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Campo Grande, Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

17/02/2016 09:00

Nossa excelência, o mosquito!

Por Ruy Chaves (*)

Os padrões alimentares dos mosquitos brasileiros começaram a mudar com a chegada dos portugueses em 1500. O sangue novo trouxe grande excitação às sanguessugas aéreas, especialmente por seu gosto estranho, de início não identificado, com excesso de sal, mas totalmente diferente do gosto forte de mandioca das vítimas de muitos séculos, os que foram chamados de índios porque Cabral achou que tinha chegado à Terra de Vera Cruz, nas Índias. Lamentavelmente, os estoques de bacalhau e de vinho logo acabaram, os portugueses caíram na mandioca, todos os sangues voltaram ao mesmo gosto e os mosquitos se sentiam comendo ração. Putz!

Com a chegada da família real, a mosquitada foi ao delírio. Afinal, além do cardápio farto garantido por população de origens e tipos sanguíneos variados como índios, escravos, portugueses e muitos estrangeiros, além dos nascidos nas terras do Brasil, mulatos, cafuzos, caboclos e mamelucos, nossos mosquitos passaram a beber o sangue azul dos reis e das rainhas, dos príncipes e das princesas, da nobreza com suas perucas, sedas e brocados, gente de pele branquinha, gordinha, que delícia! Os mosquitos viviam o paraíso das muitas cidades brasileiras com esgoto correndo a céu aberto, ruas imundas perfumadas pela urina dos nobres senhores, pântanos e alagadiços por toda parte reproduzindo a cada dia legiões de novos mosquitos com sede absurda se incorporando ao banquete.

Em 1903, ganhamos a guerra contra os mosquitos no Rio, uma das cidades mais sujas do mundo à época, com gestão competente, séria e ousada de Osvaldo Cruz, que chegou a ser considerado inimigo do povo nos jornais e parlamentos, superando a revolta das vacinas. Mas 516 anos após a chegada de Cabral, os mosquitos se sofisticaram, baixaram a produção de febre amarela e de malária e sua obra-prima, o Aedes aegypti, passou a nos dominar com seu alto nível de profissionalização impondo-nos a vergonha e as tragédias da dengue, da chikungunya e da microcefalia.

Piada infeliz, querem acabar com os mosquitos por decreto, por apelos nas mídias, mas verdade é que se estamos sendo derrotados por mosquitos, estamos preparados para ganhar qual guerra? Estamos perdendo todas as guerras, perdidos entre a corrupção e a recessão, entre a inflação e o desemprego, mas nossos mosquitos são muito famosos, inclusive objeto de discursos de presidentes de países de primeiro mundo e de conferências da ONU que recomendam: não viajem para o Brasil!

Ok, não viajarei para o Brasil, mas sou brasileiro e vivo no Brasil: o que faço para proteger minha família e a sociedade? Não sou criador de mosquitos, procuro e combato possíveis águas de parto e uso repelentes e raquetes eletrocutadoras que estalam frequentemente ao garantir mais um mosquito brasileiro privado de picar e de beber nosso sangue e de nos transmitir doenças, além de ameaçar o mundo. Você, o que faz? Cria mosquitos? Continuaremos o país derrotado por Nossa Excelência, o Aedes? O comediante de saudosa memória diria: Fala sério! Panta rei.

(*) Ruy Chaves é professor e diretor da Estácio

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