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Campo Grande, Sexta-feira, 02 de Dezembro de 2016

15/08/2016 06:05

A espera de um filho, sem limitar o amor, casal adota bebê com microcefalia

Paula Maciulevicius
Entre 202 pais, bebê foi parar em outro Estado, junto de um casal que esperava há dois anos, com muito amor no coração. (Foto: Arquivo Pessoal)Entre 202 pais, bebê foi parar em outro Estado, junto de um casal que esperava há dois anos, com muito amor no coração. (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma espera de quase dois anos. Uma gestação de seis dias. Foi assim que o bebê com microcefalia nascido em Campo Grande chegou à família a 800 quilômetros daqui. No cadastro nacional, o casal estava entre os 202 pais que aceitariam uma criança com problemas de saúde e deficiências. Vindos de outro Estado, eles tiveram menos de uma semana para decorar todo o quarto que tanto esperava para receber um bebê.

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Ele tem 38 anos e trabalha assentando pedras ornamentais e ela, professora de 33. A mãe biológica já tinha entrado com o processo para entrega do filho à adoção, ainda na barriga, por falta de condições financeiras. Segundo o núcleo de adoção, a microcefalia foi diagnosticada depois do nascimento. Como o processo ainda corre na Justiça, os nomes não podem ser revelados, nem tampouco as fotos que estampam a felicidade que o casal está, de ter o filho nos braços. 

Em conversa por telefone com o Lado B, a voz deles deixa explícita a realização de serem pais. Um misto de alegria, com emoção, onde até o choro do bebê vira sinfonia aos ouvidos.

Professora, a mãe conta que desde a adolescência sabia de problemas de saúde que dificultariam uma gestação e quando começou a namorar quem hoje é o marido, não escondeu. "Não sei se um dia eu vou pdoer engravidar e ele disse: 'sem problema algum, a gente adota'", lembra. 

Nela a ideia já existia desde a infância, depois que uma das tias adotou o primo. "Eu achava bonito", completa. Juntos, o casal têm 13 anos entre namoro, noivado e casamento e há dois, quando as tentativas de engravidar naturalmente não engrenaram, numa bateria de exames o marido também descobriu que as chances dele eram poucas. 

"Quando saíram os resultados finais, a gente teve aquele abalo, porque por mais que você diga que um dia vai adotar, tem ainda a esperança de engravidar", fala a mãe. O pensamento, à época, foi interrompido por ele, que de imediato lembrou da possibilidade da adoção. Dentre os preparativos de curso e entrevistas, levou cerca de 1 ano até sair a habilitação e o casal ser encaminhado ao cadastro nacional de adoção. 

"Foi setembro de 2014. A gente não determinou sexo, cor, raça, questão de região e problemas de saúde. A única coisa que a gente foi um pouco mais taxativo foi a questão da idade, de ser recém nascido e até no máximo 1 ano e meio", descreve a professora.

Quarto ficou todo pronto em dois dias e se resume ao azul e branco do novo rei da casa. (Foto: Arquivo Pessoal)Quarto ficou todo pronto em dois dias e se resume ao azul e branco do novo rei da casa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com exatamente 15 dias de bebê nos braços. A mãe lembra exatamente como foi ver na expressão do marido que a hora deles havia chegado. O núcleo de adoção do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul ligou numa quinta-feira, às 5h da tarde. "Eu vi que ele veio conversando, confirmando que era a nossa residência e me perguntou há quanto tempo tinha saído nossa habilitação. Ele ficou emocionado, não conseguiu falar muito..." O telefone foi passado para ela. 

"Por mais que já fizessem dois anos que estávamos esperando na fila, a hora da ligação é meio que um susto, se torna impactante. Falta chão, não tem palavra para decifrar como é a emoção", tenta dizer o pai.

Em princípio, o diagnóstico passado aos futuros pais era de hidrocefalia. A mãe passou a noite toda pesquisando o assunto na internet. "Você fica com aquele medo, pela questão do líquido no cérebro, mas ainda assim, nós tínhamos optado pelo sim". 

O casal explica que a motivação maior era o desejo de serem pais:

"E se fosse uma criança gerada por nós? Nós iríamos descartar? Não. Aí está a chave da questão, não é porque você está adotando. Eu não vejo a adoção como a compra de mercadoria, onde você escolhe o mais bonitinho e branquinho. Não é por aí. Você não escolhe o sexo de um filho, a cor e nem mesmo problemas de saúde e se de repente, tivéssemos gerado uma criança assim, ele seria amado do mesmo jeito, então nada nos impediria de adotar uma criança com tais problemas", justifica a mãe. 

No dia seguinte, o núcleo corrigiu a informação de que era microcefalia, mas para eles pouco importava. Tomados pela expectativa, o casal relata que só esperava o aval para poder vir buscar o bebê. 

A viagem aconteceu na quarta-feira seguinte. Os pais já tinham fotos e vídeos do filho, mas vê-lo com os próprios olhos foi o maior encontro de amor que já tiveram. "Foi uma emoção, porque você olha e vê um ser tão pequenininho, indefeso e precisando de carinho. Ele tem muita coisa para dar pra gente, mais do que nós para ensinar para ele", acredita a professora.

Numa comparação com a hora do parto, ela tenta descrever que imagina como se fosse a sensação da maternidade. "É indescritível, como se ele tivesse acabado de sair de mim naquele momento. Quando a psicóloga me deu ele no colo, é como se ela tivesse feito o parto e me entregado. Foi a mesma coisa que senti na hora", narra a mãe. 

Nos exames que levaram daqui, o bebê tem visão e audição perfeitas, assim como a alimentação. As consequências da microcefalia, só o tempo pode dizer e eles não estão tão preocupados com isso. "Mesmo que ele tenha atraso para acompanhar alguma coisa, é indiferente. O que a gente deseja é que ele seja uma criança maravilhosa, que tenha uma infância linda e que seja muito amado como já está sendo, por todos nós", resume a mãe. 

A pediatra que acompanha o neném na cidade onde ele vai viver, repassou aos pais que ele suga "que nem um esganadinho" e os reflexos são muito bons. "Ela me explicou que o cérebro de uma criança é uma coisa que surpreende muito e quem sabe isso nos surpreenda", espera a professora. No trabalho dela, já estão prevendo um chá de bebê, mas com a presença do filho. 

Quando pedimos para falar com o pai, o bebê vai para o colo da mãe. De longe dá para ouvir o carinho: 'cadê o bebê da mamãe?' O pai enfatiza que eles não pretendem esconder nem a adoção e nem os problemas de saúde e que apesar de muita gente achar o gesto deles nobre, a percepção do casal é outra. "As pessoas falam que a gente está fazendo uma grande coisa, mas não é só a gente. Acredito que ele quem está nos trazendo alegria e nos mudando para muito melhor", diz. 

Entre 202 pais, eles foram os "escolhidos". "Tenho para mim que as coisas não podem acontecer tão aleatoriamente. Comentaram que nós seríamos o número 80 da lista. Tiveram pais que não queriam a criança, outros que não puderam pegar por falta de recurso e vim parar justa na gente? Eu acredito que tem que ter um destino para isso", crê o pai. 

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