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11/01/2015 09:00

Vale do Silício: o segredo dos monopólios criativos

Por Marcos Morita (*)

Em quais pontos as opiniões dos economistas Adam Smith, Antoine Cournot e John Stuart Mill divergem de Peter Thiel, conhecido investidor do Vale do Silício, fundador do Pay Pal e anjo em diversas startups, incluindo o Facebook? O ponto da discórdia baseia-se nos benefícios e malefícios dos conceitos econômicos da concorrência perfeita e do monopólio, ao mercado e aos consumidores. Em suma, maior oferta, inovação e menores preços no primeiro caso e o inverso para setores dominados por uma ou poucas empresas, conhecidos também como monopólio ou oligopólio.

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Vejamos a teoria de Antoine Cournot, economista francês nascido em 1801. Seu modelo baseou-se num duopólio de empesas que vendiam águas minerais idênticas, cuja regra estava em não combinarem preços e quantidades produzidas, cartelizando o mercado. Como resultado, Cournot verificou que as empresas escolheram uma produção intermediária entre o monopólio e a concorrência perfeita.

Corroborando Cournot, Mill reuniu em sua obra: princípios de economia politica em 1848, ideias que correlacionavam preços altos e falta de concorrência, seja através de medidas impostas pelo governo, tais como aumento dos impostos de importação ou crescimento agressivo das empresas. Para Mill, as companhias aumentariam de tamanho continuamente, conquistando uma porção do mercado suficiente para dominá-lo, excluindo as concorrentes de menor porte, cobrando preços mais altos.

O oposto do monopólio, a concorrência perfeita, foi postulada pela mão invisível do mercado do escocês Adam Smith. Vejamos sua aplicação. Caso um vendedor cobrasse caro demais, outro reduziria seu preço, inviabilizando as vendas do primeiro. De forma análoga, um empregador que pagasse salários baixos, faria com que o concorrente contratasse seus empregados, falindo sua empresa. Em suma, as empresas fechariam caso não pagassem salários de mercado e não fizessem os produtos exigidos pelo consumidores, pelo preço que estivessem dispostos a pagar.

Não obstante a janela de tempo, aprendemos na universidade e ainda acreditamos em ideias com mais de duzentos anos, anteriores a Ford e seu modelo T, Einstein e a teoria da relatividade, Fleming e a penicilina e o lançamento do primeiro satélite Sputnik, só para citar alguns exemplos. Basta lembrar as fusões de grupos como Antarctica e Brahma, Itaú e Unibanco, Grupo Pão de Açúcar e Casas Bahia e os comentários catastróficos dos analistas sobre concentração de mercado, poder de barganha, redução da oferta e aumento de preços.

Vejamos agora as ideias de Peter Thiel, o qual em seu livro De Zero a Um apregoa ideias opostas, exortando a livre concorrência e saudando os benefícios do monopólio. Como exemplos, utiliza as companhias aéreas americanas e o gigante de buscas Google. Enquanto as primeiras servem milhões de passageiros e criam cerca de 160 bilhões de dólares a cada ano, captam pouco ou quase nada dos lucros originados. Em 2012 a passagem aérea média custava 178 dólares, e os ganhos estavam na casa de 37 centavos de dólar por passageiro/viagem. Em situações ideais, a mão invisível levaria as empresas a vender ao preço que os consumidores estivessem dispostos a pagar, fazendo com que no longo prazo nenhuma empresa obtenha lucro econômico.

Infeliz e simplista a análise de Thiel, em meu ponto de vista. Infeliz pelo mercado escolhido, o qual vive na última década uma sangrenta batalha por lucros e simplista, uma vez que desconsidera barreiras de entrada, estratégias de baixo custo e inovações em modelos de negócios propostas por empresas do mesmo mercado como a Southwest Airlines, a qual consegue retornos acima da média do setor. Inegável todavia que este será o futuro das empresas e mercados que decidirem permanecerem em oceanos vermelhos, mencionados na teoria homônima de Chan Kim e Renée Mauborgne.

Todavia o que chama a atenção é a análise do Google, cuja empresa pertence ao Vale do Silício e é a praia de Thiel. A empresa fundada por Sergey Brin e Larry Page arrecadou no mesmo período cerca de 1/3 do valor do mercado das companhias aéreas, conservando porém 21% das receitas como lucro, ou seja, uma margem 100 vezes superior.

Talvez por isso consiga ser eleita sucessivas vezes como a melhor empresa para se trabalhar, oferecendo mimos como salas de descompressão, café Nespresso e possibilidades de carreira infinitas. Para Thiel, o Google está sozinho no mercado de buscas. Alguém duvida?

O investidor do Vale do Silício nomeia a situação do Google e de outras empresas de tecnologia como Linkedin e Twitter como monopólios criativos: produtos novos que beneficiam a todos e lucros sustentáveis para o criador no futuro. Pense como seria um dia sem o Google, Gmail ou Maps, porque o WhatsApp foi adquirido por U$ 16 bilhões de dólares, ou ainda o que leva o Twitter ter valor de mercado varias vezes superior ao grupo editorial Times. Quem você acha que sobreviverá no futuro?

Apesar da unicidade de cada monopólio, Thiel enxerga algumas características comuns: tecnologia proprietária no mínimo dez vezes melhor que o substituto mais próximo, efeitos de rede, economia de escala e branding. Até hoje nenhuma empresa conseguiu chegar próximo do algoritmo de busca do Google, crescer com o efeito de rede como o Facebook, manter os custos fixos apesar do crescimento exponencial (quanto custa acrescentar um usuário ao Linkedin?) e branding. Twitter, Linkedin e Google são hoje sinônimos de mensagens curtas, rede social profissional e mecanismos de buscas.

Colocado este pano de fundo, vale testar se o modelo de monopólio criativo aplicar-se-á a outras industrias fora do Vale do Silício ou do setor de tecnologia. Quiçá estejamos construindo novas fronteiras para conceitos seculares propostos por Smith, Cournot e Mill, os quais nem em sonho remoto imaginavam um mundo tão conectado e interligado como hoje, com informações de todo o mundo a um simples clique de distância.

(*) Marcos Morita é mestre em administração de empresas e professor da FIA-USP e Universidade Mackenzie. Especialistas em estratégias empresariais, é palestrante e colunista. Há vinte anos atua como executivo em empresas multinacionais.

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