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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

07/07/2011 13:50

Nos tempos da antiga rua 7 (III), por Heitor Freire

Por Heitor Freire (*)

As casas ditas de tolerância ou de mulheres se espalhavam na rua 7, quando para lá me mudei com a minha família – idos de 1952 –, desde a rua 14 de julho até a rua Rui Barbosa, com uma concentração maior na quadra entre as ruas 13 de Maio e Rui Barbosa, exatamente onde nós morávamos.

As mais famosas eram as da da. Violeta e a da Tidú. Eram as mais concorridas e com maior número de profissionais.

Nesse período de minha vida, começando a virar homem, e vivendo naquele meio, com uma ponta de atração e outra maior de medo – circulavam notícias para aterrorizar a meninada e evitar um envolvimento com a mulherada – comecei a perceber a influência sexual começando a se manifestar e o quanto era importante estar atento para evitar cair na tentação.

Também naquela época, com 14 ou 15 anos, tinha um menino que era cobrador de um mascate que vendia roupas e quinquilharias para as “meninas” e que, periodicamente ali comparecia para receber as prestações das mercadorias compradas por elas. Comentando hoje comigo o que sentia ele me afirmou que chegava, não olhava para os lados, tratando logo de receber as prestações, e sair quase correndo. Contaram para ele que, se fosse levado por uma delas para o quarto, estava sujeito a ter o seu órgão genital cortado. Pavor total.

Esse menino é o dr. João Pereira da Rosa, que me honra com a leitura dos meus artigos.

Eu estudei no Externato São José, no período matutino, que pertencia a da. Simpliciana Corrêa, cuiabana, disciplinadora feroz. A da. Simpliciana dava um cascudo tão forte, mas tão forte que ressoava no queixo da gente. Eu não chorava por honra da firma e para não pagar vexame na frente das meninas, pois da. Simpliciana não escolhia tempo nem lugar, era no ato.

A gente tinha no Externato aula de catecismo que era ministrado por da. Ângela, que morava no colégio das irmãs. Ela nos ameaçava com o fogo dos infernos. Qualquer coisa era pecado. Fez a nossa preparação para a primeira comunhão. E ameaçava também com a possibilidade da hóstia grudar no céu da boca: era sinal que a confissão não fora bem feita. Eu tremia só de pensar nessa possibilidade.

Nós tínhamos uma colega que morava numa casa situada na rua Calógeras, com fundos para os trilhos da NOB. Os colegas descobriram que essa menina quando ia para sua casa, trocava de roupa, tirando o uniforme. E fazia isso com a janela aberta, porque do lado dos trilhos só tinha mato. E eles assistiam assim a um espetáculo grátis.

Um dia me convidaram e eu fui. Pois justo nesse dia, ela ao trocar a roupa, olhou para fora e deu de cara com aquela multidão de guris atentos e excitados. Foi uma debandada. No dia seguinte na escola, com o coração na mão, aguardávamos os desdobramentos.

A aula transcorreu tranqüila até o final. Um alívio foi chegando. Pois bem. Ao acabar a última aula, da. Simpliciana entra na sala e chama a menina para apontar os indiscretos. E ela nomina um por um. Olhou para mim e não me apontou. Mas um dos colegas, já condenado disse: “O Heitor também estava”. E lá fui eu para o rol dos culpados.

A pena foi copiar 1.000 vezes uma frase que dizia mais ou menos: “Nunca mais vou espionar minha colega”. Começamos a cumprir a pena na escola mesmo e naquele momento. Fui chegar em casa depois das 14 horas. Meu pai quis saber o que havia ocorrido.

Eu já estava psicologicamente preparado para levar uma surra. Papai era muito disciplinador e severo. Mas desta vez, ao tomar conhecimento do motivo, manifestou foi uma alegria. E para meu maior alívio, cumprimentou-me pelo ato.

As lembranças começam a aparecer, o que nos inspira para continuarmos com este tema.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

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Sou natural de Lins, SP. Campograndense desde 1984. Terra que me acolheu muito bem. Não pude frequentar as rodas de contadores de 'causos' [tão ilustres os que existem cá por essas terras]. Nem participei dos maravilhosos 'saraus'.
Recentemente, em pesquisa acadêmica, surpreendí-me pelos parcos registros dessa nossa cultura (atrevo incluir-me).
Senhores roteiristas: façam filmes, peças teatrais, sobre assuntos como esse narrado pelo senhor Heitor Freire. Não percebem que roteiros ricos se conseguiriam? Lendo essas linhas bem escritas, as imagens desfilam em minha mente. Talvez falte uma trilha sonora, nada difícil de encontrar.
Proponho um projeto (há quem adore um, para auferir algum): "Vidas vívidas de Campo Grande". Vejam bem: "VÍVIDAS" [vivas], e não vividas [que já viveu].
1) Programas radiofônicos no estilo radioteatro (os estudantes de Artes Cênicas certamente adorariam, assim como os acadêmicos de Comunicação Social);
2) Inserções diárias de 15 minutos em emissosras de TV de grande audiência, com interpretações de histórias interessantes.
3) Série de depoimentos de antigos campograndenses.
4) Encontro de antigos campograndenses ilustres [anônimos ou não].
5) Restauração de antigos prédios [ou será que o Cine Acapulco, que destacou Luiz Alberto del Paraná, já não merece mais sequer um suspiro de respeito?]

Ao autor, senhor Roberto Freire, obrigado por compartilhar seus bens mais valiosos: suas recordações e sabedoria. Pois como teria dito Sócrates, ao ser exilado, isso ninguém pode nos tirar.
 
arlos Alberto Cordeiro em 07/07/2011 06:32:41
Adorei... me lembra todas as historias que minha mãe contava de D. Simpliciana. Parabens Dr Heitor.
 
marisete thomaz chaves em 07/07/2011 05:12:45
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