A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

05/02/2011 07:11

Doença de Chagas Futebol Clube

Por Antônio Teixeira (*)

Matéria do programa Globo Esporte de 28/01/2011 informa que, enquanto a Seleção Brasileira sub-20 treinava no Estádio Máximo Carrasco, na província de Paucarpata, no Peru, o time de futebol dos Exterminadores de Chagas apresentava-se no gramado. Além de caçar barbeiros – mosquitos transmissores da doença de Chagas – os trabalhadores disputam peladas no estádio onde treinam os craques brasileiros. Os Exterminadores dizem que têm a esperança de um dia viver em um país melhor, sem o medo de serem picados pelos barbeiros.

A doença de Chagas é um problema sério em todo o continente latino-americano. Os barbeiros ficam alojados nas paredes das casas. Durante a noite eles saem dos esconderijos para chupar o sangue das pessoas e transmitir o agente da doença de Chagas, o protozoário Trypanosoma cruzi. Tudo isso continua acontecendo porque muita gente não foi informada sobre o perigo que o barbeiro representa para a saúde das pessoas.

É preciso alertar o governo brasileiro para a necessidade de continuar o combate ao barbeiro com tecnologias modernas de comunicação, informação e educação para a saúde. Esse trabalho não pode ser colocado em segundo plano, pois não há mais tempo para justificar a inércia que prejudica principalmente os necessitados de proteção, porque também lhes tem sido negada a informação.

Nos escritos dos padres jesuítas do século XVII, já havia sinais sugestivos de que a doença era uma das causas principais do subdesenvolvimento. Mas a doença de Chagas atormenta os habitantes dos países sul-americanos há muito mais que cinco séculos. Quando os aborígenes chegaram aqui eles ficaram expostos aos barbeiros, já entranhados na natureza há 90 milhões de anos. Por isso mesmo não é fácil o seu desentranhamento apenas com ações verticais e esporádicas. Além disso, o cidadão informado é o melhor agente de saúde!

Qual a explicação para a inércia que impõe ao chagásico o pesado ônus da orfandade social? Ao longo de séculos, a doença de Chagas foi estigmatizada pela elite arcaica como uma doença de pobre e, por isso mesmo, fora de moda! Hoje, a doença de Chagas está presente em todas as classes sociais: empresários, professores universitários, advogados, economistas, cientistas políticos e autoridades da República. Não obstante, o assunto não foi cuidadosamente posto numa perspectiva de relevância social e de educação para a saúde.

Para cada pessoa que morre de Aids no Brasil, morrem oito de doença de Chagas. A doença de Chagas é a doença infecciosa mais letal do Hemisfério Ocidental. Estima-se que ela mate 100 mil pessoas por ano. O ônus social é enorme: 6 bilhões de dólares de prejuízos decorrentes de "perdas na produtividade diária/ano". Isso é apenas a conta material.

O principal ônus da doença de Chagas é o quadro triste que avassala famílias cujos chefes (pai e/ou mãe) foram vitimados precocemente (geralmente entre 30 e 45 anos de idade). Famílias inteiras ficaram sem perspectiva de educação e de produção de riqueza, em decorrência da orfandade e perda de perspectiva de uma vida feliz.

Há necessidade de interromper o ciclo de transmissão da doença de Chagas. A comunicação, informação e educação para a saúde podem interromper este ciclo. Ao levar o problema para o público, será possível retirá-lo debaixo do tapete. O preconceito contra os chagásicos é prejudicial, causando dor e sofrimento recônditos.

Sem combater o barbeiro com tecnologias modernas, o problema aumenta com o crescimento da população. Até recentemente achava-se que a doença de Chagas não existia na Amazônia. Atualmente, sabemos que surtos agudos estão ocorrendo em famílias residentes de todos os Estados daquela região. O que preocupa é o fato de que os surtos agudos representam somente um pequeno alerta sobre muito mais que já existe na Amazônia. Para cada caso agudo que é reconhecido, existem centenas de outros que passam despercebidos. O chagásico tem o agravo no coração geralmente três décadas depois de ter adquirido a infecção aguda pelo protozoário Trypanosoma cruzi.

A doença de Chagas pode ser prevenida mediante campanha de educação/informação/comunicação, semelhante àquela feita para o combate ao vírus da Aids. A campanha de combate à transmissão do Trypanosoma cruzi pelo inseto-vetor (barbeiro) ou por transfusão de sangue (20 mil casos/ano no Brasil) deverá levar solidariedade a milhares de pessoas que sofrem a solidão do esquecimento. A gente não se pode deixar abater pelos incrédulos, que veem dificuldade em tudo. O Ministério da Saúde precisa fazer agora aqui algo que já teria sido feito no começo do século passado, se a doença fosse endêmica no Hemisfério Norte.

(*) Antônio Teixeira é professor titular da Faculdade de Medicina da UnB. Doutor pela Universidade de Cornell (NY), é diretor do Laboratório Multidisciplinar de Pesquisa em Doença de Chagas.

Cinco ações que devem ser evitadas em 2017
Ao fim de cada ano, realizo uma pesquisa com funcionários de empresas de todo o Brasil para avaliar quais foram as coisas que mais impactaram na prod...
A aviação e suas regras
A aviação conseguiu, em menos de um século, aproximar os continentes, as empresas e, principalmente, as pessoas. Foi uma evolução tão rápida que não ...
Lei Orgânica da Assistência Social – 23 anos
Nos últimos anos, a Assistência Social vem construindo uma nova trajetória, organizando-se sob novos padrões e afirmando-se como parte integrante do ...
Morre no trânsito o equivalente a 2 aviões da Lamia lotados por dia
Por dia, no Brasil, morrem em acidentes de trânsito o equivalente a ocupantes de dois aviões da Lamia, que transportava o time inteiro da Chapecoense...



imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions