A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

19/08/2016 06:05

Depois que Alda partiu, livro de receitas guardou anotações do amor pela família

Thailla Torres
O livro carrega as marcas do tempo e o carinho de Alda pelas comidinhas da família. (Foto: Renato Queiroz)O livro carrega as marcas do tempo e o carinho de Alda pelas comidinhas da família. (Foto: Renato Queiroz)

Desde que a mãe foi embora, os irmãos Ronaldo e Renato costumam sentar a mesa e agradecer pelos sabores que ela deixou. Com apenas 57 anos, Alda Therezinha Perches Queiroz se foi após lutar contra um câncer, mas deixou para os filhos o livro de receitas que acabou virando tesouro de família.

Veja Mais
Astrologia védica mostra o futuro, mas também ensina a aceitar o destino
Como mágica, o amor encontrou o palhaço e romance vive liberdade em belas fotos

O livro tem mais de 40 anos e carrega nas páginas amareladas um pouco também da emoção que fazia os filhos sorrirem a cada preparo. "Mamãe tinha uma característica especial e tudo que ela ia fazer era pra gente, os pequenos detalhes lembram como ela tinha alegria em cozinhar", diz o filho mais velho, Ronaldo Queiroz. 

Quando ela começou a esquecer o livro, tinha pouco tempo dentro de casa. Naquela época, o filho lembra que as coisas não eram fáceis em Lins, em São Paulo, onde morava com a família."Mamãe trabalhava o dia todo como professora para ajudar papai que ganhava como farmacêutico para investir nos nossos estudos. E mesmo assim ela sempre chegava sorrindo, pegava aquele livro e ia pra cozinha fazer o que tanto gostava", lembra. 

Foto da família Perches Queiroz. (Foto: Arquivo Pessoal)Foto da família Perches Queiroz. (Foto: Arquivo Pessoal)

Do bife à milanesa, ao suspiro crocante, tudo o que a mãe servia era motivo de admiração. "Era sempre muito bem feito, tinha amor e carinho. E isso ela começou a transparecer no livro que ela incrementava quase todo dia", conta.

Alda fazia questão de registrar toda vez que aprendia alguma novidade ou percebia as reações de quem comia. "Escrevia ao lado delas qual era a que a gente mais gostava. Se ela pegava a receita de alguém, ela dizia de quem era e toda vez que cozinhava, lembrava dessa pessoa", conta. 

Assim ocorria com os bombocados de queijo que ela fazia especialmente para o marido. "Lindo!!! Netinho adora", escreveu ao lado do nome, identificando que aquela receita havia aprendido com a mãe dela. 

Além das palavras de elogio e carinho, Alda fazia um desenho a cada preparo e identificava o ingrediente especial a ser usado. Tanto que até hoje os filhos preparam as receitas da família, olhando o livro que a mãe deixou. "No dia dos pais ninguém foi ao restaurante, sentamos a mesa com os filhos e servimos a receita da vovó. Que até hoje a gente olha no livro. Preparamos o pernil lembrando da alegria dela quando fazia para gente em datas especiais", comenta o médico. 

Receita que ela preparou durante a recuperação do filho com hepatite. (Foto: Arquivo Pessoal)Receita que ela preparou durante a recuperação do filho com hepatite. (Foto: Arquivo Pessoal)

Diferente das receitas comuns, a mãe dificilmente anotava medidas, mas o jeitinho que escrevia deixava claro a mão boa que tinha na cozinha.

Nos momentos de angústias, os pratos de Alda também aliviava a dor. Em 1979, quando o filho teve hepatite, preparou um suspiro especial e deixou registrado a lembrança no caderno. 

"Suspiro do Ronaldo - Bater bem as claras. Colocar as colheradas de açúcar, uma de cada vez e (bem cheias). Forno fraco e porta aberta. O suspiro não é para assar, é para secar. A receita é ótima, mas difícil de acertar o calor do forno", registrou Alda.

Para ele, o bife à milanesa da mãe também era indescritível. "Nem em restaurante eu comi igual, ela fazia com batata frita e toda vez que servia era aquela felicidade. Aliás tudo que ela fazia era divino", sorri.

Podia ser a receita mais fácil do mundo aos olhos de algumas de pessoas, mas para ela era importante escrever, desenhar e detalhar qual receita era a preferida de cada membro da família. 

"Eramos uma família pequena, eu, meu irmão, papai e mamãe. Mas essas receitas que ela fazia era o momento que a gente tinha com ela, era o calor de mãe e a oportunidade que ela tinha de aproveitar a gente depois de um dia no trabalho. E isso nunca foi uma obrigação, a gente via nos olhos o quanto aquilo a fazia feliz", lembra Ronaldo.

Receita de um restaurante sofisticado em São Paulo que o filho Ronaldo conseguiu para a mãe. Receita de um restaurante sofisticado em São Paulo que o filho Ronaldo conseguiu para a mãe.
Capa do livro. (Foto: Arquivo Pessoal)Capa do livro. (Foto: Arquivo Pessoal)

Alda foi o real sentido do amor em forma de mãe. Pela dedicação, pela cozinha e pelo livro particular, acabou se tornando a melhor herança, preservada até hoje.

O livro tem cerca de 200 páginas, feito a mão, com índice e desenhos. Alda escreveu 96 receitas doces e 216 salgadas. Como é uma relíquia, netos e noras tiveram de fazer uma cópia, por que o outro filho, o odontologista Renato Queiroz foi agraciado com o original.

Antes de qualquer um lembrar do livro, ele saiu na frente e o guardou com ele. "São as melhores lembranças possíveis, de comidas deliciosas e jantares especiais. Pra mim a presença da minha mãe é muito forte e tinha muita gente querendo pegar esse tesouro. Por isso, a gente conseguiu de uma forma lícita esse caderno como nossa herança", brinca. 

Mas Renato garante que a o carinho da mãe é divido com todos. "Todo mundo que pede, pode olhar e pegar uma receita. É um pedaço da lembrança dela em nossas vidas", comenta. 

Memórias que para o irmão Ronaldo, não podem correr o risco de cair no esquecimento. "Seria muito lindo se as netas dessem continuidade ao livro da avó. Mostrando as receitas de cada geração, isso ia sempre fazer parte da história da família", sugere. 

Curta o Lado B no Facebook.




imagem transparente

Compartilhe

Classificados


Copyright © 2016 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.