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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016


  • Luca Maribondo
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    Coluna


25/10/2011 11:00

Mediocridade

Redação

Tentar entender a adoção de estrangeirismos como resultado da inserção de elementos culturais por meio se situações de contexto lingüístico é considerar que língua e sociedade estão intrinsecamente ligados e que não se pode sustentar uma sem a presença da outra. Na verdade, o estrangeirismo não constitui uma realidade isolada. Ele surge inserto nas estruturas da língua portuguesa, muitas vezes hibridamente flexionados. O estrangeirismo participa, pois, dos próprios processos culturais e da convergência de interesses cerceada pela imposição da mídia.

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Nesse sentido, quando uma sociedade privilegia a inserção de valores de outra sociedade em seu contexto sócio-cultural, a adoção desses valores representa a vontade de tornar tal contexto o mais semelhante possível da ambiência vislumbrada. Em resumo, o brasileiro é fissurado nas coisas vindas de outras plagas.

A evolução histórica do Brasil bem demonstra como essa valorização de elementos pertencentes a outras sociedades está arraigada: o período de colonização supervalorizou o estilo de vida português, indubitavelmente; em seguida a França passou a ser o modelo a ser seguido. Mais à frente os Estados Unidos passaram a ser o alvo dessas aspirações. O inglês, vindo da Ianquelândia, praticamente passou a ser um segundo idioma do brasileiro, mesmo aqueles mais iletrados.

Dentro do próprio país essa tendência é uma constante: as metrópoles ditam valores para as outras cidades. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e outras são referências para o resto do país. Essa valorização de determinadas culturas em detrimento de outras é reforçada pela mídia, que difunde largamente essa forma de imposição. Não é à toa que Mato Grosso do Sul vive reclamando da sua própria falta de identidade.

Mesmo em contextos mais específicos essa tendência é uma constante: a prática de esportes ou a participação em determinados grupos sociais tende a mitificar valores e a valorizar determinados costumes. Assim, não apenas roupas e linhas de pensamento são adotadas por esses agrupamentos, mas a própria linguagem acaba sendo adotada.

Um dos elementos mais constantes nessa adoção de outros valores culturais é a aquisição de empréstimos lingüísticos, que, se, inicialmente, representava a necessidade de se utilizar um vocábulo estrangeiro pela falta de equivalente na língua portuguesa, passou a ser empregada como recurso de afirmação de identidade cultural. Usar o empréstimo lingüístico seria, então, uma opção mais por imposição de uma estrutura que por consciência. Se, por um lado, isso representa modificação da linguagem, por outro representa um empobrecimento cultural.

Para essa massa ignara que não costuma usar o cérebro para pensar, é bom lembrar que, mesmo em tempos de globalização, comunicação planetária via Internet e a institucionalização do inglês como um idioma internacional, ainda há pessoas que falam português no Brasil. Quando se trata de comunicar é fundamental o emissor da mensagem saber reconhecer o perfil do receptor para, pelo menos, minimizar os ruídos. Em plena época de liquidação, quando o que o comerciante mais quer é queimar todo o estoque, por que então complicar com cartazes de desconto, como “50% off”, quando no mais das vezes o consumidor mal entende o português?

Além de toda uma história de colonialismo cultural, o uso de estrangeirismos está ligado à origem norte-americana de atividades como marketing e publicidade e do forte impacto da cultura pop na comunicação. Alguns procuram se policiar para evitar o uso exagerado de outro idioma nas conversas e nos textos, mas muita gente não consegue.

O fato é que, em alguns casos, o uso indiscriminado de termos estrangeiros pode atrapalhar a eficiência e a competitividade de uma organização. Será que ao colocar uma placa, identificando-se como drugstore, a farmácia está adotando uma estratégia de comunicação adequada à sua clientela? No mesmo caso encontram-se as lojas que substituem a entrega em domicílio pelo pedante delivery. Nos dois exemplos, a adoção do estrangeirismo em nada contribui para tornar a comunicação mais eficiente.

Por trás do uso excessivo de palavras em inglês esconde-se a falta de autoestima dos brasileiros com a sua língua e sua cultura, como o dono da loja acredita que o sale confere status e um ar mais sofisticado à sua liquidação. A língua, desta forma, é usada mais para passar uma imagem elitizada do que para comunicar. Os estrangeirismos, nesse caso, apontam para a discriminação social, agravando-a ainda mais. A maior parte das pessoas não compreende a mensagem e fica à margem do processo de comunicação.

O uso excessivo de palavras estrangeiras, principalmente inglesas, no Brasil demonstra cabalmente que nunca houve no comportamento social e cultural do brasileiro tanto desperdício de mediocridade. A mediocridade não é uma coisa nova —os antigos também conheciam a mediocridade. Mas só hoje usamos delivery para oferecer entrega em domicílio; 50% off, para anunciar desconto; bike para falar de bicicleta; sale para designar liquidação. Gente assim —que, infelizmente, está se tornando a esmagadora maioria— é tão medíocre que nem do dia dos seus próprios funerais vai conseguir ser o centro das atrações.

luca.maribondo@uol.com.br

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Em duas palavras: FALOU TUDO!!!!!
 
HELG ALVES CUNHA em 09/07/2012 12:31:02
Imagine se agora devêssemos banir todas as palavras estrangeiras que a compõem? Ao invés de "abajur" (aportuguesada do francês abat-jour) usássemos "luminária de mesa"? Se baníssemos "muçarela", e déssemos qualquer outro nome? Enfim, sou da opinião de Euclides: laissez-faire! Se alguém quiser discutir ainda sobre o assunto, fiquem à vontade para me mandar um e-mail.
 
Frederico Saint Julià em 01/12/2011 05:38:54
Concordo com Euclides Vargas
Não é somente a nossa língua que sofre intereferência estrangeira, mas todas, não se pode ser xiita em relação a permitir que nossa língua absorva parte da cultura de outras, afinal evolução é isso.
Existem inúmeras palavras que achamos ser 'nativamente' nossas, como 'garagem', que no entanto já são derivações da influência do inglês. Essa mistura é comum no mundo todo
 
Eder Lima em 18/11/2011 03:20:14
Tão 'xarope' o modismo que, de tempos em tempos aparecem essas pragas de lavoura repetidas desde o telemarketing (epa!) à sala de aula da faculdade ou do cursinho: 'a nível de', 'nós enquanto', e 'realizar'. Outro dia vi quão poderoso se tornou o verbo realizar: no caixa eletrônico apareceu-me a frase: "Aguarde um momento;vamos realizar o seu extrato". Ó! tristeza, nada mais se faz, só se realiza.
 
Montezuma Cruz em 15/11/2011 10:20:13
Que falta faz um bom grupo escolar e bons professores no ginásio, né Luca? Com a fartura de palavras em nossa língua riquíssima, ainda constatamos a macaquice do bakcup e do download, do stand by e do preview. Mais grave é chegar à periferia e localizar um salão Hair Stylistic 'unisexo'. Não entro no mérito do patriotismo, nem da patriotada. Apenos percebo que o modismo é monstruoso.
 
Montezuma Cruz em 15/11/2011 10:15:45
digamos então que como bárbaros que foram latinizados por Roma, seremos então americanizados pelos E.U.A.
 
claudio campelo em 15/11/2011 01:33:38
e são responsáveis pela intelecção. O que deve ser compreendido é que a língua, mais especificamente a portuguesa, é mutável e açambarca expressões nascidas da constante evolução das sociedades. Repelir estas expressões é de uma ignorância de natureza ditatorial, própria de pessoas que se amedrontam com o novo, com a evolução que não podem ou não querem acompanhar.
 
Euclides Vargas em 09/11/2011 11:33:50
É óbvio que existem exageros que devem ser evitados e o próprio mercado o fará, já que a maior parte dos consumidores não entende (e nem são obrigados a entender), expressões originárias de outras línguas. Ora, se a intenção do mercado, capitalista por natureza, é se fazer entender, o próprio mercado se encarregará da seleção natural. Agora, há termos que fazer parte da linguagem mundial...
 
Euclides Vargas em 09/11/2011 11:27:59
"Enquanto estivermos a caminhar para frente e decidirmos virar para a direita ou para a esquerda a procurar por uma gare com necessidades de embarcar num comboio, jamais perguntemos para algum "moço" a direção certa, porque "moço' é o mesmo que "bicha" e bicha é fila. Rapariga é moça e camioneta é ônibus é o nosso ônibus intermunicipal".
Em Portugal não se usa crase e nem gerúndio e tem muitas palavras que não diz nada com nosso vocabulário. Creio que pela miscigenação criamos uma língua brasileira que sempre sofrerá adição de vocábulos estrangeiros. Sofremos influências de colonizações francesas, inglesas, africanas, italianas, japonesas e juntando à língua indígena deu no que está aí.
 
Ezio Jose em 03/11/2011 02:20:08
Outro dia, liguei para um restaurante (do tipo classe A) de Campo Grande e perguntei: "Vocês entregam marmita ou marmitex?" E a resposta foi categórica: "Não, nós não fazemos delivery." Então tá, né?! I'm sorry!
 
Anita Ramos em 01/11/2011 07:01:01
Parabêns!! Muito boa matéria. “Os comerciantes”, eles querem eletizar, com frases em inglês para chamar atêncão da classe “A” . LADO: B - Eles se esquecem, que a classe “c” ´é uma massa que vem crescendo a cada ano, que é responsável pela economia deste País, que nunca pode ser deixada de lado.
 
Givanildo Miranda em 31/10/2011 03:29:25
Parabens LUCA,sempre leio sua coluna e cada dia o admiro mais, também penso que temos que valorizar o que é nosso, talvez não há uma perfeição na lingua Portuguesa, por ter essa mania de estrangeirismo, sou brasileiro e acho que nós teriamos ao ivés de ficar dizendo palavras que talvez nem sabemos o que, só por uovir na mídia, procurar melhorar a nossa linguagem.
 
porfirio vilela em 30/10/2011 11:15:44
Parabéns Luca Maribondo. Só faltou você postar também esta frase utilizada muito no espaço juridico - fumus boni iuris e o periculum in mora - pra ainda mais confirmar a realidade de sua matéria. Precisamos sim valorizar nosso idioma, afinal os fracos da sua própria gramática procuram disfarçar com outra línguas que nem mesmo dominam.
 
Roosevelt Gomes em 30/10/2011 07:20:45
Concordo plenamente com você. Tenho 62 anos e sou de uma geração que tinha orgulho de ser brasileira. Onde foi parar esse amor pela nossa pátria maravilhosa, mesmo com todos os seus problemas?Vamos valorizar nossa cultura, nossos artistas, nossa música ,nossa lingra, nossos trabalhadores. O brasileiro é um povo maravilhoso, com algumas exceções, lógico. Eu amo meu país. Para mim é o melhor .
 
Maria Angelina de Sandre Duenha em 27/10/2011 08:06:07
Lingua portuguesa, pátria, bandeira... Bahhh... quanta bobagem!
Orgulho de quê? Pra quê?
Importante é se fazer entendido.
As pessoas não mais conseguem interpretar ou dar sentido a uma frase, mesmo usando todas as palavras com a mais perfeita ortografia, na corrétissima lingua culta.
Isto sim é um problema.
 
Hamilton Moraes em 27/10/2011 06:13:21
Bem vindo Luca Maribondo.será que em bem proximo futuro estaremos tbm asteando a bandeira dos Ingleses, porque a nossa "Bandeira Brasileira"está bem pouco amada e respeitada.com todo respeito aos americanos,mas sou feliz e orgulhosa patrióta Brasileira,Amo o Brasil com tudo que ele tem de bom ou de ruim.
 
Teresa de Moura em 26/10/2011 03:46:29
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