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13/05/2012 09:45

Os números da insesatez economia social

(*)Por Marcus Eduardo de Oliveira

A fome que atinge 1 bilhão de seres humanos (em 2009, um em cada seis habitantes do planeta estava desnutrido) talvez seja a prova mais incontestável que as coisas não andam bem em termos de dignidade e respeito ao próximo. Dizem alguns que temos que produzir mais porque somos muitos. Será isso verdade? Não seria melhor mudarmos o foco: produzir melhor com qualidade, de maneira sustentável?

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No que toca a estupidez da existência da fome, tem-se que evitar o desperdício que beira cifras indecentes de 30% a 40% da produção de grãos e distribuir melhor os alimentos cuja produção atual, em termos mundiais, é suficiente para todos. Segundo o Conselho Internacional de Grãos (IGC, na sigla em inglês) na safra 2011/2012 a produção mundial de grãos será de 1,817 bilhão de toneladas. A produção mundial de alimentos atualmente dá conta suficiente das 7 bilhões de bocas a serem alimentadas, o que falta é uma melhor distribuição.

De acordo com a FAO (Fundo para Agricultura e Alimentação – ONU), entre 1950 e 2000, a produção mundial de grãos mais que triplicou, passando de cerca de 590 milhões para mais de 2 trilhões de toneladas métricas ao ano. De 1950 a 1975, a produção de grãos aumentou em média 3,3% ao ano; um percentual maior do que o do crescimento populacional, de 1,9% ao ano.

No entanto, o “probleminha” da alocação/distribuição dessa produção nos lugares mais necessitados de ajuda não acontece. Menos da metade dos grãos hoje em dia é destinada à alimentação, enquanto a maior parte serve para fabricar rações animais, biocombustíveis e outros produtos industriais. Além disso, deve-se computar o efeito de pragas sobre a plantação e o apodrecimento entre a colheita e o consumo. Disso decorre o inusitado: o que falta para uns, sobra para outros. É a distribuição, assim, que não é feita a contento.

Desse modo, de um lado há no mundo 1 bilhão de famintos (75% das pessoas que passam fome no mundo estão no campo); do outro, 1 bilhão de obesos. E assim, outros e outros “probleminhas” que giram em torno da má distribuição de recursos e rendas vão se agravando, contribuindo, sobremaneira, para desumanizar ainda mais as relações entre nossos pares.

Em especial sobre a questão dos subnutridos, cabe ressaltar que esse mal acomete uma entre três crianças. Em números absolutos, a subnutrição e a fome crônica afetam aproximadamente 250 milhões de pessoas na Índia; mais de 220 milhões na África; 40 milhões em Bangladesh; 22 milhões no Brasil, 15 milhões no Afeganistão. O número de mortes por causas relacionadas com a fome é da ordem de nove milhões por ano. Isso resulta em uma média estúpida de 25 mil mortes por dia.

Mais números dessa insensatez econômica e social

Se as relações econômicas fossem, ao menos, próximas do equilíbrio, bastaria dividir a produção mundial (76,3 trilhões de dólares – base 2010) por 6,9 bilhões de pessoas para obter-se algo em torno de 11.128 dólares por pessoa – base 2010.

No entanto, sabemos que não é bem assim que a coisa funciona. E sabemos também que a desigualdade não é natural, é imposta. E sendo imposta é certo que alguns estão no “centro” dessas decisões dirigindo o destino de muitos que vão sendo, dessa forma, condenados à miséria e a exploração. É a desumanização por completo da economia que provoca indubitavelmente a desumanização de nossos pares.

Os países de alta renda concentram 55% da produção mundial e abrigam apenas 16,4% da população. Vejamos o inverso: os países de renda baixa e média, onde residem 83,6% da população mundial, respondem por apenas 45% do produto. A renda per capita dos Estados Unidos é 4,2 vezes maior do que a renda média mundial e 21 vezes maior do que a renda média da África Sub-Sahariana, a região mais pobre do planeta.

E a exploração cada vez mais se esparrama por todos os lados. Cabe reiterar que os números dessa “desumanização” são alarmantes. Do lado dos óbitos tem-se entre 9 e 10 milhões de crianças mortas a cada ano por problemas com “insegurança alimentar”; 30 milhões de vítimas do HIV/AIDS; 1 bilhão e meio de pessoas sem acesso à água potável; 4 milhões de mortes ao ano na África em decorrência da malária; meio milhão de mulheres que morrem no parto por deficiências no sistema de saúde. Acrescenta-se a isso um aquecimento global que faz provocar o desequilíbrio do ecossistema a ponto de levar-nos a seguinte conclusão: não é o planeta Terra que está prestes a entrar em decomposição; somos nós. Não são os animais que entrarão em extinção; somos nós. Não é o habitat que soçobrará; somos nós.

Do jeito que está, com as desigualdades sociais e econômicas esparramando miséria e indecência por todos os lados, até mesmo sonhar a possibilidade de construir uma vida igualitária e digna torna-se algo espinhoso. Parte daí a necessidade de “humanizar” a atividade econômica. Ladislau Dowbor, a esse respeito, nos diz que “a economia é um meio que deve servir para o desenvolvimento equilibrado da humanidade, ajudando-nos, como ciência, a selecionar as soluções mais positivas, a evitar os impasses mais perigosos”.

Em nosso entendimento, a economia (ciência e atividade produtiva) só faz sentido de ser e torna-se útil se, e somente se, agrupar em seu intento crescimento econômico (equilibrado), equilíbrio ecológico (meio ambiente sustentável) e progresso social (justiça e equidade). Fora disso, a Economia encontra-se totalmente fora da realidade.

(*)Marcus Eduardo de Oliveira é economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP), com passagem pela Universidade de La Habana (Cuba).

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