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23/11/2016 07:08

Luta de sumô na prefeitura de Campo Grande

Mário Sérgio Lorenzetto
Luta de sumô na prefeitura de Campo Grande

Um libanês e um paraguaio entram no "dôhyo", um ringue circular utilizado no sumô. Empurra daqui, empurra dali, em uma luta por informações. Mas não pode parecer luta, tem de ser um ritual. Ainda que não queira transparecer, é um duelo de forças em combate. O primeiro que sair da linha, perde a contenda.

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Há informações de como andam as contas da prefeitura de Campo Grande? Sim, elas estão sendo entregues pelos funcionários para a comissão de transição. E não, as contas não estão sendo entregues. Entenderam? Esse é o sumô do novo com o antigo prefeito. Não podem oferecer à população uma crise da falta de informação. Não podem transparecer o combate, então, dançam.

Empurrar um ao outro está sendo entendido como uma ritual. Oferecem nomes que estudarão, quando todos desejam conhecer números.

Não existe nenhuma lei que obrigue o contendor paraguaio a entregar dados ao libanês. As leis dizem que a população deveria ter conhecimento de como andam as finanças da prefeitura. Pela lei não deveria nem existir comissão de transição, bastaria estudar os números pelo site da prefeitura. Nos últimos quatro anos a população só conhece a versão do prefeito e de seu secretário. Na prática, o site não existe. A suspeição é que não passem de mentiras. A verdade é que só saberemos das reais condições financeiras da prefeitura quando o novo prefeito tomar posse. A crença da maioria da população é que a administração está falida. O sumô persistirá?

Luta de sumô na prefeitura de Campo Grande

Proclamação ou golpe da República?

A polarização que hoje vivenciamos não é nenhuma novidade em terras tupiniquins. A família real - D.Pedro II, Princesa Isabel e Conde D´Eu - não conseguiu garantir a estabilidade financeira do país. A concentração de poder do sistema monarquista já não era compatível com as necessidades nascidas da modernização da economia. Estabeleceu-se uma crise dentro da elite empresarial- militar contra a nobreza. A família real tinha deixado de constituir um símbolo querido entre as massas. Tornara-se alvo de ataques e chacotas da imprensa nacional. Um roteiro semelhante ao que acabamos de vivenciar com a perda do "trono" de Dilma.

Quem comandava o movimento republicano era o Exército Brasileiro. Esse, ao contrário de tantos outros movimentos, tinha um plano. Todavia, não haveria república sem o consentimento do Marechal Deodoro da Fonseca. O velho Marechal sofria com uma saúde debilitada e era um monarquista convicto.

No dia 9 de novembro, militares e civis republicanos se reuniram no Rio de Janeiro. O intuito era somar argumentos que convencessem Deodoro a derrubar o Império. Cinco dias depois, os republicanos fizeram circular o boato de que o governo imperial havia mandado prender Deodoro e o tenente-coronel Benjamin Constant, o grande mentor intelectual dos oficiais republicanos. A trama deu resultado: Deodoro finalmente se sentiu instigado a participar do movimento que, a principio, visava depor apenas o ministério, mantendo salva a monarquia.

Na manhã do dia 15 de novembro, a marcha para derrubar os ministros mais parecia um desfile cívico. Quando a comitiva chegou à frente do quartel-general que abrigava os ministérios, nenhuma resistência foi encontrada. Os sentinelas que deveriam defender os ministros bateram continência para Deodoro e seus companheiros. Em questão e minutos, os ministros perderam o poder.

Luta de sumô na prefeitura de Campo Grande

Uma mulher no meio da República

Raros livros de história contam o papel fundamental de uma bela viúva gaúcha na crise que derrubou a nobreza brasileira. A Baronesa do Triunfo fora disputada por Deodoro e por Silveira Martins. A viúva preferira Martins. Desde então, o civil não perdia qualquer oportunidade de provocar Deodoro, insinuando a questão amorosa e até contestando sua eficiência militar. E seria o nome de Martins a assumir o comando do país pelas mãos de D.Pedro II, seria escolhido primeiro-ministro. Um prato cheio para Benjamin Constant.

Muito menos do que convicções políticas, a gota d'água para a instituição do novo sistema de governo foi uma resposta direta de Deodoro a seu eterno adversário. Silveira Martins jamais assumiu o poder. Nessa mesma noite, Deodoro estava em sua casa assinando a carta que chegaria a seu amigo pessoal, o Imperador D.Pedro II, informando, com grande pesar, o fim da monarquia e o banimento da família real. Só no dia 16 de novembro anunciou-se ao povo a mudança do regime político.

Luta de sumô na prefeitura de Campo Grande

1966, o ano em que o caldo entornou

As rádios piratas dominavam o espaço informativo. Espalhava-se um convincente mito de uma nação vigorosa. Um país jovem, com classes sociais irmanadas, irreverente e vibrante, que celebrava sua modernidade e pujança. Não, não é o Brasil petista. É a Inglaterra dos Beatles e Rolling Stones.

Até hoje, 50 anos depois, o ano de 1966 exerce uma forte influência no imaginário mundial. Um ano possível de ser resumido com uma rápida passagem nos nomes que apareciam nos jornais, além dos roqueiros famosos: a esquelética modelo Twiggy, os carros mini (que só agora chegam ao Brasil), as mini-saias, o ator Michael Caine, a atriz Julie Christie. Londres era a "capital dos embalos". A seleção inglesa de futebol batia a Alemanha na final da Copa do Mundo. Era o clímax de um país. Havia uma sensação de euforia. Mas era falsa.

Mas sob essa superfície de autocelebração, grandes perigos começavam a surgir. O gangsterismo migrou para as rádios piratas e pôs fim a sua existência. As rixas entre as gangues que pululavam na Inglaterra começaram a surgir na imprensa com uma série de confrontos violentos e assassinatos, torturas, assaltos violentos e extorsões mediante ameaças. Três do Beatles saíram e Londres para o interior mais calmo afirmando que estavam exaustos e frustrados pelo público, mais interessado em gritaria do que ouvi-los. O último concerto da banda famosa acontecera em agosto quando lançaram seu disco mais aclamado pela imprensa. "Revolver", era o nome do disco que abria com "Taxman", uma denúncia de George Harrison contra a alta carga de impostos. Enquanto isso, os maiores rivais do grupo, os Rolling Stones, lançavam músicas cada vez mais sombrias.

Se o cenário cultural era pessimista, pode-se dizer o mesmo da política. Harold Wilson, o primeiro-ministro britânico teve de enfrentar uma greve dos marinheiros que abalou o país. Na Universidade de Sussex foi confrontado por centenas de estudantes que o acusavam de traidor por apoiar os Estados Unidos na guerra do Vietnã. O governo de Wilson ficara marcado por apoia leis que transformaram a vida de todas as famílias: legalização do aborto e da homossexualidade masculina, a prescrição de pílulas anticoncepcionais pelo sistema governamental de saúde inclusive para as solteiras e o combate à discriminação por motivos de raça, gênero ou deficiência. Em retrospecto, uma administração mais à esquerda - progressista mais intervencionista na economia (tudo a ver com o Brasil de poucos dias atrás). O empresariado começou a levar o dinheiro para os países vizinhos.

No entanto, as divisões sociais se tornavam cada vez mais claras. Inúmeras manifestações contra Wilson ocorreram. Eram turbulentas. Os sinais da fragmentação da nação estavam presentes. O caldo entornou. 1966, o ano que ofereceu um modelo para os petistas brasileiros copiarem.




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