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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

04/12/2013 10:17

1º surdo a ensinar alunos regulares, Édio agora vai aprender a falar

Zana Zaidan
Édio desenvolveu método para dar aulas de Educação Física para alunos do ensino regular de São Gabriel do Oeste (Foto: Cleber Gellio)Édio desenvolveu método para dar aulas de Educação Física para alunos do ensino regular de São Gabriel do Oeste (Foto: Cleber Gellio)

Édio Tadeu Leite é o primeiro professor brasileiro surdo a dar aulas para alunos no ensino regular, e é de Mato Grosso do Sul. Nascido em Campo Grande, em 2008 o professor foi aprovado em um concurso público da rede municipal de ensino de São Gabriel do Oeste, a 140 quilômetros da Capital.

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Brasil a fora existem professores surdos que dão aulas por meio de Libras - sinais usados pelos surdos para se comunicar - mas com suporte de um intérprete, garante a esposa, Alice de Souza Nascimento, 28 anos. “Há casos de surdos que, sozinhos, dão aulas para outros surdos, ou contam com um tradutor, no ensino regular”, explica.

Há sete anos, os dois se conheceram enquanto ela ainda estava na faculdade, e uma das disciplinas – Libras – era ensinada por Édio. Hábil com as mãos, é Alice quem faz as vezes de intérprete para o marido nas conversas do dia a dia.

 

Com ajuda da esposa Alice, o professor dá aulas de Libras para funcionários da UFMS (Foto: Cleber Gellio)Com ajuda da esposa Alice, o professor dá aulas de Libras para funcionários da UFMS (Foto: Cleber Gellio)

A aprovação no concurso foi só o primeiro passo da carreira profissional para Édio: hoje, ele ocupa um cargo público federal, na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) como Técnico em Assunto Educacional na biblioteca da instituição, além de coordenar um projeto voluntário que ensina Libras para difundir a língua entre os funcionários da universidade.

Agora, com 37 anos o novo desafio é aprender a falar e a ouvir: há três meses, Édio fez uma cirurgia para implantar um “ouvido biônico”, o chamado implante coclear, dispositivo que proporciona a surdos profundos a experiência de ouvir a vozes e sons e, aos poucos, vai permitir que Édio possa reproduzi-los.

O nascimento do filho Enzo, hoje com quatro anos, foi a maior motivação para que o professor tomasse a decisão de fazer a cirurgia. “É um procedimento muito delicado e que ainda levanta questionamentos entre os especialistas. Os próprios amigos de Édio pediam que ele não fizesse, mas ele estava decidido”, explica Alice, que deu o empurrão definitivo para o implante e para que o marido prestasse o concurso.

“Lá em casa, só nos comunicávamos por Libras, e isso estava começando a afetar a alfabetização do Enzo. Édio decidiu que isso não aconteceria mais, e que a fala passaria a ser mais constante”, acrescenta.

 

As aulas são transmitidas por videoconferência para o campus da UFMS em Bonito (Foto: Cleber Gellio)As aulas são transmitidas por videoconferência para o campus da UFMS em Bonito (Foto: Cleber Gellio)

Foi ela quem mostrou, ainda, que apesar das limitações auditivas, as chances de concorrer à vaga eram as mesmas dos ouvintes. “Desde, é claro, que ele estudasse bastante. Mas isso vale para qualquer um, não muda para quem é surdo ou não-surdo”, faz questão de dizer.

Édio é graduado em Educação Física, único requisito para ocupar o cargo na escola na zona rural de São Gabriel do Oeste, onde ensinaria alunos do 5º ao 9º ano do ensino fundamental. Mesmo com a formação adequada, nem tudo foram flores, conta Alice. “As crianças pensavam que surdez era uma coisa contagiosa e não queriam ficar perto dele. Só lá pela segunda semana que a diretora teve a atenção de apresentar o novo professor e esclarecer que a única diferença é que ele não podia ouvir”.

Passada a fase de adaptação, Édio deixou o cargo – por causa da aprovação no concurso da UFMS – como o “queridinho” dos alunos. “Era um apego só. Como era na zona rural, as roupas dele chegavam cheias de barro porque os mais novos enchiam ele de beijos”, lembra Alice.

Na volta para a Capital, com a ajuda de Alice, Édio dá as aulas presenciais de Libras às quartas-feiras para funcionários interessados em aprender a língua, que também são transmitidas por videoconferência para o campus de Bonito.

Édio, que aprende as primeiras palavras, mostra o sinal em Libras para sua palavra favorita: Alice (Foto: Cleber Gellio)Édio, que aprende as primeiras palavras, mostra o sinal em Libras para sua palavra favorita: "Alice" (Foto: Cleber Gellio)

Aprendendo a falar e ouvir – O implante coclear foi feito há três meses. Agora, as primeiras palavras começam a sair da boca de Édio. “Enzo” e “Alice, eu te amo”, foram as primeiras frases formadas.

O dispositivo não pode ser completamente ativado – para que não haja um “choque” do paciente, que até então não ouvia nada. Aos poucos, novos sons e frequências vão sendo incorporados, e o volume alterado.

“É mais uma barreira que o Édio vai romper. Sabemos que não vai ser um fala fluente, como de alguém que nasceu falando e foi praticando ao longo da vida, mas, um dia, que não está longe, ele o Enzo vão poder conversar normalmente”, comenta Alice.

A inclusão dos surdos na sociedade é uma bandeira que passou a ser levantada pela família. Na adolescência, ele – que não possui memória auditiva (aos três meses, uma forte infecção no ouvido causou a persa da audição, descoberta dois anos depois) - optou por não usar o aparelho auditivo externo.

“Ele dizia que não fazia efeito, que não ajudava a ouvir e simplesmente jogou fora. Mas isso está errado, é a partir desta atitude que o surdo passa a se isolar. Hoje, ele está mais consciente disso”, afirma Alice.

Termos como “sociedade surda” e a briga por mais escolas que ofereçam Educação Especial deixaram de fazer parte de Édio. “Antes, eu brigava por mais escolas para surdos. Achava que Campo Grande precisava de mais projetos voltados para nós. Hoje sei que é o contrário: temos que orientar a família, que sofre um baque ao descobrir que o filho não ouve, a estimulá-lo para aprender a falar desde cedo e inseri-lo na sociedade. Você pode até estudar em uma escola para surdos, mas e depois? Vai fazer uma faculdade para surdos? Isso não existe. O surdo e tão ou mais capaz que muito ouvinte por aí”, defende, por meio de Libras, mas faz questão de dizer que, em breve, espera passar a mesma mensagem, desta vez falada.




Olá Samara. Quando nos conhecemos, eu nada sabia de surdez, nem da "identidade" diferente dos demais. Quando ele pediu pra "ficar" comigo pela primeira vez confesso que fiquei com medo do que viria pela frente, por pessoas nos julgar como sempre fazem. Mas respondendo sua pergunta, sim, eu sabia que ele era surdo, mas não diferente. Ele é um HOMEM como qualquer outro, e diga-se de passagem, ELE É "O" HOMEM, em todos os aspectos. Ele é meu parceiro, amigo, AMANTE MARAVILHOSO, meu confidente, coisas que só encontrei nele. Se estou mudando ele...sim, para melhor, hoje ele é um professor de Ed. Física formado, Técnico em Assuntos Educacionais concursado, Pós Graduado em Ed. Especial, indo para o mestrado. Porque te incomoda? Ele escolheu esse caminho, eu só ajudei.
 
Alice do Nascimento em 06/12/2013 23:17:32
ÉDIO você disse: eu quero viver com mais qualidade e dignidade. Então eu te pergunto: ser surdo para você e para a Alice é viver sem qualidade e sem dignidade?
Outra coisa: o filho do surdo que é ouvinte (coda) vai crescer bilíngue e se tem a mãe ou algum membro da família que é ouvinte o auxiliará no seu desenvolvimento seja na alfabetização ou posteriormente.
Alice você não acha que ainda é cedo para dizer que o ÉDIO ser surdo estava dificultando a alfabetização do seu filho que ainda é tão pequeno?
Desculpa perguntar Alice mas se você sabia que ele era surdo porque você casou com ele? Você casou consciente da cultura e da identidade do surdo! E porque está tentando mudá-lo em todos os sentidos? #prontofalei.
 
Samara dos Santos em 06/12/2013 09:03:09
Parabens Edio e esposa Alice.
Garra, coragem e determinacao sao necessarios para fazer valer o sonho de voces.
Sou surdo desde os 11 anos uso o Implante Coclear desde os 37.
Estivemos em Campo Grande ha alguns meses atras e falamos sobre o IC no CAS-MS. Respondemos muitos questionamentos e fizemos uma "ponte" bem saudavel de dialogo com a comunidade local.
Esperamos voltar a qualquer momento e conhecer voces, falar mais sobre o IC, desmistificar mais este equipamento que nos permite ouvir e dar um abraço forte!!!
Sucessos!!!
Roner
 
Roner Dawson em 06/12/2013 05:25:43
EDIO FOI MEU PPPPPROFESSOR DE LIBRAS, HOMEM INTEGRO, GENTE BOA PACAS, DEUS ILUMINE SUA VIDA, POIS ELE É O VERDADEIRO GUERREIRO!!!!!MERECEDOR DO MELHOR....DEUS ABENÇOE SUA VIDA E SUA LINDA FAMÍLIA
 
arlene nantes lacerda em 05/12/2013 21:39:40
Não sou a favor e nem contra os métodos: LIBRAS x oralização. Há muitos surdos falantes, outros sinalizadores... a questão é mais intrínseca e complexa. Edio tem uma família ouvinte, e por ser homem, ser pai, ele escolheu querer falar, querer ouvir a voz dos seus... falar, está em seu direito, dou graças a Deus que ele fez a cirurgia e esta bem, sem nenhuma complicação... geralmente, ouvimos tanto contra o implante coclear, que de verdade, não sei mesmo que tudo é realmente fato. Há controvérsias nesta questão...mas torço p ele e pela sua família, pelos surdos que falam e pelo que sinalizam...a dor de ser surdo, e não ser compreendido em nenhum lugar, para pedir um pão na padaria, uma escolha do tipo de carne, números de sapato, cor de camisa e tamanho, se é uma questão linguística.. a so
 
Valdir Balbueno em 05/12/2013 10:28:20
Obrigado ao Campo Grande News pela reportagem, vocês estão de parabéns. E a todos que estão comentando, o meu obrigado! Quero que a sociedade entenda de uma vez que ser surdo não é ser incapaz, e que sim, o surdo pode falar. A tecnologia avança e temos que acompanhar, nossos pais e familiares são ouvintes, prezo pela comunicação (seja lá como for). Eu ter optado pelo IC não falta com respeito a ninguém, como eu já disse na reportagem, foi minha escolha. Eu voltar a ouvir não prejudica outros surdos, cada um escolhe a vida que quer levar, e eu quero viver com mais qualidade e dignidade, que eu possa ser exemplo para outras família de surdos, que não se sintam perdidos em relação ao futuro dos seus filhos, que Deus possa abençoar e aconselhar a comunidade surda.
 
Edio Tadeu Leite em 05/12/2013 00:03:27
Boa Noite a todos
É com muito orgulho mesmo que eu recebo esta notícia através da Mídia falando sobre meu primo o Édio Tadeu. ele que desde criança sempre foi uma pessoa guerreira e nunca se deixou de se esforçar pelo motivo ser Surdo, esportista nato e muito inteligente sempre, o Édio sempre foi um motivo de muito Orgulho para toda família. parabéns Édio por esta conquista tão abençoada e maravilhosa apesar de eu estar morando em Montes Claros MG quando eu for em Campo Grande MS eu quero ter o prazer de poder te dar um um grande abraço Édio por mais esta vitória na sua vida. Um grande abraço Édio, Alice e Enzo de seu Primo Hélio Talis e a toda Fámilia Waismann Asen.
 
Hélio Talis Leite Azevedo em 04/12/2013 19:28:26
tive o prazer de conhecer esse casal, que Deus ilumine sempre a Alice, que lutou por seu esposo para ele assumir essa vaga tão merecida em São Gabriel. Sua garra e determinação fez com que o edio conseguisse seu objetivo. Parabéns ao casal e ao neném deles.
 
alex sousa em 04/12/2013 17:01:41
Pessoas como o Enio e a Alice, provam que tudo é possivel na vida da gente, mas é preciso ter muita persistência, muita paciência, muita esperança, muita garra, muito amor, e muito companheirismo entre as pessoas.
Parabéns ao casal, pelo bom exemplo de vida a dois.
Parabéns ao Campo Grande News pela matéria.
 
VALDIR VILLA NOVA em 04/12/2013 13:40:36
É MUITO IMPORTANTE USAR LIBRAS ( LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS )PRA CRIANÇA SURDA DESENVOLVER COGNITIVO ( VYGOTSKY 1998) CONSEGUI CHEGAR NA PROVA ESCRITA FOI APROVADO DO MESTRADO, COMO SOU SURDO PROFUNDO USUÁRIO EM LIBRAS INFLUENTE, PRECISO SER RESPEITO A LÍNGUA DE SINAIS OU ORALIZAÇÃO.
 
ADRIANO DE OLIVEIRA GIANOTTO em 04/12/2013 13:36:41
O meu primeiro professor de Libras, fiquei imensamente feliz por mais esta conquista, pois é uma pessoa abençoada e merecedora de todo sucesso do mundo. Só quem acompanhou sua trajétória, sabe o quão valiosa é esta pessoa, que sempre se esforçou para conseguir tudo o que queria e que precisava, sempre superou barreiras. Parabéns, Édio você merece essa conquista e muitas outras que ainda virão.
 
Maria Auxiliadora em 04/12/2013 12:08:12
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