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06/03/2014 14:11

Mulher prendada não pinta nem borda

Por Viviane Nogueira Orro (*)

A vida ensina e a minha começou bem cedo. Primeira filha e única menina numa família de cinco primos, aprendi a enfrentar o sexo oposto desde pequena. Para acompanhar a turma, brincava de carrinho, bicicleta, bola, soltava pipa. Em casa, talvez pela natureza própria das meninas de ter uma atração singular pela figura paterna, e ainda por ter sido filha única durante quase uma década, fui orientada e conduzida pelo meu pai a encarar a vida de frente, sem rodeios, de forma franca e direta. Sorte minha.

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A sinceridade e a realidade durante minha infância me tornaram uma mulher pragmática, independente e que não se abala facilmente com as dificuldades que a vida impõe. Para muitos isso não chega nem perto do modelo ideal do que se espera de uma mulher. Durante séculos a mulher foi criada dentro de casa, sendo orientada, ensinada e conduzida a ser uma boa mãe e esposa. Até o século passado as aulas de piano, bordado, culinária e etiqueta, eram obrigatórias na formação da moça, garantindo assim um "bom casamento". E, portanto, confinada a passar uma vida inteira com a única missão de atender bem seu marido, gerar e criar seus filhos.

Com o passar dos anos, durante a evolução da sociedade, aos poucos a mulher foi adquirindo outras funções e com muita dificuldade conquistando novos direitos e espaços na vida moderna. A entrada no mercado de trabalho começou com a revolução industrial, o acesso à universidade se deu apenas no Século XIX, a conquista do voto feminino tem pouco mais de 80 anos no Brasil e ainda hoje, apesar de mais da metade do eleitorado brasileiro ser composto por mulheres, somos apenas 10% dos membros do Congresso Nacional.

A política em nosso País ainda é um meio muito masculino e neste universo machista algumas vezes as mulheres ainda são tratadas de forma pejorativa e discriminatória. Apesar das leis que garantem um número mínimo de mulheres para compor uma chapa partidária, salvo raras exceções sabemos que nos bastidores da política somos tratadas como meras preenchedoras de vagas. Um fato injusto, porém perfeitamente compreensível se pensarmos na capacidade feminina. Ela se torna uma ameaça para quem teme a inversão dos papéis.

Mulher que se preza não se tranca em frente ao fogão, não se limita ao papel de mãe, de cuidar dos filhos, limpar a casa. Está comprovado que a mulher tem um potencial empreendedor igual e até superior ao homem, tem mais sensibilidade, é mais exigente, crítica, mais eficiente do que o homem em muitos aspectos. Então a mulher que abre mão dessa capacidade toda está desperdiçando a vida.

Atualmente a mulher ocupa o papel de chefes de família em mais de 37% dos domicílios brasileiros, dividem o sustento da casa, são responsáveis por grande parte das conquistas de suas famílias sem deixar de lado a missão de educar os filhos e zelar por seus lares (mais de 90% das mulheres trabalham fora e somam a isso as obrigações dos afazeres domésticos).

Nesta luta da mulher, ainda há muito que se conquistar, como por exemplo o fim da violência doméstica, a igualdade salarial, as escolas de tempo integral para nossos filhos, a garantia à saúde de qualidade e, consequentemente, a diminuição da mortalidade materno-infantil, só para citar algumas das nossas necessidades mais urgentes.

A tecnologia facilitou o acesso à informação, contribuindo no processo da emancipação da mulher; os meios de comunicação levam conteúdos úteis e necessários às mulheres nos mais diversos setores e através da internet e das redes sociais estamos cada dia mais atualizadas e encorajadas a expressar nossos medos, anseios, necessidades e opiniões.

Mas, ainda assim, precisamos ter mais voz neste País, precisamos ser mais ouvidas, mais respeitadas, mais admiradas. Não pela beleza ou por algum atributo físico peculiar de cada uma, mas sim por nossa inteligência, pela sensibilidade de ouvir e pela inquestionável capacidade de gerenciar.

Eu sou mãe de dois filhos, esposa, médica e trabalhadora. Assim como todas as mulheres, cozinho, lavo, passo, organizo e cuido dos filhos. Tenho amor para da dar e vender, mas sei valer meus direitos na mesma proporção.

Alguns poucos infelizes ignoram minhas qualidades, confundem tudo, distorcem. Querem saber? Estão equivocados. Na verdade eu sou prendada.

(*) Viviane Nogueira Orro é médica e presidente da AMT/MS (Ação das Mulheres Trabalhistas do PDT/MS)

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Adorei a matéria, ótimo texto, parabéns a nós mulheres, corajosas, batalhadoras, que a cada dia quebra um paradigma.
 
Cláudia dos Santos Henrique Barbosa em 07/03/2014 08:40:17
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