçotempo. Numa perspectiva de sociedad...
19 anos de Código de Trânsito Brasileiro
No dia 22/01/17, o atual Código de Trânsito Brasileiro completa 19 anos de vigência. Após 31 Leis que o alteraram, com o complemento de 655 Resoluçõe...



imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions