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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

13/03/2014 06:36

Eles lutam por respeito, mas criticam os "afeminados" e se dizem gays “machos”

Elverson Cardozo
Graziani ao lado da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade. (Foto: Arquivo Pessoal)Graziani ao lado da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade. (Foto: Arquivo Pessoal)

Graziani Alves dos Santos é um homem, gay assumido, que sempre, desde que se entende por gente, falou mais fino e teve trejeitos femininos. Descobriu sua orientação sexual cedo, aos 13 anos, mas só conseguiu sair do armário aos 18. Fora dele, livre para assumir a própria personalidade, o cabeleireiro, hoje com 31, percebeu que, não bastasse a cobrança da sociedade, sempre cruel, os próprios homossexuais pediam uma máscara social: a de gay discreto, comportado, “com cara e jeito de homem”.

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Mas Graziani nunca foi assim. Ao contrário. Sempre foi muito expansivo, extrovertido e, na melhor colocação da palavra, escandaloso. Mudar, nessa fase da vida, além de desnecessário, seria lutar contra seu próprio eu. Esse jeito mais “alegre” nunca foi problema, mas, para alguns, a postura incomoda.

Para ele, seria até compreensível se os ataques viessem de outros grupos, que não dos homossexuais, que tanto lutam por igualdade. Mas não. A “tortura”, carregada de expressões como “bichinha”, “viadinho” e “mulherzinha”, surge, na maioria das vezes, entre os próprios gays, aqueles que se dizem “machos”, apesar da atração pelo mesmo sexo.

“É uma cobrança cruel, injusta, porque às vezes você deixa de conhecer uma pessoa legal, trabalhadora, honesta, sincera, só porque ela tem voz fina e trejeitos, sei lá. Eu já tentei mudar, mas meu perfil é esse. Sou muito extrovertido, gosto de fazer os outros sorrirem e acabo fervendo demais. Mas minha essência é desse jeito”, diz, ao contar que foi criado com duas irmãs, em um ambiente exclusivamente feminino, mas não acredita que isso tenha influenciado na sua sexualidade.

Sem plumas ou paetês – O Lado B ouviu um homossexual que está do outro lado da discussão e, portanto, defende o comportamento social mais aceitável. Para o jovem de 25 anos, que pediu anonimato, um gay ”não precisa anunciar aos quatro cantos o que é e nem andar como uma mulher 24 horas para se mostrar viado”.

Para ele, essa liberdade declarada, é querer chamar a atenção, levantar bandeira e, de certa forma, afrontar a sociedade. “Isso não quer dizer que o Joãozinho que é viado também defenda a diversidade, mais comportados, sem plumas e paetês, mas com argumentos”, declara.

Na avaliação do rapaz, é complicado afirmar que esse comportamento “pintoso” é parte da personalidade de uma pessoa, ou que o indivíduo nasceu e sempre foi assim, como defende Graziane, o cabeleireiro. “Ninguém muda de uma hora para outra”, argumenta.

Gays assim, prossegue, criam estereótipos, acabam sendo ridicularizados e isso reflete até na violência, avalia. “Por isso que ainda existe preconceito contra homossexual. A sociedade pensa que, porque um gay se comporta assim, todos são iguais“, declara.

Incoerência e preconceito – Homossexual assumido, mas “escondido” da família, um acadêmico de Engenharia Civil, de 20 anos, que também pediu sigilo dos dados pessoais, tem uma visão diferente sobre o assunto.

Para o jovem, que não se diz afeminado nem “macho alfa”, o preconceito interno, entre os próprios homossexuais, é incoerente. “No fim, todos nós somos gays e pronto. O que muda são os gostos, as características e até o papel sexual desempenhado. Isso não pode ser visto como maus olhos por nós mesmos”, argumentou, antes de questionar: “Como iria dar certo se todos tivessem o mesmo gosto e seguissem o mesmo padrão?”

Nas palavras do estudante, é preciso entender que belezas são relativas, que há uma pluralidade de indivíduos com temperamentos peculiares e que não deve haver desprezo por qualquer que seja a diferença. “Já enfrentamos tanto preconceitos com a sociedade heterossexual. Considero desnecessário isso entre os gays”.

Respeito – Na comunidade dos ursos (barbudos, gordinhos e peludos), o funcionário público Júlio César Velasquez Balbueno, de 40 anos, cita o respeito como solução.

Júlio é do time dos discretos, mas respeita as diferenças. (Foto: Arquivo Pessoal)Júlio é do "time" dos discretos, mas respeita as diferenças. (Foto: Arquivo Pessoal)

Existe o preconceito, é evidente, mas não dá para generalizar. Há, de fato, os gays masculinizados, “com cara e jeito de homem”, que gostam de ser assim e tem suas preferências. Júlio é um exemplo. Está no “time” dos discretos e prefere parceiros assim, mas nem por isso corre dos afeminados.

“Tenho vários amigos que são. Não os recrimino. [...] Se houver respeito pelo próximo, podemos conviver em harmonia. É isso que falta. A individualidade do próximo termina quando começa a minha. Temos que respeitar, independente se fala grosso ou mole, se usa cabelo comprido ou curto”.

Projeção - Curioso é perceber que, às vezes, o gay que se diz machão e abomina os “viadinhos” é, também, afeminado. “Isso existe muito”, comenta Julio. Para o funcionário público, atitudes como essa podem ter uma explicação na “pressão da sociedade”.

Psicólogo, Fabrício Basso explica que esse comportamento é comum a todos, não somente entre os gays. Há pessoas, disse, que não aceitam e, por algum motivo, não se identificam às suas próprias formas de ser e estar na vida. Acabam realizando manobras para evitar encontrá-las em si próprias.

“Não se percebem como tal e ainda acabam por fazer algo a evitar, como hostilizar, negar, projetar ou até mesmo não enxergar”, cita, ao dizer que essas manobras acontecem de maneira irreflexiva, ou seja, impensada.

Psicanalista Andréa Brunetto explica que o problema não é exclusivo dos gay. É do ser humano, que tem preconceitos, ideias, rotula. (Foto: Cleber Gellio)Psicanalista Andréa Brunetto explica que o problema não é exclusivo dos gay. É do ser humano, que tem preconceitos, ideias, rotula. (Foto: Cleber Gellio)

Fabrício afirma, ainda, que “discriminamos-nos a fim de afirmarmos e nos reconhecermos”. “É através da discriminação onde descubro/afirmo/defino quem sou”, diz. “Os preconceitos são introjetos não assimilados”, completa. Não é algo pensando, mas, sim, configurado.

Do ser humano - A psicanalista Andréa Brunetto teoriza de maneira semelhante. No mundo gay, diz ela, “se estabelece rótulos e preconceitos, têm-se um ideal de beleza e quem fica aquém é sujeito a deboches, a ser estereotipado como mais afeminado ou mais másculo”.

Mas o que há de diferente disso do “mundo hétero?”, questiona. “Isso não é do mundo homo ou hétero. Isso é do humano. O ser humano tem preconceitos, têm ideais, rotula”, responde ela mesma.

O mundo está cheio de problemas e complicações, completou. Porque entre os gays seria diferente? “O mundo em que vivemos é esse aí. Digo isso sem fatalismos, sem pessimismo. E para encerrar, repito a frase freudiana, que ele copiava do grande escritor alemão Goethe: ‘precisamos começar a amar para não adoecer’. E o amor não tem sexo”, conclui.




Me reportando a comentários do leitor Lucas, há de se ressaltar que os ensinamentos bíblicos, realmente nos ensina amar um ao outro, só que a interpretação que vc quer dar é a de que evangélicos e católicos não amam os gays pelo contrario. Pq vc acha que uma mãe ou parente leva alimentos e outros dengos a seu filho querido que está preso? Porque eles os ama. Não quer dizer que os apoiam em seus atos de bandidos...Vale lembrar que é a própria bíblia que nos alerta:Lev.22: Não te deitarás c homem como se faz c a mulher...I Cor.6:9: ...nem efeminados farão parte do reino de Deus.Conclui-se que Deus ama o pecador,mas abomina o pecado! O que é abominável é a pratica promiscua do homosexualismo, querem ter mais direito q o cidadão comum..é inaceitavel.
 
Samuel Gomes em 13/03/2014 15:12:18
A indiscrição incomoda a sociedade, seja da parte dos homos quanto dos héteros, o primeiro rapaz que se diz alegre, é indiscreto, pois tenho certeza que quando está com "as amigas", chama um ao outro de "mona', chama de mulher, falam palavrões chulos, andam rebolando, fazem bafão. Isso incomoda, da mesma maneira que me incomodava um casal que pegava ônibus comigo quando eu era adolescente e eles literalmente se comiam no ônibus, ou mesmo as senhoras que trabalham de domésticas e vêm no ônibus falando alto da vida dos patrões, da vizinha e até mesmo da própria família.
 
Mário Souza Costa em 13/03/2014 10:41:54
Excelente reportagem, parabéns! Está mais do que na hora de respeitarmos as pessoas independente de sua orientação sexual. Não entendo porque os gays incomodam tanto alguns "heteros" e alguns segmentos da sociedade, especialmente a comunidade evangélica. Devemos deixar cada um viver e ser feliz do seu jeito!
 
claudia ribeiro em 13/03/2014 10:14:19
Tenho 25 anos apenas, e creio que se somarmos a fala da psicanalista Andréa Brunetto "O ser humano tem preconceitos, têm ideais, rotula”, a frase de Goethe "precisamos começar a amar para não adoecer" e os próprios mandamentos de Jesus "Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo. - João 15:12", veremos que a receita para nós, meros seres humanos, cheios de qualidades e defeitos, acertos e falhas é única, devemos nos corrigir e aprender a amar o ser humano por ser humano e não pelos rótulos que nos impõe ou que nos impomos. Não é de hoje e nem de ontem que o ser humano vem se desvalorizando e perdendo sua essência por causa de tantos rótulos. Creio que quando aprendermos a amar-mo-nos uns aos outros como a nós mesmos, aí as soluções surgirão. Paremos de rotular!!!
 
Lucas Iester Pereira Ipólito em 13/03/2014 08:21:42
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