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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

13/09/2016 06:20

Aos 45, Cleusa começou do zero nos EUA e só reencontrou a família 25 anos depois

Thailla Torres
Desiludida e em busca de uma vida melhor para a família, Cleusa aprendeu com a distância para vencer na vida. (Foto: Fernando Antunes)Desiludida e em busca de uma vida melhor para a família, Cleusa aprendeu com a distância para vencer na vida. (Foto: Fernando Antunes)

A decisão difícil foi tomada em 1992 com a esperança de mudar a vida da família depois de um trauma financeiro. Cleusa Lugão Pereira, de 69 anos, foi sozinha para os Estados Unidos em busca de emprego e uma vida melhor. Por aqui, deixou parte da família que ela esperava encontrar em pouco tempo. Mas isso só aconteceu após 25 anos.

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Por um momento, Cleusa descreve que chegou a pensar que seria impossível rever a família. Fora do Brasil, pagou um preço alto com a distância, ao lidar com a dor da saudade e o aperto nos momentos mais difíceis, por não sentir o abraço da irmã, Maria Lugão Ferreira, de 75 anos. O reencontro das duas, depois de tantos anos, aconteceu há menos de um mês, quando finalmente Cleusa chegou a Campo Grande.

“Foi uma emoção indescritível. Depois de tanta saudade, sentir o abraço de quem é da família não tem preço. Passei por muita coisa, conquistei outras, mas nada tira o vazio de ficar longe de quem a gente ama”, descreve Cleusa.

Ela decidiu partir para os EUA após ver todo dinheiro da família ser confiscado em 1990, no plano do então presidente Fernando Collor de Mello. “Dormimos com o dinheiro no banco e acordamos sem nada. Casei com meu marido em 1967 e até aquele ano trabalhamos sem cessar. O dinheiro que guardamos era para conseguir morar no interior e ter uma vida tranquila. Na época, estávamos morando no Rio de Janeiro e a desigualdade no Brasil foi o motivo para largar tudo”, descreve.

O momento de mudanças foi marcado pelo desespero de não saber como seguir adiante. Ela sempre trabalhou na área de Contabilidade, tinha vida financeira estável e naquele tempo veio o temor, a falta de expectativas de como viver no País. “Eu tinha uma amiga que já vivia lá, ela me falou da oportunidade de emprego e de recomeçar a vida. Decidi que poderia arriscar, mesmo sem nunca ter ido”, conta.

Maria fica com olhinhos cheios de lágrimas, emocionada com a presença da irmã. (Foto: Fernando Antunes)Maria fica com olhinhos cheios de lágrimas, emocionada com a presença da irmã. (Foto: Fernando Antunes)

Ir para tão longe foi o maior desafio até hoje. “Você cresce muito como pessoa. Cheguei lá sem saber absolutamente nada, mas eu imaginava que se as pessoas davam conta, eu iria conseguir também”, afirma.

Ela chegou aos EUA como turista, conseguiu emprego em uma fábrica de costura e depois começou a trabalhar como doméstica em casas de família. Quatro meses depois, o marido foi ao encontro dela, por lá trabalhavam dia e noite para ganhar dinheiro e melhorar as coisas para os filhos que haviam ficado no Brasil.

“Eu pensava que chegaria lá e teria uma receptividade como a que temos aqui. Mas na primeira semana a pessoa que me recebeu já colocou as contas que eu tinha que pagar na porta da geladeira. Sem contar o choque cultural, que é muito grande, costumes e a educação. Eu tinha 45 anos e sabia que tinha decorrer contra o tempo, comecei a limpar casas. Porque a nossa meta não era viver de momento e sim conquistar um futuro”, diz.

Enquanto trabalhava, contava os dias para ver a família, mas com a dificuldade de se legalizar no país, Cleusa não queria correr o risco de sair e não poder mais voltar. “Eu não saia do país porque sabia que ia correr o risco de ser deportada. Nunca me aconteceu nada durante todos esses anos, mas eu nunca ficava tranquila, tinha medo. Eu sabia que estava lá para mudar a realidade da nossa família, era um desejo de conquista. A gente trabalhava dia e noite, eu limpava duas casas por dia”, conta.

Depois de 25 anos o encontro ficou marcado por sorrisos. (Foto: Fernando Antunes) Depois de 25 anos o encontro ficou marcado por sorrisos. (Foto: Fernando Antunes)

Já em Campo Grande, durante os 25 anos, foi Maria que contou os dias pelo abraço da irmã.

Quando busca descrever a emoção de encontra-lá, logo vem o choro. “Não dá nem para descrever, eu já começo a falar chorando, foram muitos anos e nós sempre fomos muito parceiras. A gente se doava muito uma para outra. Quando ela foi para os Estados Unidos, eu já morava em Campo Grande e não consegui me despedir. Só que ao mesmo tempo a gente recupera toda essa tristeza por ver quer ela cresceu e venceu pela família dela”, se orgulha Maria.

Conviver com a distância trouxe valores importantes para Cleusa, na busca pela felicidade da família. Mesmo assim, admite que talvez tivesse a possibilidade de acelerar o processo para se legalizar, mas a falta de conhecimento e rotina acelerada de trabalho, a desviou dessa meta. A documentação só ficou em dia quando a filha se casou com um americano.

"O país é maravilhoso. A vida que nós temos lá, talvez não tivesse aqui. É claro que a família me fez muita falta e isso me mostrou o quanto eles são o mais importante. Em todo esse tempo, um vazio ainda não havia sido preenchido, só estou conquistando isso agora. Esse momento de reencontro está sendo muito importante pra mim”, descreve.

Hoje, aposentada, ela mora na Flórida com o marido, a filha e os netos. Confessa que não tem vontade de voltar ao Brasil, mesmo com a saudade da família, mas diz que agora não ficará longe. “Sempre digo que somos patriotas, amo o Brasil e hoje vou me dedicar a conhecer o meu País. Mas conquistei uma vida por lá e acho que é isso, a gente tem que batalhar para conquistar aquilo que desejamos. Sem medo de arriscar. Eu fui, lutei e consegui. Todo mundo pode também”, acredita.

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