A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

09/12/2015 06:23

Do quintal que ele chama de "Caverna", "mendigo de luxo" faz shows em inglês

Adriano Fernandes
O sonho do senhor Ramão é ter uma bateria de verdade. (Foto: Pedro Peralta)O sonho do senhor Ramão é ter uma bateria de verdade. (Foto: Pedro Peralta)

De uma obra inacabada no cruzamento da Rua Joel Dibo com a Avenida Fábio Zahran, Ramão Ortiz Dafüent, de 65 anos, fez um lar. Ele já conta 20 anos por ali, com um pedaço de papelão como cama e a imaginação que transformou o lugar em uma “caverna de estilo Capadócia”.

Veja Mais
Uber multado, reajuste de ônibus e cidade sob chuva bateram recordes nas redes
Do Corinthians ao canteiro de obra, zagueiro que virou servente tem nova chance

Apaixonado pela música e, em especial, pelo rock, ele fez do quintal da “caverna” seu palco, onde até a plateia é imaginária. O público, que por vezes aparece, é de gente curiosa. Basta chegar e conferir os ensaios de Ramão, o “Mendigo de Luxo” do Centro de Campo Grande, como ele mesmo se define.

O apelido, conta ele, é uma brincadeira sobre a própria situação em que vive. Na manhã de ontem, quando o Lado B foi conhecer Ramão, ele havia deixado o violão de lado por um tempo, enquanto cuidava das mudas de cebolinha que pretendia vender. Plantar sempre foi outro hobby do senhorzinho.

A única frustração do senhor Ramão é não saber cantar bem.(Foto: Pedro Peralta)A única frustração do senhor Ramão é não saber cantar bem.(Foto: Pedro Peralta)

“Se é feito com bom gosto é hobby, sim. Já plantei melancia e até maracujá aqui, mas daí veio esse pessoal ´revolucionário' e destruiu tudo. Até uma palmeira já roubaram ”, diz ele, a respeito das obras da avenida Fábio Zahran, que comprometeram todo o seu plantio.

No violão, ele arrisca uns acordes, mas seu forte mesmo sempre foi a percussão. Há dois anos, graças a bondade de um desconhecido, ele teve o primeiro contato com uma bateria, depois de muita batucada em baldes. “Eu estava tocando com meu baldinho de 20 litros, quando um rapaz parou e veio me ver tocar. No dia 23 de dezembro, ele retornou aqui e me deixou uma bateria”, conta.

Mas a alegria durou pouco e o instrumento foi roubado. A solução foi improvisar como podia, adaptando o que ele encontrou no lixo. As bases dos dois discos são da estrutura de ventiladores. O tambor de percussão ele também achou no lixo, e adaptou com papel plástico.

Uma camiseta velha ajuda a dar o tom das canções. Garota de Ipanema do Tom Jobim, Led Zeppelin e até Sweet Child O'Mine dos Guns N' Roses, são algumas das “palinhas” que ele cantou durante toda a entrevista.

“Essa música que eu acabei de cantar, do Led Zeppelin, fala de uma menina que comprou uma escada pro céu. Ao chegar lá, as janelas e portas estavam abertas, mas então ela acordou. Se deu conta de que era tudo um sonho” descreve. O inglês ele admite, é pura enrolação e sua única frustração é nunca tem aprendido a cantar bem.

 

A bateria adaptada, ele montou das peças que encontrou no lixo.(Foto: Pedro Peralta)A bateria adaptada, ele montou das peças que encontrou no lixo.(Foto: Pedro Peralta)

O pouco que sabe sobre os instrumentos, ele também aprendeu sozinho, ainda quando criança. Na infância, Ramão disse já ter morado até em bordel. Quando era jovem chegou a servir ao Exército e trabalhar na construção civil. Perguntei então o que havia acontecido para que ele chegasse a situação em que está hoje. A resposta foi em tom de desabafo.

“Eu não fui boa coisa não, hein. Já aprontei muito, fui traficante, sempre fui briguento e já fui preso várias vezes”, admite. Pelo corpo e nas mãos, mostra as marcas de quem viveu grande parte da vida nas ruas. Ele diz que já apanhou, foi atropelado várias vezes e até sobreviveu a uma explosão,  sabe-se lá aonde.

Atualmente, Ramão faz bicos no Mercado Municipal de Campo Grande. Nas horas vagas, além de tocar, diz fazer artesanatos que tenta vender nas ruas. Quanto à família, os pais já faleceram e o único contato que ainda mantém é com o filho, Leander.

“Nós ficamos sem se falar por uns 10 anos, mas hoje em dia ele vem me visitar sempre que pode. Eu tenho muito orgulho dele e ele também tem o maior orgulho de saber que eu sou músico e ainda roqueiro”, garante, emocionado.

O sobrado que ele assume ter invadido, é morada também de outros colegas de rua. Mas a solidão é quem sempre foi a sua fiel companheira. “Eu cheguei aqui só com meu papelão e vivo aqui todos esse anos, graças ao proprietário da obra que nunca quis me despejar e sempre me ajudou como pode. Moram na minha caverna eu e minha solidão”, resume.

Seu maior sonho é voltar a ter uma bateria de verdade. Por isso, fez questão de posar para uma foto mais bem produzida. “Deixa eu me ajeitar. porque o eu sou um mendigo de luxo. Já reparou que roqueiro sempre gosta de fazer fotos em lugares feios?” brinca sorridente..

Improvisando em sua versão de I Can't Get No Satisfaction dos Rolling Stones, ele se despediu do Lado B.

Curta a página do Lado B no Facebook. 




imagem transparente

Compartilhe

Classificados


Copyright © 2016 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.