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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

30/12/2015 06:57

Mais um ano como vidraça e sem paciência para quem gosta de ser pedra

Ângela Kempfer
Mais um ano como vidraça e sem paciência para quem gosta de ser pedra

Se 2015 ensinou algo à nossa equipe é que muito melhor do que ver tudo de cima do muro é tomar partido. Definitivamente, escolhemos ser vidraça, independente do risco das pedras. Difícil foi encontrar parceiros nessa jornada.

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Depois de polêmica sobre repressão a amasso gay em uma casa noturna da cidade, por exemplo, tentamos com afinco encontrar um casal que fosse para a rua testar o respeito à diversidade. Por dias buscamos gays ou lésbicas que dessem a cara a tapa e mostrassem afeto em público. Só depois de muita persistência encontramos Igor e Theodoro.

Em outro dia, em uma roda de conversa sobre fidelidade, surgiram defesas sobre as relações abertas, sobre o direito de amar sem amarras. Uma boa pauta, mas sem qualquer pessoa que assumisse publicamente a defesa de uma casamento assumidamente aberto. Por isso, a matéria não vingou.

Depois de algumas frustrações a pergunta que fica é: Debates não são feitos porque Campo Grande não evolui ou Campo Grande não evoluiu porque ninguém está disposto a fazer determinados debates?

Igor e Theodoro aceitaram o desafio de ser vidraça.Igor e Theodoro aceitaram o desafio de ser vidraça.

A verdade é que nem dá para condenar os que preferem assumir posições só em mesa de bar. Quando a cara é estampada no jornal, não há Cristo que suporte a enxurrada de preconceito. Nem nós aguentamos tanta gente escrevendo besteiras.

Do lado de dentro da janela, fazemos o exercício da tolerância.

O bom é que avistamos lentamente comportamentos e todas as formas de amor, sem a velocidade brutal do arremesso que muita vezes surge na direção de personagens exibidos aqui no canal.

Na série "Saindo do Armário", pessoas corajosas falaram de sexualidade sem pudores e receberam declarações violentas nas redes sociais.

Muitas vezes vítimas de crimes de natural indignação viraram alvos, como caso da coroinha que engravidou do padre e acabou apedrejada virtualmente na página do Campo Grande News. “Abuso coisa nenhuma! A mulherada é safada mesmo!”, foi só o começo da esculhambação.

E a artilharia surgiu pesada, de todos os lados, de pessoas ditas religiosas, até de quem deveria cumprir a lei.

Depois de uma entrevista ao Lado B, o grupo de rap Locoeste recebeu a visita da polícia, pelo fato de cantar o que muito garoto da periferia vê com certa regularidade: a truculência policial. O grupo do bairro Tiradentes foi obrigado a retirar clipe do Youtube, que só voltou ao ar semanas depois.

A prova de que eles tinham razão surgiu no mesmo mês, em ação de delegacias especializadas na porta do Shopping Campo Grande, para garantir o conforto de quem compra no local.

Centenas de garotos que passavam, sem nenhum critério ou ameaça aparente, foram submetidos ao constrangimento da revista em "praça pública", a maioria, meninos e meninas que chegavam de ônibus, para aproveitar um dos poucos espaços públicos que a cidade oferece.

Nas redes sociais e grupos de Whatsapp, perdemos de lavada. Policiais exaltados só não chamaram jornalista de "bonito". Consideraram ofensa reportagens sobre o uso da força policial em beneficio de um grupo de comerciantes.

E os leitores acompanharam a gritaria. Apoiaram a ignorância da generalização, a ordem do "bandido bom é bandido morto", do "isso não é coisa de Deus"...

Banda Locoleste, personagens de uma das matérias mais polêmicas do ano.Banda Locoleste, personagens de uma das matérias mais polêmicas do ano.

Apesar dos pesares, nosso conselho para 2016 é: Tenha a transparência do vidro, não a brutalidade da pedra. Não há como se arrepender. Para a gente, vale muito a pena.

As reações diante da nossa defesa do amor sem padrões por vezes são ferozes. Mas também há reconhecimento, como o prêmio conquistado este ano pela repórter Paula Maciulevícius com a matéria "Cinco dias depois de achado o corpo, quem vai chorar no velório da travesti?", concedido pela Rede Apolo.

Enquanto muitos continuam com a ladainha questionando "Isso lá é matéria?", insistimos em falar dos anônimos. E mudamos a vida de muito deles. Outro prêmio de 2015 foi parar no bairro Buriti. Por conta de reportagem publicada aqui, a lanchonete Delícias da Tia recebeu o Prêmio Lado B Mérito Lojista, a principal homenagem do varejo em Mato Grosso do Sul e um super agrado ao batizar a conquista com o nome do canal.

Já são 4 anos de textos despidos de qualquer preconceito, muitos apoiadores, alguns críticos coerentes, leitores amáveis, colaboradores aplicados. Por isso, apesar das pedras, não há nenhuma vidraça trincada por aqui.

Paula Maciulevícius recebeu prêmio da Rede Apolo. (Foto: Thaiany Silva)Paula Maciulevícius recebeu prêmio da Rede Apolo. (Foto: Thaiany Silva)
Este ano, CDL criou o Prêmio Lado B Mérito Lojista.Este ano, CDL criou o Prêmio Lado B Mérito Lojista.



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