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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

10/03/2015 06:34

Como eu sei que sou lésbica, sem nunca ter ficado com um homem?

Elverson Cardozo
Se eu não me orgulhar de quem eu sou, quem vai? (Foto: Arquivo Pessoal)"Se eu não me orgulhar de quem eu sou, quem vai?" (Foto: Arquivo Pessoal)

A segunda entrevistada da série "Saindo do Armário", que discute diversidade sexual, é a estudante de gastronomia Priscila Suzuki Donoso, de 20 anos. Ela se assumiu lésbica primeiro para os amigos e, depois, para mãe, em uma conversa simples, corriqueira, do jeito que deveria ser. Leia o relato, também em primeira pessoa.

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"Não sou obrigada a conviver com ninguém que não me aceite como eu sou"

Por volta dos meus 13 ou 14 anos, percebi que mesmo passando minha infância inteira compartilhando dos mesmos sonhos das minhas amigas - imaginando que eu acabaria casada com um principe encantado e mil filhinhos , eu estava me apaixonando por meninas.

Eu sempre me vi encantada pelas mulheres, fosse apenas por uma personagem com um jeito forte ou uma menina passando por mim na rua. Nunca cheguei a pensar nisso como algo que me fizesse diferente. Lógico que faltava muita representatividade na tv, nos desenhos, em tudo que eu tinha acesso, mas nunca me senti diferente dos outros por isso. Por mais que aquilo tivesse me deixado confusa por um tempo, sem saber se eu era realmente lésbica, minha sexualidade não define quem eu sou, só é mais um traço meu.

Nunca me apaixonei e nem me envolvi com nenhum homem. Sempre quando eu falo isso pra alguém me dizem que eu tenho que saber como é ou (wait for it) "como você sabe que é lésbica se nunca ficou com um homem?". Oh, meus caros, bem simples. Da mesma forma que vocês são héteros e não precisam ficar com ninguém do mesmo sexo pra saber disso.

Eu saí do armário aos 16 anos. Primeiro contei para os meus amigos e todos reagiram com um simples: "mas você não tem cara de lésbica". (Migos, qual é a "cara" de uma lésbica?) E depois disso, tudo voltou a normal, como deveria.

O mais difícil foi contar pra minha mãe, tanto é que eu planejei mil formas e não segui em frente com nenhuma delas. Eu jurava que minha mãe ia fazer um auê e tudo ia mudar. Demorei quase um ano da época que contei para os meus amigos até a época que contei para ela. "Contei", entre aspas mesmo, numa tarde que íamos às compras. Enquanto eu demorava a me arrumar e ela me chamava pra irmos logo, eu estava trocando mensagens com uma namoradinha.

Desci as escadas rindo e digitando no celular, ela me esperava na porta de casa, como a bem humorada mãe que é, perguntou: "Tá falando com o gatinho?". Automaticamente neguei e ela continuou: "Gatinha?". Respondi com um simples "é" e entrei no carro. Foi ali! Só isso! Só essa conversa e eu saí do armário. Nada do que eu imaginava que ia acontecer, aconteceu. Ela não reagiu como eu esperava, reagiu mil vezes melhor. Incrível.

Semanas depois ela decidiu perguntar se eu era 'gay'. Eu respondi tranquilamente que sim e seguimos com nossas vidas. Desde então, ela conheceu todas as minhas namoradas, com desgosto pela personalidade de uma ou outra, mas sempre foi receptiva. Uma vez ouvi ela se referindo à minha namorada na época como "amiga" e depois de um puxão de orelha ela nunca mais repetiu o termo para se referir à nora.

Desde que saí do armário, algumas vezes tive medo de contar pra algumas pessoas que sou lésbica. Medo de perder alguns amigos, de perder o respeito de algumas pessoas, etc. Mas depois de conversar com muitos amigos de verdade, percebi que qualquer pessoa que se afastasse de mim por conta da minha sexualidade estava me fazendo um bem enorme! Eu não sou obrigada a conviver com ninguém que não me aceite como eu sou. Aliás, quero distância!

Nunca mais escondi quem eu sou, nunca mais escondi que sou LÉSBICA, assim mesmo, com letras garrafais e tudo mais, bem grande pra não deixar passar batido. Se não gostar, pode ir pra casa chorar no cantinho escuro do quarto, mas eu não me escondo no armário nunca mais. Se eu não me orgulhar de quem eu sou, quem vai?

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