A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

05/11/2016 10:27

Há 28 anos, Laís é o ouvido e a porta-voz da irmã mais que especial

Paula Maciulevicius
Laís tem 28 e a irmã Elisa 29 e desde que nasceu, caçula é porta-voz da irmã. (Fotos: Paula Maciulevicius)Laís tem 28 e a irmã Elisa 29 e desde que nasceu, caçula é porta-voz da irmã. (Fotos: Paula Maciulevicius)

A diferença de idade é de 1 ano. E se não fosse pela proximidade do nascimento, seria pela consequência da injeção que Elisa tomou ainda bebê. Desde que se conhece por gente, Laís se comunica por libras com a irmã que perdeu a audição e nunca a ouviu chamar para brincar. 

Veja Mais
Caligrafia da escola rendeu à Marystella a profissão de designer de lousas a giz
Luis ganhou o título de presidente e hoje é dono da própria cadeira no bar

As duas criaram uma relação de cumplicidade que vai além de querer ser companhia uma da outra. É viver uma pela outra. Lais Paulino tem hoje 28 anos, é servidora pública e a irmã, Elisa Ferreira Rodrigues Paulino, tem 29 e é professora. "Só idade, porque a cara é mais jovem que a dela", brinca Elisa.

A entrevista acontece na casa de Laís e enquanto ela conversa comigo pela voz, usa as mãos para interpretar o que estou perguntando à Elisa. Quando a resposta vem, Laís coloca som nas conclusões da irmã.

Laís até se emociona ao falar do momento mais emocionante da irmã, de ter visto Elisa se formar. Laís até se emociona ao falar do momento mais emocionante da irmã, de ter visto Elisa se formar.

As duas são as mais velhas dos quatro filhos da família. Com 8 meses de idade, Elisa tomou uma injeção errada e teve complicações graves, entre elas paralisação dos rins. "Os médicos falaram, se vocês acreditam em Deus, é só um milagre e se ela se salvar, ficaria alguma sequela e ficou a surdez", explica Laís.

A perda da audição fez com que a família que morava em Cassilândia, interior do Estado, se mudasse para Campinas, em São Paulo. A adaptação, segundo as irmãs, não foi fácil. Era a primeira vez que alguém da família lidava com todas essas mudanças. "Meus pais, com o passar do tempo, levaram ela para um colégio especial e foram fazendo fono, todo o desenvolvimento com psicólogos, englobou vários setores da acessibilidade e fomos procurando outros recursos para desenvolver cada vez mais", recorda.

Pela diferença de idade ser pequenininha, a adaptação foi natural para a irmã. "Como estava dentro de casa, via minha mãe tratando ela. A gente foi crescendo e depois quando ela foi para um colégio regular, sempre nos colocavam na mesma sala e conforme o tempo foi passando, fui me identificando mais com as libras para eu poder falar com ela", narra Laís.

Elisa responde em libras e é interpretada pela irmã. Elisa responde em libras e é interpretada pela irmã.

Se uma ia ao mercado ou ao shopping, a outra ia também. "Até parecia que nós eramos gêmeas", brinca Laís. Em casa, mãe e a irmã caçula sempre falaram libras, mas porta afora, o mundo não consegue e nem tenta a comunicação. "Conforme eu fui crescendo, fui vendo vários lugares onde ela tinha dificuldade, aí eu ia falando em libras", conta. 

Mais que ouvir, Laís se tornou a porta-voz da irmã, sempre repassando o que ela precisasse. "As pessoas não usam libras. Na justiça, no hospital, não tem intérprete", diz Elisa. E a irmã emenda explicando que, mesmo se Elisa escrevesse, pelo fato de não ouvir, o português é diferente. "Um ouvinte vai entender mais ou menos, porque não tem verbo de ligação", exemplifica Laís. 

Vivendo uma ao lado da outra, o momento mais emocionante das irmãs arranca lágrimas até hoje. "Quando ela casou? Não, não, quando ela se formou. Vou chorar... É que a gente achou que nunca fosse estudar, porque é difícil e ela se formou na Federal, indo e vindo de Dourados todos os dias", recorda a irmã.

Casada, Elisa hoje já é mãe de Ester, de 5 meses. Uma menininha linda, sorridente e que desde cedo demonstra a vontade de se comunicar com as mãos. Ouvinte, ela será a futura porta-voz dos pais. 

"O que a minha irmã é para mim? Mais que especial", resume Laís. "E eu fico muito feliz, é muito importante a minha irmã se preocupar, ir atrás dos nossos direitos. Fico emocionada, minha irmã se prontificou a estudar, a trabalhar junto para a gente se comunicar", responde Elisa. 

Curta o Lado B no Facebook. 

Casada, Elisa hoje já é mãe de Ester, de 5 meses, que futuramente será a sua porta-voz. Casada, Elisa hoje já é mãe de Ester, de 5 meses, que futuramente será a sua porta-voz.



imagem transparente

Compartilhe

Classificados


Copyright © 2016 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.