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28/05/2016 07:48

Uma história natural do estupro

Mário Sérgio Lorenzetto
Uma história natural do estupro

Uma jovem de 16 anos foi estuprada por mais de 30 homens. Ela narra que saiu de uma festa com um "ficante". O termo "ficante" significa algum tipo de relação sem compromisso, usual em nossos dias. Teria sido drogada e, ao acordar, se deparou com muitos homens armados em sua volta. Se não bastasse a covardia do estupro, esses homens filmaram a genitália da mocinha e postaram na internet.
Histórias como essa acontecem todos os dias. A ONU diz que uma em cada cinco mulheres foi ou será vítima de estupro. São agressões cometidas por maridos, namorados, amigos ou desconhecidos. Mas por quê? Como a ciência explica esse comportamento que existe desde os primórdios da humanidade e nos deixa em condições tão próximas das de animais?
Duas correntes distintas buscam respostas para essa pergunta. A feminista norte-americana Susan Browmiller lançou um livro tentando elucidar a questão - " Agains our Will" (Contra nossa Vontade). Um marco na defesa das mulheres vítimas de estupro. Até o lançamento desse livro, quando eram estupradas, as mulheres tinham de provar que haviam tentado resistir. Caso contrário, elas teriam "consentido" com o ato. Além disso, a forma como se vestiam e sua vida sexual pregressa eram consideradas atenuantes para o agressor, como se ela topasse ficar com qualquer um em qualquer hora.
Para Susan a agressão nada tinha a ver com desejo sexual. É violência, poder e opressão masculina sobre as mulheres. "Um processo consciente de intimidação pelo qual todos os homens mantêm todas as mulheres em estado de medo", afirmou Susan em seu livro famoso.
A tese de Susan fez muito sucesso e até mudou os rumos dos julgamentos dos casos de estupro. Todavia, nem todos os estudiosos se conformaram com essa ideia. Para muitos cientistas, Susan é extremista ao imaginar uma conspiração universal de homens contra mulheres. O livro mais famoso que se opõe aos preceitos de Susan, mesmo criticando violentamente os estupradores, foi escrito por Randy Thornhill e Craig Palmer, ambos norte-americanos. Eles lançaram " A Natural History of Rape" (Uma história natural do estupro), onde defendem uma ligação direta entre estupro e sexo. Em outras palavras, que o estupro é natural. Cuidado, natural não é sinônimo de bom ou de perdoável. Não faltam exemplos de comportamento humano que não são nem um pouco nobres - a violência é um desses comportamentos. Os autores desse livro deixam claro podem ser motivados pelo desejo de vingança, de humilhação ou de infligir dor a uma mulher. Mas afirmam que as feministas deixam de lado um componente fundamental para entender o estupro: a excitação sexual do homem agressor. O debate entre os dois livros é profundo e importante para entender essa covardia. Só xingar e prender não nos levará à saída desse beco. Leiam e se posicionem. Só não vale defender estuprador.

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Uma história natural do estupro

No tempo do "namoro de bufarinheiro" e "namoro de escarrinho".

No Brasil do séculos XVII e XVIII há registros de estratégias de sedução que soariam pouco familiares e mesmo pueris aos nossos olhos contemporâneos. É o caso do "namoro de bufarinheiro" (bufarinheiro era o vendedor ambulante de bugigangas). Consistia em passarem os homens a distribuir piscadelas e a fazerem gestos sutis com as mãos e as bocas para as mulheres que se postavam à janela, em dias de procissão, como se fossem eles bufarinheiros a anunciar seus produtos. É também o caso do "namoro de escarrinho", no qual o enamorado punha-se embaixo da janela da moça e não dizia nada. Limitava-se a fungar como se estivesse resfriado. Caso a declaração fosse correspondida, seguia-se uma cadeia de tosses, assoar de narizes e cuspidelas.

Uma história natural do estupro

O "vaso natural" das mulheres.

A catequese se impunha a toda a nossa sociedade colonial. A agenda de então era: civilizar, educando nos princípios cristãos. Normas regiam as práticas sexuais dos casados. As pessoas não se despiam. As mulheres levantavam as saias ou as camisas e os homens, abaixavam as calças ou ceroulas.
A atividade sexual extraconjugal e com outro fim que não a procriação era condenada. Manobras contraceptivas eram condenadas. O casal deveria se comportar com pudor, amizade, discernimento, moderação e sem nenhum impulso de volúpia. A manifestação de ardor sexual era considerada uma forma de adultério. Consideravam-se impróprios para o ato sexual os dias de jejum e as festas religiosas, o tempo de menstruação, a quarentena após o parto, os períodos de gravidez e de amamentação. Somando tudo, era um tempo imenso sem sexo. a esposa só poderia ser casta e pura. Sua ingenuidade seria prova de sua honradez. As regras da Igreja pareciam se esconder sob a cama dos casados, controlando tudo. Proibiam-se ao casal as práticas consideradas "contra a natureza". Além das relações "fora do vaso natural" consideravam-se pecados graves "quaisquer tocamentos torpes" que levassem à ejaculação. Assim, as preliminares para o ato sexual eram consideradas pecaminosas. O sexo admitido era restrito exclusivamente à procriação. Era proibido evitar filhos gozando "fora do vaso". Era proibido a mulher colocar-se acima do homem. Afinal, só os homens comandavam. Ou colocar-se de costas, comparando-se às feras e animalizando um ato que deveria ser sagrado. Outras posições conhecidas à época como "à la brida", "como carneiro pastando" ou a dos "malabaristas" eram ilícitas. Mas o mais importante, negar o sexo era pecado. Dor de cabeça não valia. Força valia.




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