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Campo Grande, Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

19/12/2013 06:29

Aos 97 anos, Manoel de Barros renasce em “Bernardo” e com poesia inédita

Ângela Kempfer e Bosco Martins
Manoel em cena do documentário Dedicatória.Manoel em cena do documentário "Dedicatória".

Manoel de Barros não anda nada bem de saúde, tem escrito pouco, mas continua produzindo. Hoje, no dia do aniversário de 97 anos, ganha como presente uma nova edição do livro “Poesia Completa”, homenagem da editora Leya, com o frescor de um poema inédito, criado em 2013.

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“A turma” é a volta a um tempo recorrente no trabalho do poeta, época de natureza, de criancice e do velho amigo Bernardo. “A gente não sabia botar comportamento nas palavras. Para nós obedecer a desordem das falas infantis gerava mais poesia do que obedecer as regras gramaticais”.

O amigo e jornalista Bosco Martins lembra que ultimamente são poucos os interlocutores que chegam a Manoel. Além dele, a filha Marta de Barros, a mulher Stella e a secretária particular Elaine Sandra Paixão. Este ano, Manoel perdeu o filho Pedro, dor que já havia experimentado com a morte de outro filho, João. Uma tristeza a mais para desencorajar quem caminha para os 100 anos.

Bosco conhece Manoel como poucos e, apesar da distância imposta pela família, ainda consegue fazer chegar as mãos do poeta livros e mais livros de fãs com pedido de um autógrafo. Como interlocutor, ele passa a falar mais sobre Manoel nos próximos parágrafos desta reportagem, um relato sobre como está nosso poeta hoje.

 

Bernardo e o seu cachimbo.Bernardo e o seu cachimbo.

Digo sempre uma coisa: desconfio que Manoel de Barros gostaria de ter nascido Bernardo. Quando o conheci, ao lado do poeta e de Stella (a esposa), Bernardo tinha seus 85 anos e veio morar em Campo Grande para se tratar de problemas cardíacos. Stella, que era voluntária do Asilo São João Bosco, resolveu ajudar a cuidar dele. Foi assim por mais de 20 anos.

O asilo é uma chácara que lembra a fazenda do Pantanal, cheia de passarinhos e árvores pelo quintal, como Bernardo sempre gostou e onde conheceu Manoel, trabalhando na casa da família.

O prazer dele era tomar umas pinguinhas no final de tarde e fumar cachimbo.

Mas um dia o doutor o proibiu de vez de fazer as duas coisas. Foi quando o Manoel botou em questão: "Mas Doutor, já que mulher nunca teve... não poderia ter ao menos um prazer na vida?"

Foi assim que Bernardo continuou fumando o seu cachimbo...

Junto com Manoel, vez ou outra, visitávamos o Bernardo que passava o tempo sentado num banco, fitando o céu e fumando.

Quando morreu o poeta disse: Digo uma coisa a você: acho que eu, Manoel de Barros, gostaria de ter nascido ele.

A natureza do poeta nunca mais foi à mesma depois deste dia. Desconfio que, por isso, vive a celebrar o amigo em desconcertantes poemas.

Só a perda dos filhos o abalaram tão profundamente. O poeta incrustou ainda mais em suas inscrições/linguísticas rupestres. Ao escavar suas vozes e reascender a chama do menino arteiro que vive a renovar e animar sua poesia.

Bernardo obteve momentos na vida do poeta de ser o pai que Manoel por uns momentos deixou de ser. Depois que a tia que ele cuidava morreu, mudou-se para fazenda no Pantanal. Sua lida diária era varrer o quintal.

E desta feita também ajudou a criar os filhos do Manoel, a ponto dos mesmos gostarem tanto de Bernardo, quanto do poeta. Vem dai o orgulho e admiração ao amigo e a homenagem como seu alter ego.

Certa vez, Bernardo foi trabalhar numa lancha de passageiros que fazia trajeto nos rios Paraguai e Taquari. Diversão dele era pescar, escamar peixes e rir.

Bernardo ria muito. Ria sozinho. Ria a perder de vista....Quando enjoou da coisa, voltou pro Pantanal.
É que na fazenda tinha o cantinho dele em cima de uma árvore. Uma cama de tábuas onde dormia horas, sem nunca despencar.

Da outra vez que Bernardo e o poeta se perderam quase foi para sempre...

Foi quando ele se danou a andar pelo norte do Paraná, onde foi lidar com colheita de café. Mas de repente não se teve mais noticias dele...

Depois de longo tempo, toca o telefone no apartamento do poeta no Rio de Janeiro. Era um delegado de policia de Bauru, no estado de São Paulo. “Prendi um rapaz aqui que tá de porre e nunca para de rir”, disse o delegado. “Encontrei no bolso dele um papel todo amassado com esse numero de telefone. Por isso estou ligando”, emendou o policial do outro lado da linha.

“Segura ele ai que estou indo buscá-lo, agora Doutor! Esse rapaz é meu irmão, o Bernardão da Mata!”, exclamou o poeta, do outro lado da linha.

Foram dois dias de viajem até reencontrar Bernardo. A viagem era de trem, do Rio a Bauru e de Bauru a Porto Esperança. Depois, de Porto Esperança a Corumbá a viagem de volta era de navio e o restante até a fazenda era feito de lancha.

Por isso, ele foi o escolhido entre tantos? Pode ser! Mais desconfio que hoje, e a cada aniversário, Manoel renasce em Bernardo.

A turma, de Manoel de Barros

A gente foi criado no ermo igual ser pedra.
Nossa voz tinha nível de fonte.
A gente passeava nas origens. Bernardo conversava pedrinhas
com as rãs de tarde.
Sebastião fez um martelo de pregar água
na parede.
A gente não sabia botar comportamento
nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas
Infantis gerava mais poesia do que obedecer
as regras gramaticais.
Bernardo fez um ferro de engomar gelo.
Eu gostava das águas indormidas.
A gente queria encontrar a raiz das
palavras.
Vimos um afeto de aves no olhar de
Bernardo.
Logo vimos um sapo com olhar de árvore!
Ele queria mudar a Natureza?
Vimos depois um lagarto de olhos garços beijar as pernas da Manhã!
Ele queria mudar a Natureza?
Mas o que nós queríamos é que a nossa
palavra poemasse.”

Stella, Bosco e Manoel, em um dos últimos registros do poeta.Stella, Bosco e Manoel, em um dos últimos registros do poeta.


Obrigada Bosco pelo sentimento de pertencimento que as histórias que você trouxe me causaram. É bom ter notícias do poeta, parece até cafezinho bebido de tarde.
Manoel de Barros é o absurdo estampado no céu.
luzia di resende
 
Luzia di Resende em 16/02/2014 16:03:24
Parabéns! A emoção é intensa. Agradeço por esse privilégio de acesso a esta matéria.
Nosso amor a manoel, bernardo e a poesia deles.
 
Marcelly Camacho Torteli Faria em 04/01/2014 12:10:36
que beleza bosco, e que bom que o poeta segue nos aplicando seu verso... nequinho bernardeou... bravo!
 
lorenzo falcão em 27/12/2013 00:46:43
Linda reportagem!
Sinto saudades do que conheci pela poesia de Manoel de Barros.
O absurdo sensível, o real do sentimento revelado pelo e impresso no verso, expresso na invenção da contramão.
Manoel sente o cheiro da cor e compartilha poemando!
Ganhei de natal uma caixa de lápis (vivos) de cores (vivas) das maravilhas da natureza manoelina/bernardina. Com ela menino pinto o sete e atiço os sete sentidos para se confundirem nos cheiros e cores dos sons.
Obrigado
 
Olavo Galvão em 25/12/2013 12:24:46
De Três Lagoas-Ms. Manoel de Barros, nosso amado poeta Sul-Matogrossense, orgulho de nosso Estado ! Um ser Lindo e de muita Luz, iluminado por Deus e inspirado pelos anjos...Com certeza o maior poeta regionalista de nosso Brasil. Parabens, Que Deus Te ilumine sempre nas suas escritas , na suas mensagens maravilhosas,na poesia, na vida,que você tenha um Natal abençoado junto de seus familiares. Saudações poéticas e felicidades.....Um afetuoso abraço!!!!!
 
Vania Garcia de Queiroz em 20/12/2013 10:54:00
Aprendi a gostar do poeta Manoel de Barros, quando conheci Campo Grande e me apaixonei por aquela terra e o jeito das pessos se curtirem e curtirem a natureza. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente quando esteve em Brasíia para lançamento de um livro de fotografias do Pantanal.
Desejo a ele e a sua família tudo de bom neste Natal e um Ano Novo maravilhoso.
Abraços de
Ana Rosa
 
Ana Rosa Carvalho de Abreu em 20/12/2013 10:08:17
Fiquei emocionada,bela materia,ate porque tambem tive Bernardo em minha vida...emocionei me nao so por isso, o poeta me fez recordar meu pai que ja nao esta aqui e como parente do poeta o recordava sempre com carinho e sabiamos que ele nasceu poeta...meu pai contava que em uma de suas viagens por Corumba,um dos irmaos dele em tom de brincadeira disse,"esse disque vai ser poeta" e se tornou grande!Saude poeta!espero em Deus que um dia quando for ao Brasil poder dar lhe um abraco em nome do meu pai...materia perfeita!de parabens!
 
LiA POMPEU DE CAMPOS REGONAT em 20/12/2013 08:25:03
O que dizer de Manoel de Barros? Meu Deus, 97 anos de puro ermo inocente. Um poeta singular. Uma visão sem igual. MANECO merece reconhecimento eterno por enxergar o mundo de maneira tão pueril e singular. Amo você meu poeta. Obrigada por não deixar de celebrar a sua vida com poesias fantásticas. De uma pessoa que te descobriu na escola com o livro POEMAS RUPESTRES e que agora é professora de literatura e especialista em suas obras. Te amo, desejo muita saúde.
 
Suzy Ferro em 19/12/2013 18:35:48
Bosco,

Louvo-te pela notícia comemorativa ao poeta Manoel de Barros!
Bernardo vive em nós! Manoel é nosso! Afinal, diz o verso de "Escritos em verbal de ave": “Deixamos Bernardo de manhã/em sua sepultura/De tarde o deserto já estava em nós” .

Rosidelma Fraga.
 
Rosidelma Fraga em 19/12/2013 17:34:02
Bosco....

Com toda certeza você é uma das pessoas mais abençoadas. Ter a amizade desse grande homem é muito mais que bom...
A matéria está excelente e nem podia ser diferente, fala de nosso expoente!!! (rimou)
Grande abraço e parabéns!
 
Márcio Fontoura Corrêa em 19/12/2013 15:15:32
Em meio a tantas notícias ruins, chego a esta linda reportagem sobre "nosso" Manoel de Barros. Obrigada!!!
 
Dora Boccia em 19/12/2013 13:36:18
Bosco, faço minhas as suas palavras. E se ele queria ter nascido Bernardo, eu quero renascer Manoel... de saias. Não me anima emplacar os 100, mas se chegar perto quero chegar produtiva e escrevendo. Quando levei minha professora a casa dele, eu ansiosa tb por conhecer D. Stella conterrânea de minha mãe. A amiga que nos acompanhou caiu na besteira de perguntar a ele se ainda escrevia, e ele respondeu: "pois se só sei fazer isso....." No fundo, no fundo, é só isso mesmo que a gente que escreve faz, o resto todo é complemento, alimento pra escrever mais. Adorei a matéria.
 
janice drummond em 19/12/2013 13:14:57
Linda matéria! Vê-se expresso em cada letra, um sentimento puro e verdadeiro de amizade e amor ao próximo. Respeito acima de qualquer outra coisa, e ainda assim, servindo de base à esse poeta-homem-menino!!! Parabéns pela belíssima matéria! Li e reli. Provavelmente, voltarei para "re-reler", porque toca os sentimentos, belas palavras, falando de belas pessoas! Obrigada Ângela Kempfer e Bosco Martins!!! Muito obrigada mesmo!!
 
Fabi Ana em 19/12/2013 12:12:13
Amo poesia! Amo a escrita! Parabéns, pela matéria!
 
Rúbia Luz em 19/12/2013 11:42:15
Linda , doce , meiga e poetizada a matéria , como tinha que ser mesmo em se tratando de Manoel de Barros :-)
 
Luciene Lopes em 19/12/2013 11:34:51
Emocionante, mesmo. Privar da amizade de Bernardo. Uma amizade sem palavras, só risos. Privar da amizade do Poeta, Bosquinho um privilégio; na senda de Bernardo, todos vamos ficando mais santos. A começar do Poeta.
 
ADRIANA ROCHA em 19/12/2013 10:53:38
... a poesia do Manoel é "diferente", diria "desconcertante" mas encantadora para quem tem origem ou "laços" com as raízes deste grande Brasil.
 
Adelino Paludo em 19/12/2013 10:12:01
Parabéns Ângela e Bosco Martins pela matéria lindíssima.
Fiquei altamente emocionado.
Grande abraço,
Hermano Melo.
PS. Tomei a liberdade de colocá-la há pouco (matéria e ilustrações) no blog "Liberdade,Liberdade" - www.linhaslivres.wordpress.com
 
Hermano de Melo em 19/12/2013 10:08:07
Sem palavras :´)
 
Débora Bordin em 19/12/2013 10:08:01
Lindo!!! emocionante!!
 
Vitorina Liuse Vera em 19/12/2013 09:47:20
PARABÉNS Manoel o nosso poeta maior pelo aniversário e vocês pela reportagem parece que estou ouvindo ele contar histórias e estórias. Por que não fazer o cantinho do Manoel ou do Bernardo e mostrar as maravilhas do poeta para nossos jovens e todos nós. S A Ú D E AO POETA.
 
Meire Pereira de Souza em 19/12/2013 09:33:26
Bosco, meu querido, sempre te achei meio doido... contudo admirável...
Hoje, me emocionei, ao ler essa matéria... essa poesia...
Que honra ter a amizade dessa lenda viva... desse nosso ídolo.
Quem dera pudéssemos, nós, ter a oportunidade de estar naquele sofá,
conversando com Manoel. Privilégio. Parabéns!
 
Kelly Ventorim em 19/12/2013 08:39:28
fiquei emocionado e estou chorando!
 
arlindo fernandez em 19/12/2013 08:32:35
Falo com toda certeza que essa foi a melhor reportagem que li aqui no Campo Grande News. Parabéns Ângela Kempfer e Bosco Martins!
 
Jonathan Muller em 19/12/2013 08:31:24
Parabéns pela materia. Ótima.
 
christopher zalenski em 19/12/2013 07:41:04
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