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13/02/2012 08:28

Quando o estrangeiro vira inimigo

Por Andrea Brunetto (*)

Outro Emerson morreu, mas esse seu nome é grafado com H, Hemerson. Escrevi há quinze dias sobre a morte do soldado Emerson, morto em um ato de coragem. Esse Hemerson, campograndense, morreu por violência, vandalismo e preconceito contra o estrangeiro na saída de uma boate em Lisboa.

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É claro que episódios como esse acontecem com muita freqüência no Brasil, em várias boates de tantas cidades, grandes e pequenas. A combinação de juventude - com certo entusiasmo e audácia que ela traz - bebida e, sobretudo nesse caso, violência, acarreta esses casos em saídas de boates do mundo. Não só do Brasil. Li um caso parecido que aconteceu na Espanha meses atrás, em que um americano foi assassinado na saída da boate em que estava.

O ingrediente a mais que creio é bem marcado nessa história é o preconceito contra o estrangeiro. O estrangeiro sempre foi mal-visto por todos os povos. Desde os gregos antigos – nem falo os de agora, pois só andam pensando neles mesmos – pois está na Ilíada, texto clássico do poeta Homero: o conselho que a deusa Atenas dá a Ulisses é que ande de cabeça baixa e não chame atenção, “pois os moradores daqui não recebem nenhum forasteiro de boa mente, nem dão comida aos que vêm de fora.”

Mesmo nós, brasileiros, que somos mais acolhedores que a maioria, temos preconceitos com o estrangeiro. Ele não precisa ser de outro país, pode ser o vizinho que não aceitamos seu jeito diferente, o índio, o morador do bairro pobre, o homossexual. Enfim, o diferente, que nos ameaça. Segundo Freud, o estranho.

No Mato Grosso do Sul convivemos com fronteiras com dois países e sabemos de episódios de racismos com relação aos bolivianos e aos paraguaios. Digo isso para não atirarmos logo a primeira pedra e dizer que preconceito contra o estrangeiro só os outros têm e que nós somos o povo acolhedor. Não somos, também fazemos os nossos “estrangeiros”, que nos ameaçam.

Não será essa a visão mais evidente e fácil diante de todo imigrante/estrangeiro? Apelar para o preconceito ou para a violência? Mais difícil é se perceber como um qualquer nesse mundo enorme de Deus, com tantas raças, tantas culturas, tantas línguas. Mas para isso o sujeito precisa ter a humildade de se saber um Zé ninguém. Será que os europeus estão preparados para se saberem Zé Ninguém? Quando Freud em “O Mal-estar na civilização” afirma que nenhum homem está à altura do mandamento “Amar o próximo como a ti mesmo”, que o ser humano nunca alcança o suficiente esse mandamento, é isso que ele quer salientar: nosso limite, nossa imperfeição, nossa pobreza.

Mas voltando para esse episódio de preconceito e violência em Lisboa, resultando na morte de um jovem: acredito que o preconceito europeu contra os estrangeiros aumentará nesses tempos de recessão, falta de emprego e dinheiro e queda do euro que eles estão vivendo. Embora o primeiro motivo seja a crise do euro, creio que há uma crise de identidade que assola a Europa. É só assistir o filme francês Les Murs (Os muros), traduzido erroneamente no Brasil por Os muros da escola, quando na verdade os problemas nessa escola francesa, repleta de tantos jovens falando tantas línguas, queria mostrar é a resistência dos professores em aceitar a diversidade cultural que prolifera na Europa atual.

Acredito que esta é uma dificuldade que a Europa só tem vivido nos últimos anos. Zigmunt Bauman escreveu, citando Rougemont que “a Europa descobriu todas as terras do planeta, mas nenhuma delas jamais descobriu a Europa”. E continua em sua tese: ela dominou todos os continentes, mas nunca foi dominada por nenhum deles. Pois este filme mostra exatamente isso: os colonizados foram ao colonizador, assumindo valores que sempre foram apregoados por aqueles – individualismo, busca de sucesso, etc – mas sem abdicar de sua própria cultura.

Esse é o fato novo – maior do que a dificuldade financeira atual, creio eu - que a Europa tem de conviver e não está conseguindo: hoje ela está sendo construída por muitos estrangeiros, que atualmente ela é multicultural, multiracial. E terá outra face no futuro.

Mas voltando a violência contra o Hemerson, o que dizer a essa mãe? Não tenho palavras. Nenhuma! Nem ao menos sei o que é essa dor. Só espero que essa mãe consiga justiça. E que tenha conseguido enterrar seu filho em solo pátrio, pois não vi mais uma notícia de que ela tivesse conseguido os apoios

necessários.

(*) Andréa Brunetto é psicanalista e diretora do Ágora Instituto Lacaniano

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Ao contràrio do que pretende com este artigo, esta morte nao foi provocada pelo preconceito para com estrangeiros emigrantes. Foi provocada sim, por comportamentos violentos de ambas as partes. Pois apalpar a mulher dos outros não é sinónimo de educação em parte alguma do mundo e a reação provocada também não tem a ver com preconceito para com os emigrantes. Isto tem a ver com violencia e alcool.
 
Esmeralda Almeida em 17/02/2012 07:46:20
Ótimo artigo, Dra. Andréa. Muito oportuno e bem equilibrado. Quanto ao rapaz morto em Lisboa, ele foi cremado e a família retornará ao Brasil no final do ano. Realmente o apoio recebido pelo Consulado brasileiro foi apenas no aspecto jurídico; nenhuma ajuda financeira.
 
Milene Gasparini em 13/02/2012 10:11:26
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