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Campo Grande, Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

28/10/2011 12:30

Globalizar para aparecer

Por Luiz Gonzaga Bertelli*

O português é o sexto idioma mais falado no mundo, contabilizados os povos nativos ou aqueles que o têm como segunda língua, mas sobe para a quinta posição se considerado apenas o primeiro grupo. Apesar dessa abrangência – os falantes podem chegar a 273 milhões de pessoas – os países lusófonos não têm tanta relevância política ou econômica no mundo quando comparados à China e aos Estados Unidos, os donos das línguas mais difundidas. Isso força os brasileiros a se desdobrar para aprender inglês ou espanhol, a fim de ampliar o leque de ação profissional para fora dos limites geográficos do nosso país que, diga-se de passagem, é uma ilha cercada por todos os lados pelo idioma de Cervantes – sem contar, o francês e inglês das Guianas e o holandês do Suriname.

Um pesquisador brasileiro detectou que esse isolamento linguístico não afeta somente a carreira dos executivos, mas também a dos cientistas e acadêmicos. Durante o II Seminário sobre o desempenho dos periódicos brasileiros no Journal Citation Reports (JCR), Abel Packer mostrou que o número de citações por artigo dobra quando o texto está em inglês – sem dúvida, o idioma da globalização, hoje. Essa relação entre o estudo publicado e as referências que outros textos fazem a ele é o que determina a relevância do artigo. Afinal, de que vale uma descoberta genial se o mundo não tem acesso a ela?

Apenas 40% das revistas nacionais estão em inglês – o percentual na China é de 67% –, e o cenário brasileiro tem outro complicador: a baixa produção. Temos cerca de quatro mil periódicos científicos, o que representa apenas 2% do total mundial. Apesar dos pesares, o Brasil é o 13º país em quantidade de estudos publicados. Entretanto, como frisamos na nossa coluna semanal do último domingo, até mesmo a língua portuguesa pode ser uma barreira para o brasileiro médio que não tem costume de praticar a escrita ou mesmo de manter o saudável hábito da leitura. E para isso não é preciso ir longe, e muito menos, gastar: a internet está repleta de obras completas que podem ser baixadas e lidas em notebooks ou mesmo em celulares.

Essa deficiência é um grande entrave, e não somente no ambiente globalizado. É preciso investir o máximo possível em educação – do aprimoramento do uso do português ao aprendizado de idiomas estrangeiros e preparação técnica em uma profissão – para avançar no mercado de trabalho. O currículo do candidato que almeja se destacar deve espelhar o mundo globalizado e multifacetado em que vivemos. Esquecer as relações de interdependência entre os países e a importância de dialogar com a maior quantidade possível de pessoas é um erro. Aqueles que têm visão e percepção do exato valor da sua posição nesse jogo são reconhecidos, seja nos centros de pesquisas seja nas empresas.

(*) Luiz Gonzaga Bertelli é presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), da Academia Paulista de História (APH) e diretor da Fiesp.

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