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Campo Grande, Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

16/02/2011 08:21

O povo é um detalhe

Paulo Renato Coelho Netto.

O que causa espécie e chama a atenção na acaçapante votação do Projeto de Lei Complementar que incluiu a Expogrande entre as exceções à Lei do Silêncio é o resultado unânime: 19 votos favoráveis e uma abstenção, por ausência, de um vereador. O presidente da Casa não votou. Só o faria em caso de empate.

Basicamente, se os vereadores representam a população de Campo Grande e estes votaram em peso em favor dos shows que infernizam milhares de moradores que têm o azar de morar perto do Parque Laucídio Coelho, significa, pela ótica dos vereadores, que não existe absolutamente um único cidadão que seja contra o som insuportável que a feira emite em suas edições.

Só que na matemática política dois mais dois não são quatro. Na democracia, vereadores, deputados estaduais,federais e senadores são eleitos justamente para o exercício do debate e da controvérsia. Não fosse isso, não seriam necessários 513 deputados federais para representar o povo na Câmara Federal. Cada um ganhando a bagatela de quase R$ 30 mil por mês.

Em síntese, no universo político um tema é colocado em debate e a votação final é o denominador comum do proposto inicialmente. O Projeto de Lei chega às câmaras ou Senado, passa por adaptações e, muitas vezes, é sancionado

completamente diferente como surgiu. O nome disso é democracia. Aqui imperou a unanimidade no caso da Lei do Silêncio.

Impossível, aliás, falar em unanimidade sem mencionar o dramaturgo Nelson Rodrigues. “A opinião unânime está a um milímetro do erro, do equívoco, da iniquidade. (…) Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

O que aconteceu na Câmara Municipal de Campo Grande entre os dias 3 e 8 de fevereiro de 2011 vai entrar para a história como um dos capítulos políticos mais psicodélicos da atualidade em Mato Grosso do Sul.

O retrospecto, para que ninguém se perca, é o seguinte: mobilizados para garantir os shows durante a Expogrande, diretores da Acrissul convenceram os vereadores a colocar em pauta, em regime de urgência, projeto que altera a Lei do Silêncio em Campo Grande. Isso no dia 3, uma quinta-feira.

Os vereadores, portanto, tiveram somente sexta-feira e segunda para discutir o assunto. Na terça, dia 8, na hora do almoço, 19 representantes da população entenderam que os shows vão continuar e que os incomodados que se mudem. Tudo no afogadilho, no açodamento.

O couro na Expogrande vai continuar comendo solto e com a anuência dos legisladores municipais, contrariando decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul que impedia o excesso de decibéis com suas aporrinhações durante o evento.

As apresentações na exposição começam por volta da meia noite e só terminam altíssimas horas da madrugada. Um paraíso se todo mundo na cidade tivesse 18 anos e dinheiro de sobra para frequentar lugares como a Expogrande.

Com a decisão unânime da Câmara Municipal, crianças, bebês, idosos, donas-de-casa, trabalhadores e pessoas com algum tipo de enfermidade que moram perto da Expogrande precisam aturar a festa. Não há para quem reclamar. Ao tomar decisão desse porte, isolada da realidade social e do povo que o elegeu para, nada mais, representá-lo, é fácil entender porque os políticos - como os vereadores de Campo Grande - foram colocados em último lugar em pesquisa de credibilidade feita em 2010 pelo grupo alemão GfK.

De acordo com o levantamento, apenas 11% da população brasileira confia nos políticos. O estudo foi realizado no Brasil e em outros 17 países. Por aqui a classe política ficou em último lugar no ranking das profissões confiáveis.

Ao confiscar o único dinheiro da poupança de milhões de brasileiros, a ministra Zélia Cardoso de Melo, do então governo Collor, declarou que “o povo é apenas um detalhe”. Collor hoje é senador, Zélia foi morar em nova Iorque e tudo corre na mais santa paz para os dois. Para muitos políticos o povo sempre será apenas um detalhe. Pelo menos até o cidadão valorizar e entender a importância do voto.

(*)PAULO RENATO COELHO NETTO é jornalista, pós-graduado em marketing pela UCDB e autor do livro “Mato Grosso do Sul”. www.paulorenato.net.br

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