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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

24/03/2014 07:00

Aos 61 anos, bar passado na marra de pai para filho pode não chegar à 4ª geração

Paula Maciulevicius
Bar do Zé e seus 61 anos de história nas mãos da mesma família. De pai para filho. (Foto: Marcos Ermínio)Bar do Zé e seus 61 anos de história nas mãos da mesma família. De pai para filho. (Foto: Marcos Ermínio)

Em Campo Grande se tem um bar que dispensa apresentações é o "Bar do Zé". No calçadão da Barão, há exatos 61 anos – completados no último dia 13, o comércio já foi celeiro de negócios imobiliários, desde venda de imóveis, gado e fazendas, até bingos do Operário e apostas em cavalos do Jóquei Clube. Já serviu de sede para um dedo de prosa, um copo de café e uma chipa da hora. Mas nem tamanha fama impediu que comércio fosse passado "na marra" adiante, para novas gerações da família.

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Bar político e politizado. Frequentado por prefeitos, governadores desde que Mato Grosso se resumia a um só. O Bar do Zé já recebeu até presidente. Fernando Collor, um deles, inclusive recebeu uma homenagem à frente do estabelecimento. As cadeiras de plástico vermelhas, assim como os engraxates de ontem e os de hoje, já viram sair dali manifestações, seja pelas ruas, ou entre quatro paredes. Muito do que se vivia na cidade era passado ali.

 

Aos 17 anos, José Yassuke Okama assumiu o bar do pai. Aos 17 anos, José Yassuke Okama assumiu o bar do pai.

O Bar do Zé não se chamava assim. Era do pai, aberto no dia 13 de março de 1953 como bar São Jorge. À época, Zé, de nome José Yassuke Okama tinha 13 anos. Aos 17, o pai morreu de repente e ele se viu na responsabilidade de tocar o estabelecimento, formar os irmãos, ainda que isso lhe custasse abrir mão do próprio sonho de estudar.

“Entrei no bar no mesmo dia em que meu pai comprou. Fui junto, a gente morava lá também”, conta o seo José. Hoje, um pouco debilitado pelos sérios problemas de saúde. Foi o terceiro filho na escada de nove irmãos e o primeiro menino. A mãe ficou viúva aos 33 anos, com 10 crianças, a mais nova tinha apenas 11 meses de vida. Coube a ela, primeiro, abrir as portas de madrugada, buscar o leite direto no fornecedor, andar pela 14 de Julho quando ainda nada estava funcionando.

Mas a mãe precisava de um homem ao lado e para a escolha, não tinha muitas alternativas. “Eram todos mais novos. Todos formaram. Eu fiz contador. A gente pobre, dá vontade de estudar que é uma coisa de louco. Mas quem vai cuidar do bar?”, lembra Zé sobre os desafios ainda na adolescência.

Os mesmos olhos que com orgulho mostram a satisfação em ter formado irmãos em Medicina, Engenharia e Odontologia, não viram o próprio diploma. Ele queria ter estudado fora, chegou a ir até Londrina, o sonho era ser médico ou quem sabe engenheiro. Viu esse desejo se concretizar nos pequenos.

Em meados da década de 60, o bar ganhou a movimentação que lhe rende a fama até hoje. Frequentado por intelectuais e jornalistas, foram eles que resolveram batizar o bar de Zé. Depois que o povo deu, não tinha São Jorge que mudasse.

Em 97, Márcio teve de tomar à frente. Formado em Administração de Empresas, ele deixou emprego pelo bar. (Foto: Cleber Gellio)Em 97, Márcio teve de tomar à frente. Formado em Administração de Empresas, ele deixou emprego pelo bar. (Foto: Cleber Gellio)

“Todo mundo conversava e e falava, me espera no Bar do Zé. E então ficou, como opção do povo”.

Os anos passaram, muitos leites com café foram tomados ali, com pães com manteiga e salgados em geral. Em 1997, José teve um sério problema de saúde que o levou a um tratamento de cinco meses em São Paulo.

Foi daí que o destino, mais uma vez, tirou alguém da família Okama da sua profissão, ou do sonho de vive-la, para tomar a dianteira do negócio. Márcio Yassutoko Okama, agora com 47 anos, era administrador de empresas por formação e trabalhava na área. Teve de largar o emprego para tocar o bar. Novamente a interrogação da frase “quem vai cuidar do bar?” ressoou à cabeça, dessa vez, do neto.

“Quem tinha o costume de vir para a cidade resolver coisas, sempre dava uma passada aqui, hoje, tem tudo nos bairros. Na minha opinião, eu vou ser o último aqui. Só tenho duas filhas. Vai terminar em mim”, resume Márcio.

O prédio é da família e se depender de uma boa proposta, o bar pode fechar as portas. Márcio explica que é porque o comércio não está fácil, tem muita concorrência.

Pelo pai, tudo bem. O Zé que deu nome ao bar não vai ao estabelecimento há mais de ano, justamente pela dificuldade em se locomover e pela saúde já fragilizada.

O carro-chefe em 61 anos, continua sendo o café. De Kintoko Okama, José Okama a Márcio Okama, o bar não deve chegar a uma quarta geração.

De Kintoko Okama, José Okama a Márcio Okama, um bar que não deve chegar a uma quarta geração.De Kintoko Okama, José Okama a Márcio Okama, um bar que não deve chegar a uma quarta geração.



Puxa vida... perdi a conta de quantas vezes passei lá em frente. Não fazia ideia que aquele bar tem tanta história! Sabendo disso tudo agora, mesmo que nunca o tenha frequentado, me deixa um pouco triste de saber que ele pode vir a fechar. Afinal, creio ser seguro afirmar que ele já é parte da história da própria capital. Boa sorte, e que o negócio ainda tenha muitos e muitos anos de funcionamento!
 
Michael F. de Godoy em 24/03/2014 15:07:08
Bela matéria, um lugar emblemático para a história da nossa linda morena.
 
WAUBER DOUGLAS ODORICO ONÓRIO em 24/03/2014 12:42:09
Primeiramente parabens ao lado B por mais um pedacinho da historia de Campo Grande, hoje com 45 anos eu voltei quase 40 anos no tempo,bem naquela epoca que era tudo de bom, me perdoe os mais novos mais aquele tempo deixou mais que saudades. Campo Grande bem cidade do interior ......saudades de um tempo que nunca mais ira voltar.Naquele tempo tinha menos transito, menos violencia e mais cordialidade.
 
GILBERTO P PEREIRA em 24/03/2014 08:31:47
Quando adolescente me lembro de pegar ônibus com um senhor aposentado que dava expediente no bar do Zé, ia para lá todos os dias antes das 8hs e só voltava para casa depois das 17hs, será que inda existem estes senhores?
 
Marco Aurélio Alves Queiróz em 24/03/2014 07:46:29
Bela história; ao mesmo tempo triste.
Espero que o Márcio ainda tenha muito chão à frente do Bar do Zé... ainda pretendo tomar muitas geladas por lá!
 
Guaraci Mendes em 24/03/2014 07:38:49
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