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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016


  • Luca Maribondo
  • Luca Maribondo

    Coluna


01/10/2012 11:15

Como herói

Luca Maribondo

Cheguei em Campo Grande em 25 de setembro de 1972, vindo do interior de São Paulo —há exatos quarenta anos, portanto. Havia completado 25 anos três dias antes e aqui cheguei em plena campanha eleitoral daquele ano. Naquela época, em plena vigência do governo militar, havia apenas dois partidos políticos. Arena, acrônimo de Aliança Renovadora Nacional, agremiação governista, e MDB (Movimento Democrático Brasileiro), oposição permitida, uma contradição em termos que permanece até os dias de hoje, com a denominação de Partido do Movimento Democrático Brasileiro, ou PMDB.

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Levy Dias, bacharel em direito, evangélico, líder estudantil, era o candidato da Arena; não me lembro quem foi o candidato emedebista, se é que houve algum. Contados os votos —naquelas priscas eras o voto era em cédulas de papel e contados uma a um—, Dias ganhou. O apoio do venerando cacique da política mato-grossense do passado Pedro Pedrossian foi decisivo.

Com os dias contados, os 14.619 em que cá estou, nunca vi uma campanha eleitoral tão relés, tão sórdida. Também nunca vi, nestes pouco mais de 487 meses, grupo de candidatos tão néscio quanto o septeto que disputa nossos votos obrigatórios neste 2012. Um septeto maldito. Não vou aqui analisar a postura de cada um, nem a ação coletiva dos candidatos, inclusive os que pleiteiam uma vaga de vereador. Pretendo apenas dizer por que devo anular meu voto.

É isso: pretendo anular o meu voto no primeiro turno das eleições municipais de sete outubro. Não dou certeza porque não posso controlar o desenrolar dos fatos e apenas os cretinos não mudam de ideia diante das mudanças ambientais e comportamentais. Penso que devemos ser rígidos com os princípios, com a filosofia, não com algo efêmero como as ideias, os desejos e as vontades.

Mas voltando ao voto, tenciono anular meu sufrágio porque tenho plena certeza de que nenhum dos sete candidatos deve administrar minha cidade —minha não só porque aqui cheguei faz quarenta anos, mas porque aqui nasci 25 anos antes de aqui voltar. Meus motivos são muitos: alguns por inépcia, por despreparo, todos por questões ideológicas e por desvergonha. Não tenho provas nem evidências contra nenhum deles, mas não acreditaria nem num "Pai Nosso" puxado por um deles.

Sou anarquista por natureza e por opção, assim não me sinto representado por nenhuma facção política; uns poucos políticos de extrato nacional e internacional se aproximam desse ideal, mas são cada vez mais raros —quiçá inexistentes nos dias de hoje. Nenhum dos candidatos à prefeitura da minha cidade defende os princípios que tenho como de valor. Pelo contrário. Todos prometem aumentar ainda mais o poder do Estado, dando mais e mais força para o Governo se meter nas nossas vidas. Todos falam em mais impostos e taxas, em câmeras de vigilância, em polícia; mas ninguém diz nada a respeito de cidadania.

Minha decisão nada tem a ver com a chance de conseguir uma nova eleição devido ao grande número de votos não válidos. Nem tenho certeza se existe esta possibilidade na nossa Constituição, mas já vi gente defendendo que “sim, se a maioria votar nulo ou branco teremos novas eleições sem os atuais candidatos”, mas vi juristas dizendo que “não, não é possível esta interpretação”. De qualquer forma, a “anulada” que darei nas máquinas de votar (vulgar e erroneamente conhecida como urna eletrônica) no dia 7 de outubro nada tem a ver com isso, repito.

Penso em anular o meu voto porque todos os sete candidatos propõem medidas que vão aumentar o poder e o alcance do governo e na mesma medida diminuir a responsabilidade, o direito e a liberdade do cidadão. Todos que pedem meu voto são burocratas moldados pelo “politicamente correto” e, saibam ou não, estão a serviço de forças espúrias e obscuras, forças estas que se alimentam da burocracia e cresce no vazio deixado pela recusa das pessoas em defender a cidadania e a justiça. São as pessoas que moram na cidade que permitem existência dos candidatos que os poderosos nos impingem.

É fato que, ainda hoje, existem indivíduos que fazem tudo o que querem fazer neste país (e não me referindo apenas a políticos), sem temer a justiça, sem se preocupar com o dever de seguir as leis (que, diga-se de passagem, passaram a ser elaboradas por um grupo de sujeitos que são escolhidos diretamente por nós, é verdade, mas, que geralmente frustram muitas das nossas expectativas.

Votar, no Brasil, por enquanto não faz tanta diferença. É dura essa realidade. Há quem não concorde com essa afirmação, contudo. Penso que seja por alguma razão que obstrua a clareza da consciência das pessoas. É o futebol que cega o povo? É religião (qualquer delas) que nos corrompe a mente? O carnaval? O sexo? O anseio de resolver a sua vida individual, independente de considerar que há miséria em vidas alheias? É a alienação? É a falta de educação? O medo? A preguiça? A ignorância? O que é que deixa o povo cego, afinal?

O Brasil irá para frente quando o povo for para as ruas pra reclamar, pra destruir os impérios particulares erguidos com verba pública, pra exigir respeito, honestidade, decência. E fazer isso, companheiro, sem ter tido uma educação de qualidade, é bem difícil. Muitos nem sabem que podem causar transformações importantes, desconhecem a força que têm. Se conseguíssemos nos organizar pra cobrar o que nos é devido. Mas, sem nos politizarmos, permaneceremos coletivamente fragilizados.

As pessoas podem escolher os seus candidatos, mas, devem ter cuidado pra não votar com a emoção. Eu escolhi votar nulo. Não vou, simplesmente, me satisfazer com aquilo que colocam como opções para um eleitorado insensível e ignorante, pois sei que existem melhores opções do que essas que costumam lançar candidaturas. Opções que sequer foram oferecidas ao povo, ainda. Tudo muda, mas só nós temos o poder de mudar.

É uma esmagadora minoria que consegue distinguir o que as relações de poder —soma de dinheiro e política— têm causado no mundo nos dias de hoje. São poucos os que se preocupam com isso. Alguns se importam principalmente com escolhas que possam atender mais e melhor aos seus interesses pessoais, deixando o comunitário de lado. Eu estou desejando a mudança que quero ver no mundo —um mundo de todos, sem exploradores ou explorados. Integração humana. Plenitude da consciência. Transformação urgente e necessária. Verdade, e não mentira. Por isso tudo estou pensando em votar nulo.

É preciso pensar como um herói pra se tornar um ser humano decente. E, como diz o corolário do meu irmão Geraldo Maribondo, "e para ser um ser humano decente é preciso agir como herói". Não há espaço pra covardia.

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O oponente do Levy Dias foi o professor Hércules Maymone.
 
heitor freire em 19/11/2012 11:50:59
Na verdade os intelectuais do Brasil, teriam que ter a coragem de disputar eleições e por em práticas seus conhecimentos absolutos, e não ficar se escondendo atrás de artigos bem elaborados. É muito pouco, e fácil dizer que vai anular o voto e pronto; essa é a maneira mais fácil de se isentar das responsabilidades, que também é parte de todos os cidadãos.
 
Paulinho Barbosa em 11/11/2012 13:23:41
André Luiz, obrigado pelas suas palavras, mas justamente por causa de exemplos como o citado por você, torna-se imperativo o uso de uma pré-seleção para os candidatos.

As pessoas pensam que isso é anti-democrático porque teoricamente, qualquer cidadão pode se candidatar a cargo eletivo. Entretanto, isso não significaria o fim de um direito, seria apenas mais um pré-requesito ao candidato, quem quisesse se candidatar, que tratasse de se preparar de acordo com a importância do cargo que pretende exercer.
 
Guilherme Arakaki em 22/10/2012 22:02:42
Guilherme Arakaki, sua idéia é ótima, porém, vivemos numa sociedade extremamente mal-acostumada com a atual situação. Penso que o sujeito que usa em seu slogan temos como "Nois é do mato, mas nóis é baum", "Vota ni nóis, vota ni nóis" e coisas parecidas, deveriam ser sumariamente excluídos do pleito. Mas falar isso, para muitos, é preconceito, então, melhor deixar quieto e que o barco prossiga navegando nas atuais águas tormentosas.
 
ANDRE LUIZ ALVEZ em 22/10/2012 11:28:39
Anular seu voto não fará aparecer um candidato ideal. Voto nulo também não fará doer a consciência do político desonesto pois este não tem alma.

Para melhorar o cenário político brasileiro é necessária a eterna vigilância, exercida por uma imprensa imparcial, sem interesses políticos, e por um povo consciente de seus direitos e das funções e obrigações de seus eleitos.

Ao invés de pregar o voto nulo, por que não fomentar a realização de concurso público? Todo ano eletivo, haveria primeiro um concurso público, cobrando conhecimentos de economia, sociologia, filosofia, direito, ética, geopolítica, raciocínio lógico, logística, etc, valendo somente para aquela eleição. Quem passar pode lançar candidatura para o pleito. Nova eleição, novo concurso.
 
Guilherme Arakaki em 21/10/2012 22:03:00
Luca Maribondo eu compreendi seu grito e concordo SOMENTE para essa eleição. Você é um pensador, um intelectual e sua fala tem visibilidade midiática. Para a PRÓXIMA eleição QUERO você defendendo o VOTO LIVRE, que hoje é obrigatório. Logo, para ESSE pleito você não contribuiria com o processo com idéia diferente da que escreveu.
 
emillen r jesus em 18/10/2012 19:45:53
um colustista ou jornalista sei la o que vc eh realmente, mas pregar VOTO NULO, eh algo antidemocratico, e lhe garanto que jamais perderei tempo lendo seus comentários.

votei 45 e vou acompanhar as mudanças.
 
JOSE CLEIDE VARGAS em 12/10/2012 10:16:26
o que tem que mudar é o sistema politico brasileiro,onde politico só tem direitos e nenhuma obrigaçao.politico tem que ter os mesmos direitos que um simples trabalhador,nao ter foro privilegiado,ser punido exemplarmente qdo cometer algum delito etc.sempre usam da mesma artimanha,para enganar o eleitor.o eleitor é um simples objeto politico.
 
jose aparicio fontoura em 11/10/2012 14:00:32
Tem todo o direito. Mas na época em que votou definido, provavelmente era por questões profissionais. Agora que acabaram-se os vínculos, prega de anarco-moralista. Democracia é isso: cada um faz o que quer com seu voto.
 
José Silva em 11/10/2012 10:58:28
Prezado Luca, boa tarde!

Não votar ou anular o voto sacrifica e compromete todos, quem não votou e quem votou sai perdendo, pois corre-se o risco de se ter um representante que não se quer.
 
Hélcio Franco em 08/10/2012 13:59:19
Assim. Votar nulo não seria eximir-se das responsabilidades? Também já pensei nisso, mas optei por votar... consigo visualizar uma melhoria continua. Bem lenta, é claro.
 
agricio araujo em 08/10/2012 13:43:46
Sr. Luca Meribondo
Eu já enviei meu artigo para (redacao@news.com.br) por duas vezes. A última vez a moça que atendeu ao telefone confirmou que havia chegado. Também estou ansioso, mas agora um pouco mais feliz porque , dos eleitores campograndenses , um ínfimo percentual optou , como o senhor, por anular o voto.. Por favor, procure ver com quem atende no 3316 7200, pois foi ela que me informou que meu artigo havia chegado.
 
Aliciio Mendes em 08/10/2012 07:53:05
Prezado L.M.,sou admirador de sua coluna,mas dessa vez sou obrigado a discordar de suas opiniões,anular voto é omitir,temos que analisar a vida pregressa de cada candidato para escolher um.O que temos que fazer é conscientizar os eleitores a votar consciente,não trocar seu voto por bagatelas. Se alguem compra o voto não tem obrigação com o eleitor. A sociedade terá que organizar suas classes para poder cobrar de seus representantes com poder de representatividade, só assim em mais umas três decadas já teremos algum resultado positivo.
 
Porfirfio Vilela em 06/10/2012 16:52:41
Sr. Alicio Mendes. Estou ansioso à espera do seu artigo. Por favor me envie o link da publicação se tiver sido postada em algum sítio da Internet. Muito obrigado.
luca.maribondo@uol.com.br
 
Luca Maribondo em 05/10/2012 20:42:20
A analogia da necessidade de se tornar herói não podia cair mais adequada. Herói é aquele que oferece o próprio corpo e mente à dor e à tortura para o bem comum, e nos dias de hoje ninguém mais se inclina a isso.

Herói é infelizmente uma utopia, queria eu ter um herói que votasse a diminuição dos salários dos deputados, não pelo impacto econômico, mas em demonstração de repeito como servidor público.

Enfim, heróis são para as histórias em quadrinhos. Belo texto.
 
Eder Lima em 03/10/2012 13:19:24
SR. MARIBONDO
O veneno da sua ferroada desta vez pegou pesado.
No mínimo é também inconseguente, calunioso,difamatório, injuirioso, exatamente o que o Jornal não admite que usemos em nossos comentários. Como o espaço para este comentário é muito pequeno, estou preparando um artigo para tecer comentários a respeito . Att.
 
Alicio Mendes em 02/10/2012 08:22:33
Em nosso estado de fato a politica é totalmente podre, há politicos disputando eleições com habeas corpus e com investigação de assassinato protegido pela "justiça" e por poderosos de Brasilia...parabéns..aqui é podre mesmo!
Para se ter idéia o grande lider da chamada esquerda foi da
Arena e hoje é figura de proa do PT...imagine o resto seu Luca!!!
 
João Leoncio em 02/10/2012 06:29:54
Voto nulo e em branco não contam para nada. o TRE só trabalha com votos válidos. Caso exista apenas um voto válido para eleição de prefeito, este será o vencedor do pleito com cem por cento dos votos válidos. Simples assim. Quanto a anular o voto ou votar em branco fica por conta da consciência de cada um, já que o voto não é direito, é obrigação, por isto obrigatório.
 
Marco Aurélio Gonçalves Chaves em 01/10/2012 21:39:15
Todos os jornalistas sabem da importância e da capacidade de mobilizar, o Senhor L.M. como bom jornalista que é pode contribuir para que essa escolha seja mais consciente e cidadã e ajudar a melhorar o futuro de nossas crianças e adolescentes. A meu ver é só analisar quem tem compromisso com a educação. O voto nulo, cuidado! Pode eleger pessoas não aptas e ainda gastar o dinheiro dos contribuintes
 
Neuci Augusta Fonseca em 01/10/2012 21:35:47
ola colega, sou jornalista radicado em marilia,sp, de que cidade do interior voce é, meus familiares aportaram em campo grande na década de 70, helio zaparolli, que tinha uma loja de esportes na rua 14 de julho, Leia Esportiva, o Luiz Carlos Zaparolli, representante comercial e hoje dono de uma empresa de azulejos hidraulicos,o Arnaldo que faleceu e morou ai muito tempo, enfim, toda minha familia
 
marco zaparolli em 01/10/2012 19:00:54
Parabéns Luca, excelente artigo. Estamos sem opção. Partilho com você do mesmo sentimento, de que nenhum dos candidatos pode me representar. Somos obrigados a participar dessa farsa travestida de democracia, mas digo e repito: podemos no máximo mudar os palhaços, mas não temos forças ainda para mudar a estrutura do circo. E esse circo que esta ai vai perdurar por muito tempo ainda. Infelizmente!
 
Alexia Oliveira em 01/10/2012 14:29:59
O oponente de Levy Dias foi o David Balaniuck, lembro bem desta eleição, assim como lembro que o governo do Levy Dias foi excelente, muito provavelmente o melhor que Campo Grande já teve. Respeito sua opinião mas não concordo. Anular o voto pura e simplesmente é se omitir, é permitir que o pior tenha chance e temos sete candidatos postulantes ao cargo, não é possível que todos sejam ruins.
 
ANDRÉ LUIZ ALVEZ em 01/10/2012 14:23:55
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