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25/08/2015 11:28

O futuro em águas profundas

Por Adelto Gonçalves (*)

O navio MSC Zoe, um dos maiores porta-contêineres do mundo, atracou, em agosto de 2015, pela primeira vez no porto de Sines, o único em Portugal que tinha capacidade para recebê-lo, seguindo com destino ao Extremo Oriente, em viagem que tivera início em Hamburgo, com passagem por Antuérpia, marcando a abertura do serviço do armador suíço entre a Ásia e o Norte da Europa.

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Com 395,4 metros de comprimento e capacidade para 19.220 TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés), este é o terceiro navio da MSC a navegar pelo Hemisfério Norte, dentro de uma programação que prevê a construção de 20 supercargueiros. É de se lembrar que, na Europa, além de Sines, outros portos, como Hamburgo, Antuérpia, Algeciras, no Sul da Espanha, Maasvlakte 2, na Holanda, e London Gateway, dispõem de infraestrutura portuária para receber porta-contêineres com estas dimensões. Até aqui, o maior porta-contêineres que havia atracado em Sines tinha capacidade para 14 mil TEUs.

Como se sabe, não há a menor possibilidade de que, um dia, esse navio venha a atracar no porto de Santos, a não ser que seja construído um terminal off shore. O maior navio que já atracou em Santos foi o CMA CGM Tigris, com 300 metros de comprimento e capacidade para 10.622 TEUs, o que se deu em fevereiro de 2015.

Parece claro que essa é uma tendência irreversível, pois os custos do frete têm sistematicamente diminuído nos últimos anos em razão da economia de escala que os meganavios oferecem. Diante disso, Santos corre o risco de perder em breve alguns dos seus serviços regulares, se não houver a construção de uma infraestrutura moderna compatível para aceitar a atracação de maiores porta-contêineres.

Isso significa que a quase totalidade de sua atual infraestrutura pode ficar ociosa, diante da impossibilidade de receber embarcações com dimensões superiores a 336 metros de extensão, seu limite atual, mas que depende das condições da maré. Com um movimento de 3,6 milhões TEUs em 2014, Santos é o porto sul-americano que ocupa hoje a posição mais elevada no ranking de movimentação de carga.

O porto de Vitória-ES é o que oferece melhores condições geográficas para se adaptar aos novos tempos. Mas, por questões geopolíticas, o governo brasileiro havia optado por investir recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na construção do porto de Rocha, no Uruguai, que, com 60 pés de profundidade, estará apto a receber meganavios da Ásia e da África.

De acordo com o projeto, o porto de Rocha deverá movimentar 80 milhões de toneladas por ano, mas sabe-se que o Uruguai não tem condições de sozinho receber ou exportar cargas que justifiquem esse número. Oferecendo maior calado e menos burocracia, Rocha haveria de atrair contêineres e granéis que normalmente seguiriam para os portos de Buenos Aires, Rio Grande-RS, Imbituba-SC, Paranaguá-PR e, principalmente, Santos. Se vai sair do papel, é o que não se sabe. Até porque o novo governo uruguaio já anunciou que esse projeto não está entre suas prioridades.

(*) Adelto Gonçalves, jornalista especializado em comércio exterior, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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