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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016


  • Luca Maribondo
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    Coluna


28/07/2011 12:24

Candidatos dupla face

Luca Maribondo

Candidatos dupla face

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O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não enxerga, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço de feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato, do remédio, dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista; pilantra e corrupto. O analfabeto político é lacaio dos exploradores do povo.

O Analfabeto Político

Poema-crônica de Bertolt Brecht

Já dizia Niccolò Machiavelli que a virtú é a arma para sedução da Fortuna. O cônsul italiano acreditava, ao contrário dos romanos, que tal atributo não estava relacionado à virilidade —à força masculina, atributo do macho—, mas à sutil combinação entre a força e a astúcia. Mais que a força, a sagacidade de demonstrar —sem a utilizar— que a força é que marcava a vida dos grandes príncipes. Através desse caminho muitos analistas atribuíram a Machiavelli a noção de que o critério para julgar uma decisão política é simplesmente o seu resultado ou a conquista do objetivo a partir da habilidade. O mundo da moral e o mundo da política estariam em dimensões distintas. Simplificando, a conhecida noção de que o fim justifica os meios.

Max Weber, autor de Politik als Beruf (A Política como Missão), retomou o tema e o dilema ao analisar a ética da responsabilidade, que envolve a ação dos líderes políticos. Um líder, argumenta o sociólogo alemão, é movido pela paixão, mas também possui equilíbrio. Antes de tudo, porém, é responsável pelas conseqüências das suas ações. Um dos corolários é que, para o governante, o que importa é a certeza do resultado.

A partir daí, muitos seguidores de Weber sustentam que a omissão é uma atitude plausível e justificável na ação responsável de um líder político. Conseqüentemente, nem sempre um líder pode ou deve dizer o que ocorre ou vai ocorrer, sob pena de estimular a disputa e trair os planos de Estado. Fugir à responsabilidade pelos erros dos subordinados é um exemplo disso —todos sabem a confusão que dá. Quando ameaçou demitir todos seus auxiliares de primeiro escalão, o prefeito de Campo Grande, Nelsinho Trad (PMDB) estava perfeitamente enfronhado disso.

Partindo-se do princípio de que essas concepções e orientações teóricas são absolutamente corretas, todos os candidatos a um cargo político com reais condições de vitória tenderiam a convergir para um discurso e práticas comuns, antecipando a ética de um chefe de Estado. Sabendo que poderiam ser eleitos e assumir um cargo público, tenderiam a ser cautelosos, adotar a responsabilidade do cargo e demonstrar possibilidades, mais que agir de maneira irrefletida. Ao contrário, um candidato sem chances de vitória poderia mostrar-se por inteiro, pender para atos mais agressivos e afoitos, pois estaria longe de praticar sua virtude.

Esta talvez seja uma explicação teórica plausível para o que acontece na campanha eleitoral de 2012, que todo mundo nega, mas que começou faz é tempo. Por que, afinal, principalmente os candidatos prefeitorais, ainda que não estejam claramente definidos quais são, se parecem tanto —fala-se dos prefeitáveis, mas isto é real aqui também— nas suas propostas? Uma boa explicação é justamente a real chance de qualquer um deles tornar-se o próximo prefeito morenopolitano —ainda que hajam apenas dois realmente na disputa. Intuitivamente, percebem que o segundo turno das eleições já é uma certeza, mesmo que falte muito tempo para o pleito.

Delcídio Amaral (PT), (dizem as pitonisas eleitorais em improvável dupla com o ex-governador Zéca do PT), demonstra pesquisa recém saída do forno, está com jeito de garantir a cada dia que passa a sua vaga na finalíssima desta disputa. Edson Giroto (PR), ex-assessor de André Puccinelli para assuntos de obras e construções, disputa a outra vaga —há, segundo a mesma pesquisa, uma sólida vantagem para primeiro—, de acordo com os levantamentos mais recentes. A dupla de candidatos parece antever que, no segundo turno, haverá uma outra eleição, não havendo garantias sobre o resultado. Então, os dois assumem uma postura prudente e cautelosa, insinuando que não romperão com o stabilishment.

Sabe-se que em momentos de forte crise social e/ou econômica, de insegurança total sobre o futuro, surgem lideranças políticas pouco racionais, da estirpe dos carismáticos ou dos demiurgos. Sigmund Freud escreveu, num artigo um tanto conservador, um texto sobre este fenômeno: em O Futuro de uma Ilusão, ele traça um paralelo entre a busca da figura do pai organizador e a busca das massas —quando mergulhadas no caos— da figura do líder aglutinador que guia a sociedade com uma promessa de triunfo. Um verdadeiro demiurgo.

A semelhança do comportamento dos candidatos e o espaço insignificante e pouco legitimado de discursos mais arrojados na campanha eleitoral de 2012 parecem indicar uma percepção geral de que cidade não está precisando de mudanças —não de mudanças profundas, embora muita coisa tenha mudado sob Nelsinho Trad. Isto poderia significar um sinal de avanço e de maturidade política da sociedade morenopolitana. Mas não é bem assim e esta alternativa também é insuficiente.

Outra hipótese plausível para a parecença do comportamento dos postulantes é o cenário econômico de 2011, que reduz o espaço de manobra do próximo prefeito. Não se está mergulhado no caos, porém todos estão cientes de que não há garantia de um amanhã de crescimento e estabilidade. O fluxo de investimentos para as ações e projetos é instável. Resumindo, o cenário do ano que poderá ser de grande aperto financeiro. Pior para nossa estrutura da cidade.

Os pré-candidatos, é claro, estão cientes de que não podem abrir muito o estoque de opções, sob pena de prometerem o que não poderão cumprir e ainda perderem, talvez logo nos primeiros dias de administração, a legitimidade que conquistarem nas urnas, diga-se de passagem modernas e eletrônicas, mas que provocam a desconfiança de muita gente.

Tem outra explicação plausível: o envelhecimento precoce de um sistema partidário que nunca foi dos mais sólidos e confiáveis. Deixou-se um sistema bipartidário, imposto pelo regime militar instalado em 1964, para um sistema pluripartidário muito instável e fisiológico. Estudos e comentários científicos indicam que a exceção à regra era o Partido dos Trabalhadores.

O PT teria, em resumo, as características clássicas de um partido político moderno: programa partidário para além do período eleitoral, organização burocrática profissional, bases sociais sólidas, militância atuante inclusive fora do período das campanhas eleitorais. O atraso petista está mais em seus militantes —mesmo aqueles dos mais altos escalões— do que propriamente da estrutura partidária, ainda que a agremiação tenha piorado depois de haver assumido o poder.

O resultado é que, nas eleições recentes já se percebia um decisivo desvio do PT na direção de uma intenção mais claramente eleitoral e menos mobilizadora —daí o afastamento da sempre presente militância petista. Para tomar esse desvio reforçou o marketing político, reduziu gradativamente seus pontos de atrito com a ordem social vigente e procurou ampliar seu público-alvo para os segmentos formadores de opinião.

Flexibilizou, portanto, seus vínculos com os movimentos sociais que lhe proporcionavam sustentação desde a sua criação, e assim deixou de lado muitos dos compromissos com a pauta política que esses movimentos elaboravam. Com o divórcio, o PT aproximou-se do padrão instável dos demais partidos políticos brasileiros. Sem o antigo poder de mobilização social —ou mesmo certa simbiose com tais movimentos— o cenário partidário ficou pasteurizado.

Nas eleições do ano que vem, o que era apenas uma tendência, passará a ser uma marca: as alianças políticas são muito parecidas, sem a base histórica —que de fato já aconteceu nas eleições presidenciais de 2010. O que vale não é a vitória, mas ganhar as eleições. Se alguém duvida disso, é só ver como se estão dando as negociações, não só em Campo Grande mas em todo o Estado, em todo o país, para a formação das alianças para 2012

Todos sabem, ainda que intuitivamente, que não são os programas e as propostas de governo que diferenciam os candidatos. Todos são muito semelhantes e o que os diferencia é o comportamento individual ou os traços de caráter de cada um. Os projetos ousados propalados no início do processo de redemocratização do país são substituídos, a partir de então, por ações espetaculares, de natureza midiática. É assim que se explica a importância cada vez maior dos trajes do candidato, da sua pele esticada, dos dentes alvejados ou do penteado de cabeleireiro, sua reação às provocações anunciadas, à capacidade de sorrir. São filigranas, pura cosmética, todos sabem, mas elas é que diferenciam o que é tão parecido.

Em resumo, nas eleições de 2012, os candidatos serão ainda mais uniformizados, mais digestíveis. A mesmice dominará tudo e, mais que nunca, o divórcio entre padrão moral e padrão político será evidente. Com certeza será experimentada uma espécie de cultura pós-moderna na política. Os políticos demonstram que hoje estão cheios de argumentos e atitudes ambíguas, que podem tanto ser usados como contestação ou a favor do sistema, capuz para dias de chuva excelente para dias de sol. São candidatos double face...

luca.maribondo@uol.com.br

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OLA MEU QUERIDO LUCA, CONTINUA ARRASANDO EM SEUS COMENTÁRIOS, FALA POUCO MAS COM SABEDORIA ISSO É MUITO BOM PARA NÓS LEITORES E FORMADORES DE OPINIÃO, QUANTO AO PLEITO A PREFEITO 2012 ACREDITO QUE DEVEMOS ANALISAR COMO VC JA DISSE O PERFIL DO CANDIDATO E NÃO DO PARTIDO, AFINAL EM TIME QUE ESTÁ GANHANDO NÃO SE MECHE, GIROTO DEVE SER O PRÓXIMO PREFEITO POR VARIAS RAZÕES DENTRE ELAS, CARISMA, COMPETENCIA COMPROVADA E PROFUNDO CONHECEDOR DOS PROBLEMAS DA NOSSA CAPITAL ISSO TEM UM PESO IMPORTANTISSIMO PARA O DESENVOLVIMENTO DE NOSSA MORENA, QUANTO AO DELCIDIO FAZER DOBRADINHA COM O ZECA, SE EU FOSSE O DELCIDIO NÃO FARIA POIS O ZECA JA TEVE SUAS OPORTUNIDADES E NÃO SOUBE APROVEITAR E O DELCIDIO PELO QUE ME APRESENTA SER NÃO GOSTA MUITO DE ATIRAR NO PÉ, AGUARDEMOS PRA VER, GRANDE ABRAÇO GAROTO E FIQUE SEMPRE COM DEUS.
 
EDER DE OLIVEIRA CHAVES em 05/08/2011 09:51:41
Luca, posso dizer que citar " Niccolò Machiavelli " caiu como uma luva para a crônica.
Um abraço, sempre muito bom ler você.
 
Vania Galceran em 03/08/2011 01:25:30
Coluna muito verdfadeira e de facil entendimento,só falta os eleitores cada um penssar por sí, não aceitar vantagens eleitoreiras muito menos ficar fazendo aglomerações nas portas dos famigerados comites, para ganhar uma ninharia por alguns dias e ficar nas esquinas acionando bandeirolas, demonstrando assim que o determinado politico tem força.Quem tem a força é o eleitor, infelizmente a grande maioria faz barganha desta grande força por dinheiro ou pequenos objetos, que quando chega o dia da eleição já foi gasto ou consumido. E agora espertar outras eleições para termos novamente essas vantagens ou sería melhor tomar cuidado e eleger verdadeiros representantes que identifica com os verdadeiros anceios da sociedade.
 
porfirio vilela em 01/08/2011 07:18:55
Hoje em dia é quase impossivel a gente distinguir quem é esquerda e quem é direita. Acho que devia mudar essa denominação. E deveria dar gradaçoes para a corrupção dos politicos: os mais corruptos e os menos corruptos. Com notas... Vamos ver o que vai acontecer na campanha de 2012. Mas as previsoes nao são boas.
 
Julia Hanna Saboia em 29/07/2011 09:40:46
Tenho observado que, sempre ao falar de política, ninguém se manifesta. Será ignorância mesmo, como a minha ou um rabinho preso com algum padrinho político? Aqui em tudo precisamos de Q.I. (Quem indica). Uma vergonha esse cabide. Pergunto: Quem não quer mamar? A vaca está dando muito leite. Nós contribuintes que pagamos, por ignorância geral, não reclamamos. Pasmem!!! Ainda votamos na mesmice, essa "Roda Viva... Gigante... BRASIL... Quem paga...?
 
Neuci Augusta Fonseca em 28/07/2011 09:46:43
Parabéns! Very Good!
 
Carlos Camargo em 28/07/2011 08:03:53
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