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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

21/11/2016 06:05

Morte fez casamento durar só 1 ano, mas para Gui, amor valeu a eternidade

Paula Maciulevicius
Imagem que não sai da cabeça de Guilherme, os fogos do casamento que vão virar tatuagem. (Foto: Marcus Moriyama)Imagem que não sai da cabeça de Guilherme, os fogos do casamento que vão virar tatuagem. (Foto: Marcus Moriyama)

Gabi passou pela saga de tratar por meses uma doença autoimune, quando na verdade, o diagnóstico era de aplasia medular. Viu o transplante de medula óssea dar certo e comemorou um final feliz, que na verdade nunca existiu. Viveu duas vidas em 23 anos, plantou sementes e deixou o amor para regá-las depois que ela tivesse partido.

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Noiva de um “emocionante sim”, Gabriela Morais Brasil se despediu no último dia 15, depois de um ano e meio de luta contra o próprio corpo, que insistia em se destruir por dentro, mesmo quando por fora o sorriso demonstrava tamanha vontade de viver.

O que ficou de quem partiu ouviu e chorou com Guilherme, o noivo que não contou a sua versão da história na primeira reportagem sobre essas história de amor, porque não tinha assunto que Gabriela gostasse mais do que seu casamento. Por meses, o quarto do hospital em São Paulo, onde ela ficou internada boa parte do tempo, foi tomado pelo álbum do grande dia do casal e o vídeo também não parava de ser exibido. Repetidas vezes.

Gabi, antes de perder o cabelo com a quimioterapia, cortou as mechas e doou. (Foto: Arquivo Pessoal)Gabi, antes de perder o cabelo com a quimioterapia, cortou as mechas e doou. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em junho deste ano, Gabriela e Guilherme fizeram sete anos juntos, contando namoro, noivado e casamento. “Foi um acaso muito feliz, uma manobra divina”, lembra Guilherme Mungo Brasil, de 26 anos, sobre quando se conheceram. Ele com 19 anos e ela, com 16, numa festa em que Gabi foi de “bicão”.

Juntos, cresceram e compartilharam as pequenas grandes conquistas um do outro. O primeiro carro de Guilherme, a aprovação nos concursos ainda à época do estágio, a entrada dela na faculdade. Desde setembro de 2013 eles planejavam o casamento. Eles, casal, porque ela, por si só, já tinha uma pasta salva no computador com tudo aquilo que sonhava antes mesmo de conhecer o noivo.

Em 2014, Guilherme tomou posse num concurso público federal em Ponta Porã. O ano seguinte já traria o mês de outubro, quando eles trocariam os votos e as alianças. Ainda nos preparativos, Gabriela recebeu o primeiro diagnóstico, depois de perceber manchas roxas pelo corpo: Púrpura Trombocitopenica Idiopática, uma doença autoimune, em que o corpo mata as plaquetas. “Foi um baque muito grande, a gente foi tratar e começou a saga em junho de 2015”, recorda Guilherme.

O protocolo da doença tinha medicações a base de corticoide, que fizeram Gabriela ganhar 20 quilos de inchaço e a retirada do baço, depois de uma segunda opinião com um especialista de São Paulo. “Nessa saída da cirurgia, muita coisa não batia, mas continuou-se com a aposta da Púrpura”.

Apesar de muitas sugestões, Gabriela não aceitou cancelar ou sequer adiar o casamento. Muito menos Guilherme. O primeiro grande sonho dela já tinha sido interrompido, quando o tratamento a fez trancar a faculdade de Odontologia.

Para fazer companhia, Guilherme também raspou a cabeça. (Foto: Arquivo Pessoal)Para fazer companhia, Guilherme também raspou a cabeça. (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois da cirurgia, a expectativa era de tudo dar certo, mas as medicações tomadas anteriormente teriam supostamente prejudicado a medula de Gabriela e o casal teve de encarar outro medicamento e de alto custo. Mesmo assim, o casamento aconteceu exatamente como Gabriela sonhava. “A gente fez tudo o que queria, conseguiu celebrar, comemorar o amor que tinha um pelo outro, junto de pessoas queridas”, lembra Guilherme.

Pelo quadro clínico, não teve viagem de lua de mel e o casal se mudou para Dourados, onde morariam. Apesar dos médicos falarem para ela seguir com o tratamento, os remédios não faziam o efeito esperado e em consulta com uma especialista da cidade de Dourados, já no começo deste ano, a suspeita era de que a doença autoimune tinha sido diagnosticada erroneamente. “Concomitante a isso, sinais diferentes começaram a aparecer, além das plaquetas baixas, uma anemia com origem na medula”, conta o marido.

No final de maio, um exame apontou aplasia de medula grave, já com a parte imunológica cheia de alterações. De volta a São Paulo, a viagem que duraria três dias para consultas terminou na primeira de uma série de internações para tratar a medula. “Era uma doença benigna, não era leucemia. Apesar do tratamento, em alguns casos, ser parecido, é menos grave”, explica Guilherme. Pelo Facebook e WhatsApp, o casal adentrou no “mundo” da aplasia, uma doença rara, descobrindo grupos de pessoas que passavam pela mesma situação.

O tratamento era por medicação ou transplante. Os médicos tentaram a primeira possibilidade até esgotá-la, para então – com o pai de Gabriela como doador – fazerem o transplante. Além da aplasia, foi diagnosticada também outra doença, HPN. “Depois que entendemos mais a situação, percebemos que os médicos da época teriam condições de terem visto nos exames pré-cirúrgicos que não era Púrpura”, detalha Guilherme. “Mas não os culpamos, pois sempre há um médico do dia seguinte”, completa o marido.

Das fotos que mais traduzem quem foi Gabi. (Foto: Arquivo Pessoal)Das fotos que mais traduzem quem foi Gabi. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na programação dos médicos e do casal, em três meses o tratamento atenderia à doença, devolvendo para Gabi sua saúde. Nenhum dos dois nunca pensou na despedida. Só que em julho, complicações apareceram e as internações ficaram cada vez mais frequentes, exigindo que o casal se mudasse, de vez, para São Paulo. “Eu sempre fiz questão de dar a mão pra ela, sempre. A gente levava numa boa, quando tinha que fazer exames em outros hospitais, andar na ambulância era passeio. Encaramos de forma leve, era uma fase difícil, mas logo logo a gente ia voltar para o nosso mundo”, narra o marido.

Do final de julho a setembro, foram 60 dias de internação direta e o início de uma aflição. “Ela sentiu que o tratamento não estava dando certo”, notou Guilherme. Em setembro foi feito o transplante, que correu bem e em cerca de 20 dias a medula pegou.

O procedimento exigia sessões de quimio e radioterapia, que trouxeram a Gabi enjoos, mas não lhe tiraram o sorriso em momento nenhum. Consequentemente, também houve a perda de cabelo e com ela, uma das tantas sementes que Gabi espalhou, encontrou solo fértil.

Sempre vaidosa, as fotos que estampam as homenagens hoje prestadas à Gabriela no Facebook, são de uma jovem sorridente, de rímel, batom e turbante. Os registros correram o hospital e trouxeram conforto e incentivo a quem passava pela mesma situação. Que Guilherme soube, uma criança e uma senhora passaram a aderir ao turbante e ao batom, contagiados por Gabi.

A alta pós transplante veio no final de outubro, mas durou poucos dias. Sinais de uma suposta sinusite levaram Gabi e Guilherme de volta para o hospital. “No dia que me falaram que iam ter que internar de novo, ali eu fiquei sem chão, frustrado. Mas se tinha alguém para estar frustrado ali, era ela, que me chegou a pedir desculpas por estar internando”.

Casal no hospital, em uma das séries de internações. (Foto: Arquivo Pessoal)Casal no hospital, em uma das séries de internações. (Foto: Arquivo Pessoal)

As lembranças voltam à tona com lágrimas do marido. Gabriela era firme e forte, enquanto ele se permitiu desabar. Dois dias depois de deixar o hospital, Gabi teve de ser internada de novo, desta vez com um quadro ainda mais grave: com a função renal prejudicada.

“E ainda viram que ela estava em hemólise, o corpo dela estava destruindo as hemácias que a medula produzia”, traduz. E dali para frente, os dias passaram cada vez mais rápidos. “Foram poucos dias. Eu não acreditava. Ela começou a ter dificuldade respiratória e foi para a UTI, um dos dias mais difíceis, porque ela me pediu desculpas de novo. Foi ali que ela me olhou, com uma carinha morrendo de medo e falou pela primeira e única vez: amor, eu tô com medo”.

Houve uma volta para o quarto e um retorno final para a UTI. Novos exames detectaram a presença multiplicada por milhões de um vírus simples, Epstein-Barr, da mesma família da herpes. “Mas quando esse vírus ativou, o organismo dela não teve como se defender”. Crentes de que Gabriela ia melhorar, os familiares viam que além da medicação não responder, o quadro só se agravava e Gabi chegou a sentir dores por todo o corpo.

“Eu ficava acordado, segurando a mão dela o tempo todo”. Na segunda noite de UTI, Gabriela já foi sedada, devido à forte agitação. Guilherme resistiu o quanto pode e na quarta noite, na última segunda-feira, a mulher teve de ser entubada. “Era para ela ficar segura, o cérebro podia parar de coordenar a respiração e ela podia ter uma parada. Foi para não acontecer nada assim”, explica. Os médicos deram a ele e à família a esperança de tirar os tubos em dois ou três dias.

“Antes de entubar, ela não respondia mais ninguém, não reagia. O médico falou com ela, ela respondeu ‘oi doutor’ e quando ela olhou para mim, conseguiu interagir um pouco. Eu olhei pra ela e disse: ‘amor, eu te amo’ e ela fez que sim com a cabeça. ‘Tô aqui com você’, porque prometi não sair do lado dela”. ‘Não para de remar’, narra.

Ao lado dos pais, quando a medula pegou. (Foto: Arquivo Pessoal)Ao lado dos pais, quando a medula "pegou". (Foto: Arquivo Pessoal)

Guilherme não deixou o médico dizer que iam entubá-la. Falaram apenas que ela dormiria para descansar. Por ordem dos médicos, o marido também foi dormir, em casa. Terça de manhã, dia 15, a primeira coisa que ele fez foi checar pelo celular os resultados dos exames da esposa. Estavam alteradíssimos em níveis “extraordinários”.

“E a nossa expectativa era sempre de: está grave, mas a gente tem isso, isso, isso para reverter e vai passar”. Às 8h30 da manhã, enquanto Gabriela, ainda sedada em nível intenso em razão da entubação, era avaliada pela equipe intensivista, Guilherme chegou, a beijou, disse que estava ali e ouviu dos médicos que o caso era muito grave. “A gente tem esperança do que agora? Quando eu falei isso, ela entrou em arritmia. Foi cena de filme, me tiraram do quarto, entraram com desfibrilador...”

O relógio parou de contar minutos a cada 60 segundos e passou a se arrastar. Guilherme não sabe quanto tempo levou o procedimento e nem a caminhada do médico até ele para dar a notícia. “Eu pensava: ele vai dizer que deu uns choques e ela estabilizou, vai aguentar e a gente vai reverter. Mas não. Ele colocou a mão no meu ombro e falou ‘vamos ali num canto’. Chorei, gritei, vomitei, chutei tudo. Eu não acreditava que isso podia acontecer”.

Guilherme nunca achou que fosse perder Gabi. Mas com o tempo, vai poder perceber as flores que ela deixou pra ele. Um profissional que a atendeu enquanto esteve internada, por exemplo, viu na história do casal o que precisava ver na própria vida.

“Ela mostrava o vídeo do nosso casamento para todo mundo e isso mexeu muito com ele. Ele contou que tinha deixado uma ex em sua cidade e que nós os inspiramos de um jeito, que ele começou a rever muita coisa. E depois que ela se foi, ele resolveu largar tudo em São Paulo e está voltando para ficar com essa mulher”.

Gabi motivou, tocou e inspirou muita gente. “O que ficou dela? Tudo e mais um pouco. Exemplo de inspiração, de fé, força, determinação, garra e sobretudo alegria e felicidade. Ela tinha que viver só 23 anos e foi isso que aconteceu, mas ela gerou muitas sementes e alcançou muita gente com o que ela passou, pelo amor, fé e serenidade”.

Uma das imagens que não sai da cabeça do marido vem lá do casamento. Quando os dois adentravam no salão – pela primeira vez como marido e mulher – e do lago saiam fogos. “A gente está de costas, olhando para os fogos e pra mim, é a gente olhando para o nosso futuro, só com coisa boa”. A fotografia vai virar tatuagem, marcada quando Gabi ainda estava aqui, para janeiro de 2017.

Se Guilherme soubesse, sete anos atrás, tudo o que viveria, teria feito igual? “Dez milhões de vezes. Se eu pudesse recomeçar amanhã, faria tudo de novo, infinitamente”.

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Que triste, mas é uma lição de vida sobre o amor, parabéns, que Deus console ele e a familia dela!!
http://kiamorcia.com.br/index.html
 
Andrea Santos em 29/11/2016 13:20:29
Não tive a oportunidade de conhecer a Gabriela pessoalmente, mas era como se a conhecesse... Acompanhei a história dela quando pesquisando sobre casamentos, apareceu no primeiro link, a reportagem no CG News sobre ela e o Guilherme. Com uma história tão linda, não tinha como ficar quieta, mandei um direct para ela desejando uma boa recuperação e pra ela confiar que tudo daria certo. Acompanhei pelas redes sociais o tratamento, e ficava feliz com cada notícia boa que ela dava... Tinha até um 'bolão' do pega medula... Não temos como questionar os planos de Deus, mas tenho certeza que ela plantou em muitos corações um sentimento bom, de nunca desistir dos sonhos e nem do amor. O Guilherme também pode mostrar um exemplo de companheirismo. Desejo que o tempo possa amenizar a dor deste momento.
 
Flavianna Teles em 21/11/2016 10:58:13
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