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25/08/2014 13:27

Saber, não saber e saber resolver

Por Ronaldo Mota (*)

O ensino tradicional, que representa a quase totalidade do processo ensino-aprendizagem adotado atualmente, tem na avaliação um de seus mais importantes pilares. As avaliações são quase sempre individuais e baseadas em aferir fundamentalmente se o educando sabe um determinado tema ou não.

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Baseados nos pressupostos acima, orgulhosos professores e dedicados alunos dirigem-se às salas de aula todos os dias certos de que estão todos cumprindo suas missões com galhardia, competência e justiça. Ao final de cada período letivo regular ou do sistema de ingresso ou seleção, resultados são emitidos e elogios são conferidos ao mérito de termos legitimamente separado aqueles que, aprovados, seguem em frente dos demais, reprovados, aos quais resta a opção de tentar de novo ou desistir.

O que há de errado no sistema acima? Aparentemente nada: foi descrito o sumário do mais clássico ritual acadêmico que se conhece, desde a Academia de Platão ou do Liceu de Aristoteles, há mais de 400 anos antes de Cristo, até a prática regular de qualquer escola, desde o ensino fundamental ao universitário, nos tempos atuais.

Bem, lastimo informar que há novidades e inovações que conflitam fortemente com o cenário acima. Ingressamos, enquanto espécie homo sapiens, pela primeira vez, em uma sociedade em que, graças às tecnologias digitais, o conhecimento será, ou já é, totalmente, instantaneamente e gratuitamente acessível. Em total contraste com a nova realidade, as práticas avaliativas em curso ainda são fortemente influenciadas pela concepção socrática de que a escrita promoveria na juventude de Atenas a preguiça, desincentivando a memória, elemento central da aprendizagem.

No mundo contemporâneo, a separação abrupta entre quem sabe e quem não sabe algo, somada à incapacidade de identificar aqueles que, mesmo não sabendo, sabem resolver o problema, à luz da correta seleção e uso das informações relevantes para a solução pretendida, se constitui em um dos mais graves e inconscientes crimes educacionais em curso. Há cada vez mais um contigente de talentos que se caracterizam por, dada uma missão, saber fazer bom uso das informações disponíveis, trabalhar em equipe, explorar a capacidade de aprendizagem independente e dar conta de qualquer projeto. Tais talentos que sabem resolver têm sido parcialmente excluídos a priori na seleção simples, obtusa e antiquada entre o saber ou o não saber.

Tal qual Sócrates, que até tinha uma linha de raciocínio (errada) para justificar a não escrita, atualmente, professores, gestores e autoridades educacionais não estão percebendo a atrocidade educacional cotidiana que a imensa maioria das avaliações comete, gerando desperdícios em massa de talentos que quase chegaram lá. Em geral, só lhes faltou a memória que hoje custa zero, em valores e tempo, no mundo das tecnologias digitais.

(*) Ronaldo Mota é reitor da Estácio e autor do livro "Educando para Inovação e Aprendizagem Independente", publicado pela Elsevier

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