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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

29/11/2016 06:05

Dez anos após AVC, família inteira tatuou homenagem no dia do aniversário do pai

Paula Maciulevicius
Roberto Higa começando a tatuagem e Sandra, a esposa, ao fundo, morrendo de medo. Roberto Higa começando a tatuagem e Sandra, a esposa, ao fundo, morrendo de medo.

No último sábado, Roberto Higa fez 65 anos de idade, uma década a mais de vida depois do AVC sofrido. Foram 15 dias em coma e o caso era tão grave que os médicos consideraram irreversível. Até a família foi avisada de que, nas palavras do fotógrafo, "podiam rezar pela alma, que o corpo já foi". 

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"É sério, não é brincadeira não", completa aos risos. Acontece que ele acordou duas semanas depois, como se nada tivesse acontecido. Ninguém soube explicar porque e na fase das reflexões acerca do bônus de vida que Higa havia ganhado, eis que ele fez a promessa a si mesmo. "Se eu durar mais tanto tempo, uma coisa que eu nunca tive coragem de fazer, a tal da tatuagem, eu vou fazer".

A dor era o principal impedimento. Nem injeção Higa conseguia tomar. Era chegar à farmácia perto de casa, para ouvir do profissional que "esse tem mania de vir e desmaiar, não aplico mais não", conta. "Sempre tive muito problema com esse negócio de dor, de ser furado. Mas aquele dia eu falei que se durasse 10 anos, ia fazer uma tatuagem", reforça.

Num misto de dor e surpresa, Higa tatuou a própria assinatura e garante que tatuagem foi a primeira, de outras. Num misto de dor e surpresa, Higa tatuou a própria assinatura e garante que tatuagem foi a primeira, de outras.

Além da dor, por anos o fotógrafo carregou a impressão de que tatuagem era coisa de presidiário. "Veja bem, no meu tempo, o pessoal que fazia era na cadeia. Eu sempre fui muito temeroso em relação a esse tipo de coisa", explica. Tanto foi que não soube das primeiras tatuagens das filhas Akemy e Mariana.

E não tem um fato ou foto de Higa, que não puxe uma história do passado. Até mesmo a própria tatuagem lhe trouxe à tona um "causo", daqueles que a gente não cita os nomes, mas diz o enredo. "Uma amiga nossa tatuou o nome na virilha. Naquela época, juntava três agulhas de costura, das mais fininhas, amarrava com borracha e descarregava tinta de caneca BIC num pires. Desenhava a mão e ia machucando em cima", descreve.

O nome tatuado era do namorado e com a desculpa de que ia para São Paulo ajeitar a vida, sumiu no mundo e nunca mais apareceu. Restou à ela o nome na virilha.

Quando os 10 anos de vida pós AVC chegaram, Higa começou a pensar no que tatuar. A ideia era fazer uma "caretinha" ou o nome dos filhos e netos. Mas veio das filhas Mariana e Akemy a proposta de fazerem, elas e a mãe Sandra, a assinatura de Roberto Higa

"Aí chegou dia 24, 25 e elas fizeram uma pressão muito forte que acabou que eu fui fazer logo esse negócio", brinca. Como a família já tinah divulgado a intenção no Facebook, a pressão para a tatuagem sair também vinha dos amigos pela rede social. 

Higa foi o primeiro a encarar aquele barulho de "motorzinho" do tatuador Daniel Santos, e fez a assinatura no braço esquerdo. A cara do fotógrafo é hilária: um misto de dor e de surpresa, de enfim estar cumprindo a promessa. "A Sandra que foi quem ficou mais com medo", entrega a esposa. 

Ansiosa, Sandra admite que estava com medo da dor, mas que ficou mais aliviada quando ouviu o tatuador comparar o traço com a depilação a fio. "Já que é assim, vamos lá", brincou. O nervoso, ela jura que foi só de momento. "Quando ele começou eu fiquei tranquila. Aos 56 anos, nunca imaginei que ia fazer uma tatuagem da minha vida. Foi só a primeira, agora vou tatuar o nome dos netos, diz.

Mariana, Akemy, Sandra e Higa, família toda carimbada em homenagem ao pai. Mariana, Akemy, Sandra e Higa, família toda "carimbada" em homenagem ao pai.

A filha Mariana foi a terceira a tatuar e vê no gesto, também uma mudança de pensamento do pai. "Quando a gente fez a primeira tatuagem foi 'nooossa' e ele fazer agora, pra gente é um grande passo", fala Mariana Higa, de 32 anos. 

Ao olhar para o braço, a caçula sente que vai estar sempre com o pai. "Ter ele para o resto da minha vida vai ser uma lembrança eterna e inesquecível, porque ele representou muito na nossa vida, nos ensinou, nos criou", resume. 

Akemy, também filha, foi quem agendou a tatuagem no estúdio e viu o quanto o pai estava ansioso. O agendamento mudou de horário, mas como ninguém estava se aguentando, chegaram ao estúdio com antecedência.

"Quando meu pai ouviu, vamos começar a sua seu Higa? Ele ficou tenso", conta aos risos Akemy Higa, de 34 anos. E antes mesmo da família terminar a sessão, Higa já disse a uma das netas que pretendia desenhar o rosto dela. "Ele ficou cheio de ideias, agora o velho vai se rabiscar", brinca Akemy. 

A parte mais bacana foi ver a família "carimbada". Havia um receio por parte da mãe tatuar, não por Sandra, mas as filhas que pensaram que pai é eterno, já marido... Mas os 40 anos juntos deram a eles a certeza de que o nome de Higa nunca será apagado. 

"Eu encarei mais como uma homenagem, é como vejo essa tatuagem, principalmente da Sandra. É uma forma de carinho", diz o fotógrafo. A dor não é toda aquela que Higa imaginou e depois da primeira, todo mundo sabe que a segunda já vem à cabeça. "Se vacilar, eu ainda faço quatro passarinhos, para os meus netos", completa.  

A promessa foi cumprida e Higa tem só mais uma, que ele conta aos risos. Fumante por anos, o AVC o fez parar, esquecer da dependência da nicotina. "A única promessa que fiz pra mim, é que antes de morrer quero fumar". Essa a gente espera que demora muito mais que uma década para se concretizar.  

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