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12/08/2014 11:07

Jornada histórica

Heitor Freire

Na semana passada, no auditório do Comando Militar do Oeste, em Campo Grande, participei do III Seminário de História da Guerra da Tríplice Aliança, e I Jornada Cultural da Retomada de Corumbá, organizado pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército. A Grande Guerra, como é chamada no Paraguai, aqui também conhecida como a Guerra do Paraguai.

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As palestras versaram sobre a invasão de Mato Grosso, a expedição de Vicente Barrios (Coronel que comandou a invasão no território brasileiro, começando pela tomada do Forte de Coimbra e depois de Corumbá), a evacuação de Corumbá e a expedição de Francisco Isidoro Resquín (Coronel do exército paraguaio que invadiu o Brasil, alcançando Miranda e Nioaque).

Em todas as guerras não existem vencedores nem vencidos, mas apenas vítimas. Em dezembro deste ano, vai se registrar o centenário da invasão do Forte de Coimbra pelas forças paraguaias. A Guerra da Tríplice Aliança teve em sua epopeia diversas ações heroicas cujo registro nem sempre é observado com a devida importância.

A guerra causou um verdadeiro genocídio no Paraguai, tendo sua população masculina praticamente dizimada. No lado do Brasil, temos a Retirada da Laguna, feito histórico imortalizado pelas penas do Visconde Taunay que soube, com muita propriedade, narrar todo o ocorrido, tendo atuado na época como tenente do Exército Brasileiro.

Nesta jornada cultural, acabei descobrindo um personagem cuja envergadura o credencia como um dos grandes herois do lado brasileiro da guerra: o tenente João de Oliveira Mello.

Protótipo do militar ideal – forte, corajoso, audacioso, disciplinado, inteligente, destemido, competente –, o tenente Mello estava no Forte de Coimbra quando este foi atacado pelas forças paraguaias. Quando o comandante Portocarrero decidiu pela evacuação do forte, já que não dispunha de mínimas condições de resistência, o tenente Mello foi designado para fazer o rastreamento do teatro da guerra.

Os paraguaios já haviam se retirado, preparando-se para novo ataque no dia seguinte. O tenente Mello fez o reconhecimento da área, recolhendo muitas armas deixadas pelo inimigo e resgatou 18 paraguaios que se encontravam feridos e abandonados, trazendo-os para o forte para serem incorporados à população que se retiraria na noite do dia 28 de dezembro de 1864.

Quando chegaram a Corumbá, o pânico estava instalado entre a população. A notícia de que a força invasora já se encontrava em Albuquerque, a uns 70 quilômetros de Corumbá, levou todos ao desespero.

Foi organizada uma retirada às pressas, com a população e o remanescente do exército se atropelando para evacuar a cidade, um verdadeiro alvoroço. Trataram de fugir no navio Anhambahy, em barcos e escunas. A escuna Jacobina, superlotada, não conseguiu ser rebocada pelo navio. O tenente Mello já se encontrava a salvo no navio Anhambahy, quando percebeu a superlotação da escuna Jacobina, o que dificultava o seu deslocamento. Ele não tinha nada a ver com a escuna e com os que ali se encontravam. Então o tenente Mello, movido pela compaixão, solicitou ao comandante permissão para comandar a escuna o que lhe foi negado. Insistiu mais uma vez e aí o comandante o autorizou.

Ao verificar que a escuna Jacobina não conseguiria deslocar-se tornando-se presa fácil dos inimigos, organizou a retirada a pé, adentrando pelo Pantanal e em alguns batelões até Cuiabá.

Juntamente com ele, estavam o tenente Antônio Paulo Corrêa e o sargento Antônio Baptista da Cunha. Essa caminhada foi registrada no relatório que o tenente Mello apresentou em Cuiabá, contando com riqueza de detalhes o que foi essa epopeia. Relatório este encaminhado ao presidente da Província de Mato Grosso, general Alexandre Albino de Carvalho, e que foi também publicado no livro A História Esquecida da Guerra do Paraguai de professora Maria Teresa Garritano Dourado (UFMS 2014).

O tenente Mello tinha sob seu comando 230 praças, quatro presos, dois guardas de alfândega, um amanuense de polícia e uma população constituída de mulheres, crianças e idosos, num total aproximado de 400 pessoas. A sua marcha foi de quase 500 quilômetros, atravessando o Pantanal em um terreno totalmente adverso. Por duas vezes rompeu o cerco das forças paraguaias, tendo ainda que, ao mesmo tempo, alimentar toda essa população.

Teve também que enfrentar e vencer a sedição do tenente Antônio Paulo Corrêa, que contestou o seu comando. O tenente Mello soube vencer todas as dificuldades com galhardia e serenidade, sendo, sem dúvida, um dos grandes herois da nossa história. A sua epopeia durou do dia 2 de janeiro até 30 de abril, quando chegou a Cuiabá e foi recebido com grande festa pela população.

Escreveu com sua determinação e coragem uma das mais belas páginas da história universal de amor ao próximo.

(*) Heitor Freire, advogado e articulista

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