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Campo Grande, Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017

04/10/2012 13:19

O moleque da rua 13 de Maio

Por Heitor Freire (*)

Quando eu era criança, nos idos de 1940 a 1952, as brincadeiras que existiam eram muito simples e inventivas porque tudo dependia do que cada um criava, já que não havia celulares, computadores, internet e nenhuma outra dessas maravilhas que o gênio criador do ser humano foi inventando tempos afora.

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Nós jogávamos bolitas (bolinhas de gude), pião, soltávamos pandorga, finca-finca, bete-ao-ombro, ficávamos o tempo todo envolvidos com o que se ia inventando.

Pois bem, na rua 13 de Maio, entre a Maracajú e a Antônio Maria Coelho, vivia o nosso protagonista de hoje: Haroldo Barcellos Braga, filho do dr. Randolpho da Silva Braga (um dos dentistas mais antigos da cidade, homem severo, disciplinador) e de dona Nilza Barcellos Braga (uma senhora distinta, de porte aristocrático). O Haroldo era o que se pode classificar como um guri muito ativo, criativo, inteligente, ousado, atrevido. Várias foram as peripécias que ele criou e viveu.

Pois, certa vez, os pais de Haroldo viajaram para uma estação de águas em Araxá (antigamente era muito comum os casais viajarem para as cidades de águas minerais, Caxambu, Araxá, São Lourenço e outras da mesma região, para um período de descanso ou tratamento de saúde). O dr. Randolpho tinha um “Fordinho”. Como conhecia muito bem o próprio filho, deixou o carro estacionado na garagem de casa, que era bem estreita, e levou a chave na viagem. O Haroldo, que nunca tinha dirigido até então, tinha feito uma cópia da chave, tirou o carro da garagem e ficou passeando todo pimpão com o carro do pai, que, quando voltou, deu-lhe uma surra homérica.

Procurando botar o menino na linha, internou o filho no colégio Dom Bosco. Certo dia, e sabe-se lá por que motivo, Haroldo tomou de um padre um cascudo mais forte do que o habitual e respondeu-lhe com um “F.D.P.” – no que foi imediatamente expulso da escola. Para procurar conter o guri dentro de casa, o dr. Randolpho enfiou o filho dentro de um vestido da irmã, pensando que assim ele se sentiria vexado e não sairia na rua. O que ele fez? Conseguiu um cordão e amarrou o vestido entre as pernas, fazendo da parte da saia uma bermuda saruel e ganhou as ruas, todo satisfeito com sua criatividade. Mais uma surra.

Naquela época, o córrego – suponho que seja o Reveillau –, que descia dos altos da região leste da cidade tinha o seu curso entre as ruas Maracajú e Cândido Mariano, no meio das casas. Quando chegava perto da rua 13 de Maio, seguia pelo meio da rua Maracajú, a céu aberto, e quando enchia, causava um grande prejuízo para os moradores e para os comerciantes – um problema endêmico só resolvido pelo prefeito Levy Dias em sua primeira gestão (1973/1976), quando canalizou o córrego. Pois bem, o Haroldo sempre se metia pelo canal do córrego seguindo até sua confluência com o Segredo, onde pescava lambaris e bagres. Uma vez resolveu inovar: foi andando por dentro do bueiro, entrando por baixo da rua Maracajú até a Antônio Maria Coelho.

Ao chegar na esquina, ainda debaixo da terra, encontrou dificuldades para abrir a tampa de concreto, e sair lá de dentro, e começou a gritar. Alguém que passava pelo local resolveu suspender a tampa e encontrou o nosso protagonista já um pouco assustado. Já tinham dado pela falta dele, começaram a procurá-lo e alguém lembrou que viu quando ele desceu para o bueiro. Procura daqui, procura dali, foram achá-lo saindo do bueiro. O alívio de encontrá-lo bem foi tão grande, que, dessa vez, ele se livrou da surra.

Inteligente como era, aos 16 anos prestou concurso nacional para V.E., Voluntário Especial da FAB,e ficou em segundo lugar. Quando se apresentou para a incorporação, como não tinha a idade mínima, não quiseram lhe dar a posse. O então comandante do destacamento da Base Aérea em Campo Grande, major Caldeiras,  sensibilizado com a capacidade do garoto o levou numa B-25  até o ministro da Aeronáutica no Rio de Janeiro, reivindicando o seu direito. O ministro, admirado com a ousadia do garoto, fez-lhe várias perguntas cujas respostas lhe satisfizeram, e determinou por portaria ministerial a sua incorporação. Depois disso, a FAB elevou a idade mínima para 18 anos.

Como se vê, ele não enjeitava pêlo nem marca, encarava todas.

(*) Heitor Freire é corretor e advogado.

    

 

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