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19/04/2013 10:10

Um mês com Francisco na Igreja

Por Ronaldo da Silva (*)

No curto período de um mês, a Igreja sacudiu séculos de sua história com a renúncia do Papa Bento XVI. Sua decisão extraordinária, lembrou aos homens de hoje que o corpo pode envelhecer, mas a sabedoria nunca envelhece. Saía de cena voluntariamente e a Igreja elegeria seu sucessor.

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O período de Sé Vacante foi marcado por muitas especulações e previsões sombrias quanto ao futuro da Igreja. Enquanto os cardeais estavam reunidos nas Congregações Gerais, as notícias diziam de disputa de poder, crise na Igreja e de um conclave conturbado.

O conclave foi um dos mais rápidos dos últimos séculos e elegeu o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que desejou chamar-se Francisco. Um título sem precedentes na história das sucessões papais. Este nome foi escolhido motivado pela vida do santo de Assis, em quem seus contemporâneos reconheceram um «segundo Cristo» (alterChristus).

Depois de 13 séculos era escolhido para Roma um bispo que não provinha do continente europeu. E, ainda, pela primeira vez, um Papa vindo da América e da Companhia de Jesus - ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola no alvorecer da era moderna com o propósito de aderir à radicalidade de Cristo.

Com o nome “Francisco” e poucas e simples palavras, o novo sucessor do apóstolo Pedro varreu, num só momento, semanas de prognósticos infundados. E mais uma vez, a Igreja católica mostrou que é conduzida pelo Espírito Santo, capaz de uma escolha sem influências externas, que entra na história pela sua novidade corajosa.

A aparição de Francisco na sacada da Basílica de São Pedro foi chocante, surpreendente. Ninguém o esperava! A sua voz doce e terna uniu candura e humildade, confirmando a escolha do nome. O gesto de pedir aos fiéis que rezassem por ele foi originalíssimo e será inesquecível, principalmente, para quem o atendeu e rezou.

Ao completar um mês da inauguração de seu pontificado, iniciado em 19 de março, a constatação geral é que Francisco, definitivamente, conquistou as pessoas com sua simplicidade, ternura e espontaneidade. E não é difícil entender o porquê! No dia seguinte à sua eleição disse aos cardeais e a todos os católicos: “Quero lhes pedir um favor: caminhemos todos juntos, cuidemos uns dos outros, cuidem da vida, da natureza, das crianças e dos idosos. Que não haja ódio, brigas, deixem de lado a inveja, não firam ninguém. Dialoguem, que entre vocês viva o desejo de cuidar uns dos outros. Deus é bom, sempre perdoa, compreende, não tenham medo Dele; é Pai, aproximem-se Dele. Rezem por mim”.

Três dias depois de eleito, no encontro com a imprensa internacional, deu outra pista de como será seu pontificado: “Ah, como gostaria de ver uma Igreja pobre e para os pobres!"

De Francisco pode-se esperar três linhas mestras de ação: a primeira é de caráter geopolítico. Primeiro pontífice não europeu desde Gregório III - que viveu no século VIII, muda o foco central da Igreja Católica. Um Papa argentino, é o reconhecimento de uma nova centralidade no Sul do mundo, onde a fé é mais vigorosa e onde estão surgindo novas potências econômicas destinadas a trazer um maior equilíbrio internacional.

Um segundo tema diz respeito às mudanças no interior da Igreja. O Papa Bergoglio, em suas primeiras aparições, enfatizou o fato de ser o bispo de Roma, antes que Papa. As críticas e cobranças concentradas na cúria romana nos últimos anos foram abordadas no pré-conclave e houve um desejo, quase geral, de que o novo pontífice tivesse pulso firme e disposição para realizar reformas urgentes para o resgate da credibilidade da Igreja. O Papa Francisco demonstra ter entendido e já inicia seu pontificado privilegiando e garantindo a colegialidade no governo da Igreja. O ato de formar um conselho de oito cardeais, dos cinco continentes, para estudarem mudanças na cúria romana é uma clara sinalização.

O terceiro tema é o da escolha inédita do nome. O sonho de uma Igreja pobre e para os pobres, estreitamente ligado ao diálogo entre as religiões e povos, parece ser o ponto de partida do novo pontificado. O estilo lúcido e sorridente do novo Papa, a humildade afável e o gosto pela espontaneidade, tem uma razão de ser cheia de espiritualidade profundamente franciscana. Ele deixa visível uma vontade de reforma que passa tanto pelas vias de governo, quanto pelas da espiritualidade e de um estilo de vida acostumado à sobriedade.

Quanto ao que esperar do Papa Francisco, simplesmente que ele seja aquilo que se propôs: um novo Francisco. Amante de Deus e das criaturas, homem de paz e de bem, amigo da pobreza e simplicidade, santo que conquistou a todos, inclusive, os não cristãos. É o que a Igreja mais precisa.

(*) Ronaldo da Silva é jornalista e missionário da Comunidade Canção Nova.

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