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12/09/2011 06:02

O Chile na encruzilhada, por Marisa von Bülow

Por Marisa von Bülow (*)

“Nunca vimos nada assim”. Essa é a frase que mais se escuta nas últimas semanas no Chile, dita com ar de perplexidade tanto por aqueles que simpatizam com a onda de mobilizações que vem sacudindo o país, como por aqueles que se opõem a ela. E que não há meio termo possível: tem sido cada vez mais difícil manter-se neutro frente aos protestos liderados pelos estudantes universitários. Mas todos, independentemente da posição política, demonstram estar surpreendidos com o que está acontecendo em um país que tem sido reiteradamente apresentado como símbolo de estabilidade das instituições políticas.

Isso não quer dizer que o Chile democrático tenha sido sempre um país isento de conflitos ou de tensões sociais. Basta lembrarmos que, em 2006, aqueles que hoje são universitários formavam parte da geração de estudantes de ensino médio que, por meio de multitudinárias manifestações, conseguiu colocar o governo da então presidente socialista Michelle Bachelet em xeque. Algumas das reivindicações daquela época são as mesmas, como, por exemplo, a instituição do ensino público e gratuito.

O que há então de novo? Não só as manifestações reúnem um número inédito de pessoas, mas o mais importante é que refletem um grau de insatisfação que vai muito além das salas de aula dos colégios e universidades pagos. De fato, o Chile encontra-se hoje em uma encruzilhada.

Desde a década de 1980, quando foi implementado o modelo de desenvolvimento chileno, baseado na liberalização comercial e no papel reduzido do Estado na economia, nunca este havia sido questionado de maneira tão forte pela sociedade. Ao contrário: por muitos anos, parecia que o Chile era um dos poucos países do mundo em que boa parte da direita e da esquerda estava de acordo sobre as bases da política econômica. Tanto é que, apesar da alternância dos partidos no poder, foram poucas as mudanças realizadas nos alicerces desse modelo nos últimos trinta anos.

Do ponto de vista do modelo político chileno adotado no mesmo período, nunca houve consenso entre direita e esquerda. No entanto, as regras herdadas da ditadura criaram um regime político engessado, repleto de bloqueios e de obstáculos que dificultam qualquer reforma. O resultado é que, apesar de muitos avanços do processo de democratização, ainda hoje as instituições político-eleitorais do país são afetadas por regras que dificultam a renovação política e limitam a participação da sociedade civil.

O movimento estudantil que hoje ocupa escolas, universidades e ruas está forçando a discussão tanto desse modelo econômico como desse modelo político. Não tem, argumentam os críticos, demandas concretas. Os estudantes são contra a educação paga, são contra o lucro das instituições de ensino, pedem uma reforma tributária que gere recursos para a educação e defendem a instituição do plebiscito para decidir sobre temas fundamentais (como a reforma educacional).

De fato, à exceção desta última proposta, os discursos são imprecisos e as pautas de reivindicação são vagas. O que os mesmos críticos têm dificuldade de reconhecer é que movimentos sociais captam e canalizam a insatisfação e a frustração da sociedade. Cabe às instituições políticas – o Poder Executivo, o Congresso Nacional e os partidos políticos –, em conjunto com as organizações da sociedade civil, encontrar respostas que permitam superar a crise, sob pena de perderem ainda mais credibilidade.

Esse desafio é urgente, conforme mostram os dados do Projeto Auditoria da Democracia, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD-Chile). Desde 2006, vem diminuindo o número de eleitores que se identificam com coalizões partidárias, seja a que hoje governa o país, seja a que o governou nas duas décadas anteriores.

De acordo com a mesma fonte, em 2010 mais de 60% dos chilenos não se sentiam identificados com nenhum partido político, um crescimento de mais de vinte pontos em apenas uma década. Essa crescente desconfiança dos canais de representação tem afetado especialmente os jovens, cuja participação no eleitorado (no Chile o voto não é obrigatório) diminuiu de forma significativa desde a transição democrática. Ao mesmo tempo, as pesquisas de opinião pública mostram que o Presidente vem amargando recordes de baixa popularidade.

Nesse contexto de enfraquecimento das instituições políticas de representação e de questionamento das lideranças tradicionais, outros setores da sociedade civil vêm somando-se aos estudantes e transformando os protestos em um ciclo de mobilização mais amplo. A questão, colocada especialmente para as forças políticas de centro e de esquerda, é conseguir transformar esse complexo cenário de instabilidade e de descrença em uma oportunidade para que o Chile finalmente termine de acertar suas contas com o passado.

(*) Marisa von Bülow é professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília e atualmente professora visitante do Instituto de Ciência Política da PUC-Chile.

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