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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

19/08/2014 11:23

Protesto contra filme rodado em MS tem sapato jogado na tela e reforço da PM

Ângela Kempfer
Cena do filme rodado em MS que fala do conflito entre índios e fazendeiros. (Foto: Arquivo Campo Grande News)Cena do filme rodado em MS que fala do conflito entre índios e fazendeiros. (Foto: Arquivo Campo Grande News)

Já pelo roteiro, a exibição do filme “Matem…os outros” tinha tudo para dar o que falar: o embate ideológico sustentado por dois proprietários rurais que tiveram terras ocupadas por índios. Mas a pré-estreia no Marco (Museu de Arte Contemporânea) foi além da discussão na noite de ontem. Teve sapato jogado contra a tela e até Polícia Militar acionada. Depois da exibição, um grupo com cartazes e palavras de ordem marcou posição contra o filme, considerado por eles racista, na porta do Museu.

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Com apenas 27 minutos, o trabalho do diretor Reynaldo Paes de Barros virou polêmica por seguir caminho inverso ao “politicamente correto” no que diz respeito à questão indígena em Mato Grosso do Sul. Não tem a pretensão de ficar em cima do muro. Defende a posição dos fazendeiros. O roteiro é quase que um documentário contra demarcações. As falas dos personagens são cheias de números, estatísticas e comparações com outros países.

Mesmo garantindo que a proposta não é essa, ao conversar sobre a confusão no Marco, Reynaldo faz questão de repassar informações que, na avaliação dele, justificam um peso maior aos argumentos dos produtores rurais. “São 100 invasões no Estado... e a pergunta que fica é se os índios vão se dar por satisfeitos, se vão parar com isso, caso consigam as terras que querem”, comenta.

Os pais tinham fazenda no Pantanal, mas o diretor diz que essa história não tem qualquer relação com o filme. Segundo ele, a inspiração veio da leitura cotidiana de jornais. “Aí você vê o impacto da imagem. Os jornais têm publicações muito mais agressivas contra os índios e ninguém diz nada. Mas se é um filme onde o personagem adota essa postura, aí surge a revolta”, comenta.

Para Reynaldo, a reação de algumas pessoas contra a forma como o tema foi abordado é descabida. “Ofenderam ator na saída do Marco. Um cadeirante jogou um sapato contra a tela e ficou gritando o número de assassinatos de índios. É muito baixo nível”, critica.

O diretor cita elementos que serviriam de contraponto, como uma das falas do protagonista. “Ele diz que não vai entrar no carro com o índio porque é racista. Tem branco brigando com branco para defender os índios. Tem a personagem Luciana que só defende os índios. O problema é que falo algumas verdades inconvenientes e o povo ligado as ONGs não gosta disso”, argumenta.

Do outro lado, quem não gostou do resultado elenca uma série de motivos para isso. O Coletivo Terra Vermelha publicou uma nota hoje sobre o tumulto no Marco. No texto, considera a produção racista, um reforço aos estereótipos negativos e promete acionar o Ministério Público Federal contra a exibição, já que o projeto é financiado com recursos públicos do FIC/MS.

“O diálogo entre os personagens é exclusivamente sobre a questão indígena. Os fazendeiros demonstram uma visão totalmente preconceituosa, afirmam que os índios invadiram suas terras, que compraram a terra legalmente, pois possuem a escritura pública, que o Estado não indeniza e faz tudo que os índios pedem (e a FUNAI seria a mentora dessa relação injusta)”, reclama a entidade.

O pior, na opinião do Coletivo, é que obras como a de Reynaldo “reforçam o estereótipo de que os indígenas são todos preguiçosos, vagabundos e alcoólatras... A trama vai piorando cada vez mais, num posto de gasolina, os quatro personagens se deparam com um índio bêbado, que não tem voz, é caçoado por todos.”

Até a condução de uma das únicas personagens a expor o ponto de vista indígena é contestada. “É a veterinária representada pela atriz Luciana Kreutzer, porém, é interpretada por todos os outros personagens como mais uma marionete nas mãos das ONG´S internacionais. Verifica-se aqui aquele velho discurso ruralista, os índios não decidem sozinhos as “invasões” de terras, tem que ter sempre alguma entidade por trás os influenciando”.

Ainda não há local para as próximas exibições, mas o diretor diz que está disposto a procurar o MIS (Museu da Imagem e do Som) caso exista o interesse do público.

Protesto na porta do Marco ontem à noite. (FOto: Coletivo Terra Vermelha)Protesto na porta do Marco ontem à noite. (FOto: Coletivo Terra Vermelha)



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