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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

24/11/2016 06:20

Com fé, Frei Mateus esteve na guerra, morou em convento e partiu aos 101 anos

Thailla Torres
Frei esteve na guerra, veio em missão para o Brasil e viveu até os 101 anos. Frei esteve na guerra, veio em missão para o Brasil e viveu até os 101 anos.

Foram 101 anos de vida, a maioria dedicada à fé e à solidariedade. Mateus Rothmann foi frei na Missão Franciscana desde que desembarcou no Brasil, há mais de 60 anos. Sua dedicação e serenidade deixaram um legado de amor e conquistaram fiéis ao longo dos anos. Depois da despedida, ficou o afeto por um homem de bem, que conheceu o cenário de guerra e se despediu de coração em paz, aqui em Campo Grande.

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O padre franciscano nasceu em Fulda, na Alemanha, em 13 de novembro de 1915. Foi no último dia 18 que ele se despediu, deixando admiradores por toda sua perseverança. 

Caçula de oito irmãos, foi o último a nascer e morrer. Ainda jovem, seguiu para o seminário. No entanto, a missão de viver e pregar o evangelho acabou interrompida diante da convocação para a II Guerra Mundial e, justamente, no Exército alemão.

Mala antiga, com mais de 60 anos, guarda uma das primeira batinas que o Padre usou. (Foto: Marina Pacheco)Mala antiga, com mais de 60 anos, guarda uma das primeira batinas que o Padre usou. (Foto: Marina Pacheco)

Amigo e coordenador da Missão Franciscana em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, frei Roberto Miguel Nascimento, de 50 anos, esteve bem próximo nos anos em que morava na cidade. Se recorda bem de como era um homem querido, que ficou marcado no coração de todos do convento. "Para nós, um testemunho de vida, um homem calmo e um bom conselheiro", diz. 

No convento, em um dos ambientes do térreo, ainda estão guardados todos os pertences, no quarto limpo e bem arrumado. Com todos os objetos no lugar, em cima da mesa está a mala antiga, que fazia parte das viagens. Dentro dela, permanece uma batina, talvez uma das primeiras que usou, ninguém sabe ao certo, como se fosse uma relíquia da vida, guardada por ele. A estante de livros guardam exemplares católicos, alguns até com assinatura dele em uma caligrafia simples.

Segundo Roberto, por enquanto o quarto deve ficar do jeito que está. "Ainda não sabemos quando será retirado. Algumas coisas vão para uma sala especial, com objetos antigos e as roupas sempre vão para doação", diz.

Ele resume o valor deixado por frei Mateus nos 101 anos. "Foi uma pessoa muito importante, sabemos que agora ele fez a passagem e voltou para a casa do pai. Deixou pra gente toda serenidade e um jeito especial de ver a vida. Agora é uma nova caminhada", reflete.

Frei Mateus tinha um jeito simpático e sereno até no olhar. (Foto: Arquivo Pessoal)Frei Mateus tinha um jeito simpático e sereno até no olhar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Segurando uma ficha com as lembranças de frei Mateus, ele conta sobre alguém que batalhou para viver em missão. "Sempre teve uma cortesia, gostava de viver com Deus e as pessoas. Ele já não falava muito nos últimos dias, mas estava sempre sorrindo, fazia dos dias difíceis sempre mais leves com toda serenidade", comenta.

Durante a guerra, frei Mateus ficou prisioneiro durante dois anos em Chartes, na França. Mesmo assim, estudou teologia e conseguiu retornar à Alemanha, depois que um médico católico confirmou que ele estava doente. Ainda trabalhou em lavouras para sustentar a família, acolheu fugitivos da guerra e seguiu a caminhada franciscana. Só em 1953 chegou ao Brasil.

"Veio de navio, viajou por cerca de 12 dias", lembra Roberto. Passou um tempo em Santa Catarina até aprender o português e depois veio definitivamente para o então Mato Grosso. "Foram os alemães que trouxeram e deram início à Missão Franciscana em Mato Grosso e depois também Mato Grosso do Sul", lembra o frei.

Frei Miguel lembra que Mateus não complicava a vida. (Foto: marina Pacheco)Frei Miguel lembra que Mateus não complicava a vida. (Foto: marina Pacheco)
Frei Roberto guarda na memória a serenidade do Frei aos 101 anos. (Foto: Marina Pacheco)Frei Roberto guarda na memória a serenidade do Frei aos 101 anos. (Foto: Marina Pacheco)

Frei Mateus passou por Paranaíba, Cassilândia, Caarapó, Itaporã, Dourados atuando como padre, levando o evangelho, a solidariedade, dando assistência às comunidades e atuando em projetos sociais. Só em 2014 veio a Campo Grande viver ao lado dos confrades no Convento São Francisco de Assis, para cuidar da saúde, já beirando os 100 anos de idade.

Aos 82 anos, o frei Miguel Loffler, que também mora no convento, é quem procura palavra para descrever o jeito e porque Mateus deixou uma marca importante na história da Missão Franciscana. "Ele era um homem muito bom, não sabia complicar a vida, era na verdade a solução de tudo que não tinha para dar certo. Conseguia tornar os problemas ainda menores", comenta.

Por conta da idade, surgiram as dificuldades para enxergar e ouvir, mas nada abalava a lucidez e a vontade de sorrir ao lado dos companheiros. Assistia a missa de perto, todas as noite ia até a capela fazer oração e agradecer pelo dia. Durante as refeições, fazia questão de estar no refeitório, sentava na ponta da mesa onde encaixava perfeitamente a cadeira.

No dia 13 de novembro, a fraternidade celebrou os 101 anos de frei Mateus, com direito a bolo, parabéns e uma missa para comemorar o aniversário. Para tornar a ocasião mais especial, esteve presente o ministro da Província Franciscana de Santa Isabel, na Alemanha. Após 2 dias da comemoração, frei Mateus foi internado com uma pneumonia severa, não resistiu e disse adeus no último dia 18 de novembro. 

Quarto continua do mesmo jeito desde que Frei Mateus partiu. (Foto: Marina Pacheco)Quarto continua do mesmo jeito desde que Frei Mateus partiu. (Foto: Marina Pacheco)
Exemplares eram leituras diárias e assinadas por ele. (Foto: Marina Pacheco)Exemplares eram leituras diárias e assinadas por ele. (Foto: Marina Pacheco)



Guardo com muito carinho um cartão postal da cidade de Colônia que o Frei Matheus mandou para mim, isto há mais de 30 anos. Ele era uma pessoa muito especial.
 
Ezequiel em 24/11/2016 21:22:21
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