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30/01/2016 08:49

Pelado de botas

Mário Sérgio Lorenzetto
Pelado de botas

A nudez e a poligamia dos índios ajudavam os portugueses a transformá-los em demônios. Considerados não civilizados, a tentativa dos padres em cobri-los resultou, muitas vezes, em situações cômicas. Anchieta conta: "Os índios de ordinário andam nus e, quando muito, vestem alguma roupa de algodão ou de pano baixo e nisto usam de primores a seu modo, porque um dia saem com gorro ou chapéu na cabeça e o resto do corpo nu; outro dia saem com seus sapatos ou botas e todo o corpo nu. E lhes parece que vão assim mui galantes". O debate sobre a nudez dos índios alimentava uma indagação - o que teria vindo antes: a roupa ou o pudor? A resposta estaria com Adão. Teve que se cobrir com uma folha de parreira, assim que foi expulso do paraíso. Os missionários tinham em Adão a resposta para o pudor - obrigavam os índios ao uso de roupas. Vários tratados sobre roupas foram escritos na Europa depois do encontro com os índios. A ideia era de que se cobrissem os pelados, retirando-lhes as armas da sedução. Mas também atacavam a luxúria e a vaidade dos próprios europeus que se vestiam com roupas de tecidos caros, perucas pomposas e maquilagens. Vem daí a importância da modéstia como sinônimo de pudor.

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Os seios não seduziam nem os tarados.

Poucas blusas, muitas delas escorregavam pelo corpo da mulher até a barriga com frequência. Seios nus. A maioria magros e caídos. Assim muitos viajantes que chegavam ao Brasil escreviam sobre as nossas mulheres.
Contrariamente aos nossos dias, não havia lugar do corpo feminino menos erótico ou atrativo do que os seios. Diziam que não seduziam nem tarados. As denominadas "tetas", descritas nos tratados médicos de então, tinham uma só função - produzir leite. Acreditavam que o sangue materno cozinhava com o calor do coração, tornando-se branco e leitoso.

Os seios jamais eram vistos como sensuais, mas como instrumentos de trabalho de um sexo que devia recolher-se ao pudor e à maternidade. O colo alvo, o pescoço branco como "torre de marfim", cantado pelos poetas, pouco a pouco foi sendo coberto. E isso até nas imagens sacras. Estátuas da Virgem Maria em estilo barroco, antes decotadas, desaparecem das igrejas. A Virgem do Leite que expunha os bicos evaporou. Nossa Senhora passou a ser coberta até o queijo. O pudor governava.

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A falta de banho podia levar ao paraíso.

Pudor de sentimento e pudor corporal tinham significados diferentes. Como narra Mary del Priori: existia um pudor para ricos e outro para os pobres, um para as mulheres e outro para os homens. O banho estava associado ao prazer na Antiguidade romana. Os banhos públicos multiplicaram-se na Roma Imperial e muitos se tornaram locais de prostituição. Eram chamados "banhos bordéis", onde as "filhas do banho" ofereciam seus serviços.

Os primeiros cristãos, indignados com esse uso dos banhos para o erotismo, consideravam que uma mulher que fosse até eles poderia ser repudiada. Concílio após concílio tentavam acabar com os banhos. É claro que, mesmo na Idade Média, não conseguiam fechar suas portas. A situação ficou ainda mais drástica. Os padres foram proibidos de banhar-se. Sobretudo quando jovens, abster-se de banhos virou sinônimo de santidade. Santa Agnes que o diga - privou-se deles a vida toda. Ordens monásticas os proibiam aos seus monges. O batismo cristão, antes uma cerimônia comunitária com imersão em um córrego ou rio, transformou-se em uma mera aspersão, algumas gotinhas de água. É, não gostavam mesmo de água. Homens e mulheres jamais se banhavam juntos. Ambos cobriam as "partes". Eles, com um tipo de calção. Elas, com um tipo de vestido longo e fino.

Enquanto os nossos índios davam exemplo de higiene, banhando-se nos rios, os europeus eram perseguidos pelas leis religiosas, católicas e protestantes, que lhes interditavam nadar pelados. Aliás, tinham tanto medo de água que não sabiam nadar. Muitos morreram a poucos metros das praias por não saber, nem mesmo, dar algumas braçadas.

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Pelado de botas

Bastam uma legislatura delinquente e um executivo inepto para tudo corroer.

De um lado um Congresso com todo o equipamento mental para promover um extraordinário debate regressivo e desumano. De volta ao passado. Do outro, um governo que se dispõe a entregar o pouco que restava de sua própria alma para não perder o assento. Um, com raiva. O outro com medo. Combinação ideal de emoções para tudo implodir. No susto, vamos aprendendo a lição de que bastam uma legislatura delinquente e um executivo inepto para tudo corroer.
Quer promover o direito à vida? Corroa o SUS. Aproveite e rife o Ministério da Saúde entregando-o a um ninguém.
Quer reduzir o déficit energético brasileiro? A Amazônia e o Pantanal estão à disposição para criarem um parque de hidrelétricas.
Quer facilitar o desenvolvimento? Atenue o conceito de trabalho escravo e demita o que resta de quadro funcional do Ibama.
Quer combater o crime? Feche os olhos para o que acontece nas periferias e permaneça indiferente a qualquer proposta de reforma das polícias.
Quer promover a segurança? Enfraqueça o estatuto do desarmamento e alimente a ideia de que estar seguro é estar armado.
Esse é o legado de Eduardo Cunha e de seus soldados. Legado em gestação e ainda incerto. Mas também tem a notável participação de Dilma Roussef que faz a sua parte nessa onda. Os dois parecem em disputa, mas são apenas as duas faces de uma moeda fraca, desvalorizada, que muitos gostariam de enviar à Sibéria (no mesmo avião do Eurico Miranda, do Vasco).

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