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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

09/06/2015 16:25

Hipocrisia e contradição em forma de moral e ética

Por Evandro Pinheiro e Welliton Mendes (*)

O assunto do momento nas redes sociais pertence a dois vídeos que estão sendo amplamente compartilhados e comentados no facebook. O primeiro vídeo é de uma mulher matando um cachorro com um maçarico, a revolta foi imediata, pessoas procurando saber quem ela é, congelando a imagem no momento em que aparece seu rosto e espalhando na rede para que fosse encontrada. Logo depois desse vídeo, não demorou para surgir outro que aliviou grande parte desses revoltosos.

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O segundo mostra uma mulher sendo linchada por uma multidão onde no fim é queimada ainda viva até a morte. Na realidade estes dois vídeos não tem conexão, ocorreu em países diferentes e por causas diferentes, o fator principal para a confusão é a incrível semelhança das mulheres, mas o preocupante é o fato de que os internautas compartilham qualquer coisa sem uma mínima averiguação dos casos. Mas para nossa reflexão ter relação ou não é o menos importante, pois para a maioria das pessoas ele tem, então analiso o desenrolar da ação a partir do engano, é nesse ponto que se desabrocha ainda mais minha preocupação com a situação que nos deparamos no Brasil.

Muitas pessoas legitimam a ação da multidão que espancam e depois queimam a mulher, alegando a crueldade dela para com o cachorro, e portanto, merece o mesmo destino. A grande pergunta é, será que esses indivíduos tão cheio de certezas não conseguem enxergar a contradição nessa postura? Por um lado abominam o fim cruel que levou o cachorro, mas acham justo dar o mesmo fim a ela. Outro questionamento, quem será que é pior, a menina que que matou o cachorro, ou as pessoas que aplaudiram alegremente nas redes sociais o fim que ela levou? As pessoas são facilmente influenciáveis pela mídia que prega uma mensagem violenta de vingança com as próprias mãos.

O vídeo não ocorreu no Brasil, mas temos inúmeros casos de pessoas violentamente espancadas por multidões justiceiras (alguns apoiadas pela jornalista sensacionalista da SBT por exemplo). Os discursos dessas pessoas são rasos e atos movidos pela emoção instantânea, realizado por pessoas regadas com mensagens de ódio e violência, que não acreditam na justiça e a fazem com suas próprias mãos.

É preocupante o que temos nas ruas, e já foi bastante pensado, o que proponho agora, é pensarmos a segunda parte dessa etapa, depois que os indivíduos filmam toda essa crueldade, e colocam na rede. Querem compartilhar com milhões de pessoas, quanto mais visto e comentado for, melhor será. E nas redes sociais a repercussão é quase imediata, comentários surgem a cada segundo emitindo suas opiniões sobre o caso, que em sua esmagadora maioria deram o veredito e concordaram com a sua pena capital.

Um filme de terror se passava enquanto assistia esses vídeos, me lembrei de ter lido sobre a inquisição, mulheres sendo queimadas, espancadas e desvalorizadas ao ponto de não merecerem um julgamento. Senti um mal estar vendo a imagem da mulher se contorcendo enquanto ardia em chamas, mas ainda senti mais náuseas lendo os comentários, e meu desespero foi não encontrar quem discordasse, me senti sozinho odiando tudo aquilo, achando tudo errado. Contradição e hipocrisia vemos em forma de moral e ética.

É assustador discutir por redes sociais, a distância proporcionada lhes dão uma segurança muito grande, os comentários tornam-se cruéis e agressivos, coisas que não seriam ditas pessoalmente são faladas sem o menor receio pelas redes a fora. E nesse clima deparei pensando ao ler os comentários da página, a impressão de que eu tive é que na internet todos são doutores, são mestres em todos os assuntos, qualquer um comentando “suas opiniões” com tranquilidade e segurança de que estão cobertos pelo véu da razão, O resultado disso é devastador para qualquer um que se propõe a pensar antes de bancar o doutor atrás do computador.

Vociferando seus mais puros e hediondos sentimentos de vingança, o ódio se tornou habitual, o discurso de que não se gosta de algo, passou a ser eu odeio esse algo, todos os dias ocorrem linchamentos dos mais variados motivos, a um descredito muito forte em nossas instituições sociais, voltamos à lei de talião, ao velho código de Hamurabi, alias, esta a cada dia mais novo, justiceiros não faltam, nossos sentimentos somente estarão tranquilos quando vemos nossos algozes sangrar, ai podemos dormir com nossos corações cristãos aliviados.

Vivemos em extrema violência e a única forma de se resolve-la é com mais violência, incluímos neste discurso de ódio a resolução de nossos problemas, mais leis, rigor no código penal, violência policial, ditadura militar, prisão perpetua, pena de morte, infelizmente nossa herança escravocrata e fascista que estava reprimida em nosso inconsciente, esta a cada dia mais presente, reconhecê-la em nos, é parte fundamental para combatê-la.

(*) Evandro Santos Pinheiro e Welliton Campos Mendes são acadêmicos de Ciências Sociais da Universidade Federal da Grande Dourados.

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