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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

09/10/2016 08:42

Depois que a esposa morreu, Lino decidiu viver no asilo, com apenas 57 anos

Thailla Torres
Lino acabou ficando no asilo mais tempo do que imaginava, mas garante que é um homem feliz.(Foto: Fernando Antunes)Lino acabou ficando no asilo mais tempo do que imaginava, mas garante que é um homem feliz.(Foto: Fernando Antunes)

Para Lino, que vive em um asilo há 10 anos, o caminho para ver o tempo passar foi colocar na cabeça que vive em férias prolongadas. Quando a esposa morreu e pareceu injusto delegar aos filhos a responsabilidade de um tratamento contra o reumatismo, o jeito foi dar adeus a um ciclo e começar uma nova vida ali dentro.

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Ele chegou ao Asilo São João Bosco com apenas 57 anos, passando quatro deles na cadeira de rodas. Hoje vive amparado pelas muletas, esbanja sorriso e afirma que nunca viu problema em morar em um local que para a maioria é sinônimo de abandono.

Filho de pai brasileiro e mãe paraguaia, Lino Lima nasceu em Amambai e passou a vida morando em fazendas da região. Lembra que ficou viúvo depois de 15 anos, quando a esposa dava à luz ao sexto filho.

Depois disso arrumou outra companheira e continuou trabalhando para criar os filhos. Após muitos anos morando em fazendas, veio a doença. "Lembro que estava trabalhando perto de um córrego próximo e eu estava arrumando uns postes. Eu tive que sentar para tomar um tereré, mas não sei o que aconteceu, só não senti mais a minha perna. Não era dor, eu só não sentia...", descreve.

Ele faz de tudo para aproveitar o tempo e ocupar a mente. (Foto: Fernando Antunes)Ele faz de tudo para aproveitar o tempo e ocupar a mente. (Foto: Fernando Antunes)

Lino foi trazido pela família a Campo Grande e diagnosticado com reumatismo, além de problemas na coluna. Na época, os filhos, que já moravam em Ponta Porã, não teriam condições de cuidar do pai. Pensando na família, ele aceitou a ideia de viver no asilo durante o tratamento.

O tempo passou e ele acabou ficando ali mais do que imaginava. No entanto, também não fez esforço para sair. "Não queria atrapalhar a vida dos meus filhos, eles já trabalham, ninguém fica em casa, eu ia acabar ficando sozinho e aqui não...", afirma.

De jeitinho tímido e sotaque guarani na hora de falar, Lino demonstra afeto pelo lugar nas palavras e no sorriso. "Aqui é bom, cuidam da gente, tem apoio e para mim é bom essas férias longas que eu tenho aqui. A gente conversa e se diverte", sorri.

Bem arrumado, de camisa e calça social, Lino chama atenção de quem vê a disposição dele fazendo de tudo para se manter ativo. Acorda cedo, conversa com os amigos, ajuda a empurrar a cadeira de rodas de alguém e no meio da manhã vai para o pátio varrer as folhas por vontade própria. 

"Trabalhei em fazenda e pegava muito no pesado. Difícil pra gente ficar aqui sem fazer nada. Vai dando um nervoso e é um jeito de se distrair. Isso daqui é leve pra mim", garante.

Assim como não perdeu a disposição para o trabalho, também não se esqueceu do amor. "Eu tive uma namorada aqui dentro, chamava Aparecida", lembra.

Assim como a saudade de namorar, Lino sente falta das pessoas que por consequência acaba vendo partir. "Aqui faço muito amigos, mas já vi muita gente morrendo. A gente se apega sabe e eles vão embora. Faço questão de ir até no enterro, mas todo dia a gente lembra de alguém", desabafa. 

O fato é que mesmo olhando pra trás, o que ele não faz é deixar de seguir. Mas pelo olhar, se entende que o coração também nunca deixou de esperar. "Eu não quero atrapalhar ninguém, mas meu filho que mora em Goiânia disse que está arrumando uma casa boa e vai me levar pra Ponta Porã. Não sei quando, mas ele diz que vem...", acredita o pai que não perde o sorriso, mas deixa escapar um olhar que revela saudade da família e um vazio que não há tempo capaz de preencher.

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Lino não perde o sorriso, mas deixa escapar um olhar que revela a saudade da família e um vazio em que não há tempo capaz de preencher. (Foto: Fernando Antunes)Lino não perde o sorriso, mas deixa escapar um olhar que revela a saudade da família e um vazio em que não há tempo capaz de preencher. (Foto: Fernando Antunes)



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