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27/08/2015 15:58

Preconceito velado e desvelado contra os haitianos

Por Rosana Schwartz (*)

São Paulo, a cidade que nunca para de crescer e que recebe em confraternização indivíduos migrantes e imigrantes, desde o século XIX. Passados 200 anos, ainda revela suas complexas construções históricas. Comportamentos advindos de um passado moderno e arcaico ao mesmo tempo, impregnam os espaços visíveis (bairros centrais - classes médias e abastadas) e invisíveis (periferias) da cidade. Como mosaico de múltiplas cores, valores, culturas e comportamentos, a terra dos bandeirantes revela-se preconceituosa com relação a lugar, raça/etnia e classes sociais.

Em um de seus bairros, região do Glicério (centro), seis haitianos, que na busca de condições dignas de vida, sem possibilidade de permanência em seu país, migraram para a cidade e foram baleados covardemente. Sem motivos aparentes, se tornaram alvo de radicalismos desumanizadores. Socorridos em um hospital, após duas tentativas em unidades de saúde sem sucesso, ganharam da terra paulista marcas do violento preconceito de raça/etnia escondido nas entranhas da sociedade.

As balas alojadas em seus corpos não são meros objetos, revelam a face preconceituosa e racista de alguns brasileiros em tempos presentes. Dois ataques, um na Rua do Glicério e outro nas escadarias de uma Igreja, na qual funciona um trabalho de nome Missão Paz, que atua no acolhimento e orientação de imigrantes na capital, trouxeram questionamentos sobre tolerância e Direitos Humanos.

A Missão Paz por anos tem contribuído para o combate ao trabalho análogo ao escravo e tráfico de pessoas. Covardemente de dentro um carro cinza, indivíduos desprovidos de sua humanidade, gritaram “Haitianos, vocês roubam os nossos empregos” e atiraram, segundo relatos de testemunhas.

É mais uma história, dentre muitas outras, que revela o preconceito de raça/etnia e recriação de atitudes de xenofobia na contemporaneidade.

Desde o século XIX, imigrantes foram integrados e rejeitados na cidade de São Paulo. Carcamanos, galegos, polacos, entre outros, representavam a Europa civilizada ou o pobre sem sucesso que chegou em terras inóspitas para fazer a América. Encobrir o estranhamento decorrente do contato de culturas diferentes e as construções dos preconceitos de lugar, gênero, raça/etnia e classes sociais no Brasil é desconhecer a própria história.

Tristemente constatam-se a cada dia mais indivíduos escondidos atrás de seus equipamentos eletrônicos desvelando atitudes intolerantes contra migrantes e imigrantes. Acusando-os de adensar a crise econômica e o desemprego, esquecem quantas levas de brasileiros saíram para a Europa, Estados Unidos da América ou outros países em busca da realização de seus sonhos e melhores condições de vida e trabalho. A internet e as redes sociais só desvelam comportamentos estruturados desde a colonização e o processo civilizatório perverso e excludente imposto nas terras brasileiras.

Precisa-se discutir e refletir sobre a necessidade da desconstrução de preconceitos de qualquer ordem para seguirmos no caminho do respeito a pessoa humana e construção de mundo melhor e mais justo.

(*) Rosana Schwartz é professora de sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutora em História, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP (2007). Mestre em Educação, Artes e História da Cultura, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - UPM (2001). Bacharel em História, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo- PUC/SP (1989). Graduação em Comunicação Social: habilitação em Jornalismo, Publicidade e Propaganda, História e Ciências Sociais.

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