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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

21/12/2014 08:04

Deus dá tudo que a gente quer! Se você quiser um elefante, ele dá?

Lenilde Ramos
Deus dá tudo que a gente quer! Se você quiser um elefante, ele dá?

O livro "Uchinanchu, Cidadãos do Mundo", do prof. Eron Brum registra a imigração japonesa em Campo Grande a partir da história dos Shinzato. Os filhos do Sr. Guensei e da Sra. Matsu citam o padre Agreiter como seu "guru" no Colégio Dom Bosco.

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Muito me honra ter conhecido os Shinzato nas festas da Colônica Nipônica e Franz Agreiter no Auxiliadora dos anos 60: magro, cabelo rente, batina preta e óculos de aro preto. Quase não sorria e seu olhar fuzilava qualquer um. Era da fronteira da Itália com a Áustria e, em vez do "porca miséria" soltava um "Oh... Mein Gott !".

Foi brilhante professor de matemática. Não suportava desinteresse nem "burrice" e dizia que as mulheres estariam melhor cuidando só da vida doméstica... até que conheceu uma religiosa da mesma fronteira ítalo-austríaca, do mesmo dialeto alemãozado, inteligente que só e osso duro de roer, que nem ele.

Era Ir. Silvia Vecellio, que pegou à unha o leprosário abandonado e,com seus voluntários, fez a revolução da hanseníase no MS. Agreiter começou a enfrentar o areão de bicicleta para conversar e celebrar missas. Na cidade, eu passava algumas tardes na São José tocando um órgão de tubos na igrejona vazia. Luxo!

Um dia, dei de cara com Pe. Agreiter e gelei, mas ele disse: "O pároco agora sou eu mas... pode continuar tocando". Outra vez, no São Julião, peguei a sanfona, arrisquei o Noturno de Chopin e senti que meu termômetro de fêmea burra deu uma melhorada porque ele até passou a me conceder uns dedos de prosa.

Supremo privilégio. Um dia ensaiei uma missa em roquenrôu e Pe. Marinoni nos levou para tocar na São José. Agreiter estava no altar. Ele celebrava e nos olhava, até que veio direto em nossa direção e pensei: "Oh... Mein Gott", mas ele falou: "Adoro contrabaixo !".

Foi no meio de uma missa que ele soltou que os conterrâneos eram burgueses que vinham curtir um barato no terceiro mundo. Pra quê? A moçada não gostou e o bate-boca começou. Já viu briga de italiano? O "debate" corria solto. Ir. Silvia batia na mesa e dizia: "Punto e basta", até que Agreiter se levantou, pegou a chave do fusca e se mandou, deixando a missa no ar. Ir. Silvia rezou um Pai Nosso e declarou encerrada a função.

Na Faculdade, Pe. Agreiter foi meu professor de Filosofia e Teologia. Nossas provas eram corrigidas com lápis de cor vermelho e as notas eram verdadeiras lições. Para a acadêmica que escreveu "Deus dá tudo que a gente quer", ele rabiscou: "Se você quiser um elefante ele dá?".

Na prova de uma colega, ele escreveu: "Nada !". No ano 2000 reencontrei Franz Agreiter em Cuiabá, idoso e doente. Que angústia vê-lo sozinho num colégio monstruoso de grande, com meia dúzia de padres pingados, e ele com toda a lucidez borbulhando na sua cabeça. Saí de lá com o coração apertado. Tempos depois Ir. Silvia me deu a notícia de sua partida. 




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